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Novidades do mundo das drogas desafiam médicos e famílias Entrevista de Lilian Fitte Fibbe para: http://www.terra.com.br/jornaldalilian/ Sábado, 31 de março de 2001, 03h22min Olá... o nosso assunto é o uso de drogas, que pelo jeito não diminui nem no Brasil, nem no mundo. Nós vamos conversar hoje com o psiquiatra Arthur Guerra, que é o coordenador do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas (GREA), do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo; a dona Genilsa dos Santos Oliveira, que é mãe de um ex-dependente químico e um atual dependente químico que nós vamos chamar apenas de João, que tem 28 anos e está se tratando para se livrar das drogas.Lilian - Dr. Arthur como é que está o consumo e o uso das drogas? Elas estão ficando mais acessíveis, menos caras e portanto, cada vez mais populares? Dr. Arthur - O que nós vemos no mundo, no Brasil e especialmente em São Paulo, é algo que nós nunca tínhamos visto antes. Nós nunca vimos tanta gente usar tanta droga, e drogas novas, numa idade tão precoce. O assunto drogas é um dos principais em termos de saúde pública. O acesso é fácil, existe uma banalização do tema, isto é, as pessoas não se importam com a dependência. Tem uma mentira dizendo que a droga não leva à dependência, especialmente drogas leves como a maconha. E não tem um alerta para a população, os familiares, a sociedade, escolas e empresas. Então, cada vez mais, pessoas mais jovens consomem mais drogas. Pior: drogas novas. Drogas sintéticas. Drogas que não são plantadas como: maconha, cocaína, crack, álcool. Drogas que são produzidas em laboratórios clandestinos. Isso é um perigo e o futuro, infelizmente do ponto de vista médico, é cinzento, sombrio em relação a esse tema. Lilian - Outro dia estávamos falando em droga sintética e surgiu aqui uma notícia de saúde internacional. Alguém disse: essa é uma droga de uso veterinário que a garotada está usando. Dr. Arthur - É a ketalar. Ketanina é a substância. Em geral são ou estimulantes ou analgésicos potentes que levam a um estado mental diferente daquele que a pessoa habitualmente vive. Lilian - Esse entra na composição do ecstasy, por acaso? Dr. Arthur - Não, esse é uma outra coisa. A Ketalar é uma substância líquida, que serve em geral para você estimular o animal. Geralmente um animal grande, um cavalo por exemplo. Lilian - Mas estimular o animal, pra começo de conversa, pra quê? Para ele correr mais? Dr. Arthur - Para ele correr mais, para ficar mais agitado. Lilian - E não tem antidoping em corrida de cavalo? Dr. Arthur - Tem. E é por isso que são feitos alguns dribles, algo assim. O ruim disso é que a molecada começa a usar isso. Lilian - Onde eles acham isso, no haras do pai? Dr. Arthur - Acham nos consultórios de veterinárias, em locais onde se vendem remédios para animais. E pior que essa é uma outra associação mais perigosa ainda, que é um flagelo, podemos dizer assim. São hormônios, especialmente hormônios de crescimento e da testosterona. Os rapazes, em geral adolescentes de 12, 13, 15, 18 anos, querem se sentir mais potentes e querem impressionar melhor a moça da mesma idade deles. Lilian - O efeito é de um anabolizante para ficar mais musculoso ou mais potente sexualmente? Dr. Arthur - Hormônios servem para aumentar a massa muscular. E muitas vezes podem causar impotência sexual. Lilian - O senhor diz especialmente em São Paulo hoje. Esse "hoje" inédito é de quanto tempo para cá? Dr. Arthur - A droga é um dos três maiores mercados do mundo em termos de alguma coisa ilícita. Armas de guerra vêm antes, droga em segundo lugar