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Carta para um amor que se vai

Para Beterraba^_

Nas ruas de São Paulo, nossa imensa cidade. Uma noite molhada e deserta. Eu ando. Cabeça erguida, pois tenho coragem com a vida, orgulho de ser quem sou e por fazer apenas o que realmente acredito.

O céu está escuro agora, não se vê a lua cheia que brilhava majestosa, com suas estrelas súditas a rodeá-la, mas isso foi ontem. Hoje, dia 15 de dezembro do último ano do milênio, ando pelas ruas da minha imensa cidade, pensando, sentindo, olhando, cheirando.

As ruas nesses dias cheiram um frescor de água da chuva, que parece lavar todos pecados que cometemos em nossa vida. Ando com a cabeça erguida, e a solidão me acompanha, atrás de mim minha amiga tristeza se perdeu numa das esquinas.

Passo em frente a padaria fechada, com seus letreiros de neon a refletir no asfalto molhado. Um vento quente, vindo direto do inferno nesse momento balança minhas vestes e cabelos. Mas ele não me afeta, nessa noite nenhum pensamento impuro ou inferior me afetará.

Penso naquela tarde em Arujá com suas colinas verdejantes, no céu azul profundo daquele dia, no sol completamente amarelado, no ar puro. Penso como me senti uma das pessoas mais felizes do mundo, em como todas essas paisagens me acalmavam, nesse momento difícil que vivo. Nas árvores balançando vigorosas e verdes com o vento, nos raios do sol que acariciavam minha face e produziam um calor reconfortante, no céu azul a refletir em meus olhos e me fazer acreditar que em determinados momentos a vida pode ser perfeita.

Piso numa poça de água e isso me trás de volta a minha realidade, estou no dia 15 de dezembro, andando por uma rua deserta, molhada, escura e silenciosa. Como se fosse a única criatura do mundo e do universo, como se toda população do mundo, tivesse se transferido para a Lua e eu estivesse só, inclusive sem vc.

A quem amei muito, e que em poucas horas, se separará de mim definitivamente. Penso em seu perfume, nas músicas que vc gosta e que ouvi, no que conversamos até agora. Nas vezes que brigamos e rimos, nas confidências que trocamos e nas muitas vezes em que mentimos um para o outro.

Penso em sua boca, e nos beijos que não iremos trocar, nos abraços interrompidos e do sussuro na orelha que faltou. Tudo que não mais irá acontecer porque nos separaremos em algumas horas, para nunca mais nos vermos.

Penso nos seus medos, os conscientes e os inconscientes, seu temor em se tornar um adulto, no seu medo da solidão, a mesma companheira, que caminha ao meu lado agora.

Algumas horas apenas , é isso que nos separa de nosso futuro, depois dessas horas serão anos, depois décadas. Todo nosso futuro que estará ainda por vir, tristezas e alegrias, felicidades e decepções. Apenas poucas horas nos separam de nunca mais nos conversarmos, vc poderá estar em qualquer lugar, desse país imenso assim como eu.

Não poderemos nem ao menos suspeitar do que um poderá estar fazendo naquele instante, e pior, depois de algum tempo, nem isso iremos mais pensar, ficaremos guardados e trancados na memória, como lembranças do passado, aquilo que já foi e que talvez não valha lembrar.

Mas esse instante é real, eu vivo nele, estou andando nas ruas molhadas, pensando em vc e na nossa separação definitiva.

Nesse instante, quando penso em vc, me vem a mente uma tarde fulgurante e clara, verde e cheia de vida e calor.

Fecho meus olhos e respiro fundo, ao fechar meus olhos vc enquadrado na paisagem verdejante e ensolarada me aparece.

Abro meus olhos e o que vejo é uma rua infinita, escura, silenciosa e molhada pela chuva.

Uma rua da minha cidade, de onde vivo.

Caminho por ela e por ela seguirei, com minha companheira solidão a me acompanhar. E uma grande saudade sua vinda do coração, saudade que sinto desde já.

Um beijo de quem te ama.

GataMarieLouca

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