e depois prostituição. Nós não temos os dados, onde podemos dizer, o consumo de cocaína hoje em São Paulo é de tantas toneladas ao dia. Lilian - Claro. A sua experiência clínica mostra que o consumo nunca foi tão grande, é isso? Dr. Arthur - Sim, e em todas as classes sociais. Classe mais simples, média e alta. Lilian - Será que as escolas relaxaram? Há uns dez anos, as escolas particulares estavam com muito programa sobre o uso de drogas, falavam da maconha, da aids. Faziam uma espécie de psicodrama, para usar um termo que está na moda, por causa da Marta Suplicy. Dr. Arthur - Eu não acho. Ao contrário, as escolas estão mais atentas. Acho que mudaram três fatos, e para pior: o acesso ficou mais fácil, a droga é mais fácil de ser encontrada e por um preço menor; em segundo lugar, existe uma idéia de que o uso ocasional, experimental ou social da droga não vai fazer mal e terceiro, o que é pior - os pais, os professores, os supervisores não gostam de falar sobre o assunto. Alguns pais de pessoas que eu trato no meu consultório utilizam drogas juntos com os filhos. Lilian - Quem ensinou quem? Dr. Arthur - Em geral, o pai começa a usar antes e quando vê que o filho está usando, na tentativa romântica, ingênua de pensar que o filho não vai para drogas mais fortes, começa a usar junto com o filho. Isso acontece especialmente com a maconha. Conheço casos onde os pais usam cocaína com os filhos. E aí é uma tristeza. É uma disputa para ver quem usa, quem cheira pela última vez a última carreira de cocaína que existe. Lilian - Dr. Arthur, isso tem um componente genético como o alcoolismo? Dr. Arthur - Não. Não tem. Não é tão bem identificado. No álcool sim. Existem famílias que têm tendência para metabolizar melhor o álcool. Lilian - Não é o caso das drogas? Dr. Arthur - Os estudos não são conclusivos em relação a isso. Mas até agora nós não temos nenhum dado que mostre que há famílias que acabam metabolizando melhor maconha, cocaína ou anfetamina etc. Nesse sentido ainda não há nada. Lilian - O senhor falou em pais e nós estamos aqui com a dona Genilsa que tem uma experiência de vida para contar. A senhora tem cinco filhos e só um teve problema? Dona Genilsa - O quarto filho. Lilian - No momento ele está bem? Dona Genilsa - É, está bem há dois anos e dez meses. Lilian - Ele está em recuperação? Dona Genilsa - Ele está em recuperação. A gente sempre fala em recuperação porque isso pode voltar do dia para a noite. Se ele voltar a tomar um copo de cerveja, se voltar a fumar um cigarro de maconha, com certeza ele volta a fumar e a beber o segundo, o terceiro e não pára mais. Lilian - Álcool também? Dona Genilsa - Também. Ele tem que ficar isento de tudo. Lilian - E como é que foi a sua experiência? A senhora soube que ele estava dependente há quanto tempo? Dona Genilsa - Há 11 anos exatamente. Ele usou droga por oito anos direto. Lilian - Ele tinha 17 anos? Dona Genilsa - Ele tinha 17 para 18 anos. Lilian - E o que o levou as drogas? Dona Genilsa - Hoje ele fala que foi curiosidade, amigos da escola. Ele estava no colégio, junta os amiguinhos e dizem: "vamos experimentar". Na época ele trabalhava e acabava faltando do trabalho e nós ficávamos sabendo depois, porque o chefe ligava para casa e eu dizia "ele saiu para trabalhar" e o chefe "mas ele ainda não chegou". Ele faltou muito e acabou sendo mandado embora. Lilian - Os seus outros filhos têm que idade? Dona Genilsa - A minha filha mais velha tem 32 anos, a outra 31 anos, o outro filho tem 29 anos, ele tem 28 anos e uma moça de 23 anos. Lilian - E os outros 4 jamais manifestaram interesse? Dona Genilsa - Não. Lilian - Está todo mundo trabalhando? Dona Genilsa - Tá todo mundo trabalhando. Lilian - Ele hoje está trabalhando? Dona Genilsa - Está trabalhando há dois anos e dois meses. Lilian - Ele trabalha com o quê? Dona Genilsa - Ele trabalha em loja de tecidos. Lilian - E ele aceitou bem o tratamento? Dona Genilsa - Muito bem. O meu marido falou que um dia ele iria pedir ajuda, mas isso não aconteceu. Eles morrem usando, mas não pedem. É muito difícil algum deles pedir. Eu vi uma reportagem na televisão sobre uma clínica de tratamento. Eu e meu marido levamos ele até lá e ele já quis ficar internado. Ele achava que clínica para dependentes químicos era como uma cadeia, e quando ele chegou lá e viu que é aberta, aceitou se tratar. Ficou internado por dois meses. Lilian - Num primeiro momento ele ficou por dois meses? Dona Genilsa - Ele ficou só uma vez por um período de dois meses. Lilian - O dr. Arthur Guerra está concordando com a cabeça enquanto a senhora conta. O senhor concorda com o fator curiosidade e com a importância do apoio da família? Dr. Arthur - Eu concordo 100% com o que ela falou. Lilian - Ele está uma doutora no assunto? Dr. Arthur - Sim, ela sabe o que está falando. É uma história típica. Começou a usar drogas por curiosidade, acha que vai conseguir sair sozinho e não sai. Precisa em um momento de uma intervenção, uma internação, algo forte. E não tem chance de uso social nunca mais, nem de álcool. Lilian - Mesmo que ele não tenha ficado dependente de álcool ele não pode tomar mais por causa da dependência da maconha, por exemplo? Dr. Arthur - Ele não deve. Porque o álcool na história é o grande vilão. Ele não vai ficar dependente do álcool. Mas o álcool vai diminuir a censura dele, vai facilitar para ele começar a usar a outra droga. Especialmente em momentos de alegria quando: as coisas estão indo bem, consegue emprego, arruma uma namorada, queria muito fazer alguma coisa e conseguiu aquele objetivo. Aí nesse momento vem um pensamento maligno que diz: "usar drogas como antigamente nunca mais, eu não quero. Mas um pouquinho só? Final de ano, champagne, um golinho, só isso não vai me fazer mal". E aí eu faço essa comparação - é como gravidez. Ou a mulher está grávida ou não está. Não existe meio grávida ou socialmente grávida. Nesses casos como o do filho da dona Genilsa, ou está usando ou não está usando nada. Lilian - João, você até já se manifestou com a cabeça. Você tem alguma coisa a comentar. O que é? João - Eu me identifico com o que o dr. Arthur falou. O problema de usar. É, não tem meio termo. Até um tempo atrás eu fiquei sem usar o crack , porque eu comecei com a maconha e fui para a cocaína. Lilian - Há quanto tempo você conheceu a droga? João - Eu estou com 28 anos. Comecei os 12 anos de idade. Conheci primeiro a maconha. Aos 16 anos foi a cocaína. E com 18 anos foi o crack. Lilian - Como é que você comprava cocaína? João - Os meus amigos conheciam os lugares. Onde vende maconha tem também cocaína. Lilian - A cocaína não era cara? João - Um papelote de cocaína custa R$ 10,00 e o crack, R$ 5,00. Lilian - Esse papelote dura quanto tempo? João - Tem umas três ou quatro carreiras. Lilian - E cada carreira dá uma sensação de quantas horas? João - Uma carreira bem avantajada é muito mais duradoura que o crack. O crack dura cinco minutos. E a carreira de cocaína chega a uma hora. Lilian - Por que aos 12 anos você foi experimentar a maconha? João - Foi na escola. Ofereceram. Eu fumei, gostei e aí continuei fumando. Lilian - Por 4 anos você ficou só na maconha? João - Isso. Lilian - Aí alguém te apresentou a cocaína? João - Isso. Lilian - E você também teve curiosidade? João - Tive. E aí já comecei a ingerir bebida alcoólica, também. Lilian - E quando você resolveu se tratar? João - Foi agora, de uns tempos para cá. Eu estava em grupo de apoio de anônimos e percebi que só indo lá eu não conseguiria parar. Eu tinha que dar um breque. Lilian - Por que você resolveu? João - Eu estava perdendo o controle de mim mesmo. Já não conseguia mais administrar. Estava trabalhando, e todo dinheiro que eu pegava, gastava com drogas. Eu estava vendo a viola em caco. Lilian - Você chegou a roubar? João - Não, não precisei. Lilian - É muito comum, né? João - É. Principalmente com o crack. Lilian - Você está se tratando há quanto tempo? João - Na próxima sexta-feira vai fazer dois meses. Lilian - Você casou e continuou nas drogas? João - É eu casei, e continuei. Lilian - A sua mulher nunca aprovou as drogas? João - Não, ela não gosta e nunca usou. Lilian - E ela sabia que você usava? João - Sabia que eu usava. Lilian - E depois que a sua filha nasceu? João - Eu continuei usando. Lilian - E trabalhando? João - E trabalhando. Lilian - Onde você trabalha? João - Eu trabalho por conta. Lilian - O que você faz? João - Eu sou autônomo. Eu tenho uma kombi e faço carreto. Lilian - Será que não foi a sensação de paternidade, de responsabilidade que te levou a... João - Eu até pensei que ia diminuir. Mas vi que sozinho não ia conseguir. Só com o grupo de apoio também não. Se eu não procurasse uma ajuda específica, se eu não me internasse, eu não ia conseguir parar mesmo. Lilian - E você procurou ajuda sozinho? Sua mulher não te incentivou? Você soube de alguém? João - A minha mulher sempre incentivou, mas eu não queria. É o tal negócio: quando a gente não quer, não adianta. Lilian - Sua mulher trabalha? João - No momento ela está desempregada. Lilian - Mas ela trabalhava com o quê? João - Ela trabalhava em uma empresa de cosméticos como auxiliar de tesouraria. Lilian - E durante algum tempo eu imagino que ela tenha sustentado você e sua filha ou não? João - Não. Não chegou bem assim. Porque eu trabalhava e alguma coisa eu dava em casa. Mas não era satisfatório. Lilian - É paciente a sua mulher. Ou então ela gosta muito de você. Que idade ela tem? João - Ela tem 30 anos. E é paciente até um ponto. Lilian - Tem um limite a paciência dela? João - Mas foi demais mesmo. Eu saía de casa de manhã e muitas vezes só voltava no outro dia, mas no finalzinho eu já estava perdendo toda a responsabilidade. Mas mesmo assim eu conseguia acordar cedo fazer os carretos, porque eu já tinha os clientes. Mas não via a hora de acabar serviço para comprar droga. No final eu ficava doido. Teve um tempo que antes de comprar a droga eu ia para casa para deixar um trocado, alguma coisa, mas no final eu não deixava nada. Ia direto para a boca e torrava tudo. Lilian - Você levou praticamente 12 anos para resolver se tratar né? João - Isso. Lilian - Você estava perdendo o controle. E o que aconteceu? Como você achou o grupo de ajuda? João - Eu tenho um amigo que frequenta o grupo de ajuda. Ele me passou o telefone. Eu liguei, me informei onde era e fui. Mas eu saí de lá e continuava usando droga. Lilian - E como é que você foi parar na clínica? João - A minha mãe viu uma reportagem da clínica na televisão. Lilian - Aí que eu queria chegar. Tem mãe no meio do caminho. Mesmo a sua mãe com quem você não se dá bem. E que precisou sair de casa.. João - Ela precisou sair de casa porque eu já usava há muito tempo. E ela sempre dizia: "vai se tratar". E ela já está com uma certa idade, tem problema de pressão e outros de saúde. E como eu não me tratava ela decidiu sair e me deixar na casa e foi morar com a minha irmã. Eu não tinha mais jeito, eu estava infernizando a vida de todo mundo. Lilian - Ela que foi atrás da clínica? João - Não. Ela viu a reportagem na televisão e pegou o número do telefone. Eu liguei para a clínica e fui para lá. Lilian - Ela te levou na clínica? João - Não. Quem me levou foi a minha esposa. E fomos no carro de um amigo meu. Porque no finalzinho do meu uso ou da minha ativa, como a gente fala, eu estava dirigindo embriagado e capotei a kombi eu estava indo buscar drogas. O prejuízo foi material e emocional. Lilian - O período médio de internação é de 60 dias? João - É de 30 dias. Mas eu pedi para ficar mais. Eu achei... Lilian - Você não estava se sentindo seguro para sair? João - É. Eu até sai da clínica, fui em casa, passei o final de semana. Mas eu não saí de casa. E vi que não estava muito legal, porque o crack é problemático. Lilian - Essa clínica é paga? João - É paga. Lilian - Quanta custa? João - O custo, por 30 dias, é de R$ 4.800,00. Lilian - E tem que pagar à vista? João - Pode parcelar. Lilian - E quem está pagando para você? João - A minha família. Minha mãe e as minhas irmãs. Lilian - Quantas irmãs você tem? João - Eu tenho duas irmãs e dois irmãos. Lilian - As irmãs que estão pagando mais a sua mãe -- então dividiram em três. Os seus irmãos você não vê muito? João - Eu vejo, mas nessa parte eles não se metem. Já conversaram comigo várias vezes, deram conselhos, mas eles cansaram também, porque eu nunca quis aceitar. Lilian - E nenhum deles jamais experimentou drogas? João - Não, nunca. Lilian - Dr. Arthur, o que o senhor achou desses dois depoimentos. O que o senhor pode acrescentar cientificamente ou de que maneira o senhor pode generalizar esses depoimentos para alertar quem está nos assistindo? Ou para evitar esse mergulho ou para sair do mergulho. Dr. Arthur - Em primeiro lugar, a droga está muito mais próxima do que a gente possa imaginar. Certamente, dona Genilsa jamais poderia imaginar que o filho fosse usar drogas. Por que só ele e os outros quatro não? A educação deve ter sido a mesma, os valores, o modelo, a alimentação, tudo foi igual. Segundo, quem começa --e o caso do João é bem típico em relação a isso -- em geral vai para um uso crescente. E quando chega nessa situação do uso de crack não tem prazer. João - É terrível. Dr. Arthur - O uso da droga que inicialmente é gostoso e que a pessoa usa para ter prazer depois fica assim - ela usa porque se não entra num desprazer, é a síndrome de abstinência. Ela passa mal. Então, ela tem que usar. Por sorte, João, você não fez uma bobagem como roubar, por exemplo. João - Mas acho que não ia demorar muito para chegar nessa parte. Lilian - Você estudou até que ano? João - Até a oitava série. Lilian - Dona Genilsa, o seu filho estudou até que ano? Dona Genilsa - Até o segundo colegial. Dr. Arthur - O apoio da família é fundamental. Lilian - Uma vez que o mal está feito não adianta ficar punindo, é isso? Dr. Arthur - Do ponto de vista científico acontece a seguinte coisa - para alguém sair desse quadro, dessa situação, são necessários cinco pontos: 1) não usar mais drogas. 2) ter um trabalho, uma ocupação, uma atividade e um estudo quando é jovem. 3) ter o apoio da família. Apoio não é passar a mão na cabeça e falar "ai, que pena" e ajudar a comprar droga. Não é isso. Tem que dar o limite, que é tão necessário. 4) ter um lazer. Às vezes o lazer é usar droga, tem que mudar. Tem que ter uma qualidade de vida diferente. 5) Cuidar da aparência e da parte física. A pessoa tem que ter amor por ela mesma. E ter auto-estima, talvez até com um pouquinho de vaidade. Se não tiver tudo isso, um conjunto, dificilmente a pessoa sai. Agora, casar todos esses cinco fatores é difícil do ponto de vista científico. Lilian - Para tentar evitar entrar nessa. A família tem participação importante, não digo culpa, mas ela pode estar omissa, ou estar distraída, os pais podem estar trabalhando muito, ou tem que martelar no ouvido da criançada ou às vezes martelar não adianta nada? João - Acho que é muito relativo. Às vezes a pessoa tem uma boa formação, como é meu caso. Mas as coisas acontecem muito fáceis, como o dr. Arthur falou. É muito acessível, é muito fácil de se encontrar. Lilian - A tentação está alí? João - É. E um usa e fala "olha, vamos lá para ver como é que é". E aí acaba entrando. Dr. Arthur - Essa fase é uma fase comum, chamada fase de experimentação. Vai ter o meu primeiro contato, quer saber como é que é, especialmente por curiosidade. Não é por pressão. "Você é obrigado a usar". Faz parte da adolescência ter contato com a vida sexual, o cigarro, os esportes e, às vezes, as drogas. Lilian - Uma criança aos 12 anos não tem clareza para saber as consequências que podem ter um cigarro de maconha se ela experimentar? Dr. Arthur - É, não tem. Mas aí entram os pais. Esse é o papel fundamental dos pais em termos de oferecer o modelo de vida que seja saudável para esses filhos. Mesmo os pais dando esse modelo não quer dizer que vão ter sucesso. Lilian - Pode diminuir a chance? Dr. Arthur - É, diminui o risco. Mas o modelo que os pais oferecem é muito importante. Lilian - E qual o modelo os pais podem oferecer para reduzir demais essa chance? Dr. Arthur - Se eu souber isso ganho o prêmio Nobel de Medicina. Eu sei de algumas coisas: se não houver respeito na família, aumenta a chance. E respeito não é só boa educação à mesa. É ouvir uma opinião divergente. É respeito em termos de dar um limite. Lilian - Respeito entre o pai e a mãe? Dr. Arthur - Sim, entre o pai e a mãe. Respeito entre os pais e os filhos, entre os irmãos, com os empregados, se houver. E só respeito não basta. O segundo fator é o modelo que os pais oferecem. Por exemplo, é complicado para uma mãe que fuma chegar tragando e dizendo para o filho "você não pode fumar". É menos pior ela falar - "você não pode fumar" do que concordar com o fumo do filho. Lilian - É melhor dizer não fume do que fume, porque o senhor tem visto pais que levam os filhos às drogas? Dr. Arthur - Não é bem que levem os filhos. Os pais acham que os filhos vão ter contato com as drogas, então, ficam apreensivos e pensam de uma forma romântica "é melhor usar comigo, usamos juntos, porque eu sou mais velho, tenho controle e vou mostrar para o garoto (a) como é ter o controle sobre as drogas. Lilian - No filme Traffic a mãe briga e discute com o pai dizendo que ela também já experimentou todas as drogas e para ela não tem nada demais a filha estar experimentando drogas. O pai é resistente, faz o papel de conservador e diz que tem que punir a menina. E aí a menina mergulha nas drogas e a mãe estava visivelmente equivocada. Mas a mãe alega que experimentou todas as drogas. Isso, então, é uma realidade? Dr. Arthur - Isso é uma realidade perigosa. Isso é de uma ingenuidade científica ímpar. Não é porque os pais experimentaram que os filhos vão ter a mesma chance de experimentar e não usar. Francamente, não precisa ser médico para falar. Qualquer pessoa com o mínimo de bom senso sabe que algumas pessoas podem experimentar e tudo bem e outras viram usuárias. Lilian - Mas a gente ouve muito pai e mãe dizer isso? Dr. Arthur - Porque os pais têm culpa. Eles já usaram a droga em outro contexto e não sabem o que os filhos estão usando hoje e não conseguem passar um modelo saudável em relação a isso. Tem uma frase que acho que resume bem essa situação - O exemplo não é a melhor forma de você ensinar uma coisa para alguém. Não é. É a única. Lilian - Até que idade pode torcer o pepino? Dar o exemplo e ensinar a melhor forma? Dr. Arthur - Em todo momento é importante dar o exemplo. Às vezes a pessoa começa a usar drogas mais tarde. Com médicos é assim. Médico também usa drogas. Lilian - Sim, o caso de médicos dá um programa. Dr. Arthur - Nós devemos insistir nessa prevenção até mesmo com os já formados. Lilian - Em tese até que momento da maturação do adolescente ou que já deixou de ser teen até que idade ele se mira no exemplo que ele vê do pai e da mãe? Dr. Arthur - É um pouco diferente. No começo a única imagem que ele tem é a imagem dos pais. Depois é normal ter o conflito e odiar. A menina fala assim - "a pior coisa é ser igual à minha mãe. Eu não quero ser igual a ela". E quanto mais ela fala isso, mais ela fica igual à mãe. Quando o menino diz - "não quero ser igual ao meu pai" ele está falando igual ao pai, se comportando igual. Lilian - Isso é comum? Dr. Arthur - É comum. Aí nós devemos ir para uma outra instância que não é mais o ambiente familiar; é a sociedade. Se o jovem tiver alguém em que ele possa se mirar, possa ter uma comparação no mundo externo, os ídolos. Lilian - Que possa se projetar? Mesmo que seja um professor universitário? Dr. Arthur - Um professor, um tio, um amigo, jogador de futebol, cantor. O problema é que essa comunidade externa, infelizmente, hoje está podre. Não quero ser tão pessimista. Não quero achar que o mundo está todo ruim. Lilian - É que o senhor está em contato com essa realidade todo dia. Dr. Arthur -- Eles não têm ninguém para falar - "eu quero ser igual àquela pessoa". Nós não temos um modelo ético forte nesses dias. E essa falta aumenta a chance do jovem usar droga. Lilian - E quando uma criança de 12 anos experimenta pela primeira vez droga não há mãe astuta para descobrir, para identificar? Dr. Arthur - Nem mãe, nem médico, nem professor, ninguém. A gente não consegue bater o olho e dizer - "aquela criança é diferente das outras e está usando". Porque o uso não é feito no momento em que a criança sai da escola, usa e volta para casa. Em geral, o primeiro uso é feito com os amigos, irmãos, primos, muitas vezes no próprio local onde a pessoa mora, no condomínio, no mesmo prédio. É feito numa situação absolutamente tranquila e social. A não ser quando é uma droga muito forte e a pessoa faz uma má viagem, aí sim. Lilian - João, para encerrar. Você foi apresentado a essas drogas sintéticas, esses comprimidos? João - Não. Até porque não tive o intuito de conhecê-las. Lilian - Por que você está com tanto horror do crack? João - Porque é o pior. Além de ser uma droga muito barata, a dependência é altíssima. Lilian - É mais rápida a dependência? João - Isso. É muito mais rápida a dependência do que é com a cocaína. Eu até conheço pessoas que saíram com facilidade da cocaína, mas não conheceram o crack. E pessoas dependentes do crack que já passaram por várias internações e ainda não conseguiram se livrar do crack. É muito difícil. Então tem que evitar os lugares, evitar as pessoas. Tem que mudar o trajeto de vida. Lilian - Hoje você está disposto a nunca mais usar uma droga na vida? João - Eu não poderia dizer nunca mais. Mas eu agora não quero. Lilian - Sei, mas a sua determinação nesse momento é essa? João - Isso. Eu não quero mais usar. Lilian - Você pretende ter mais filhos? João - Possivelmente. Lilian - Diante do que você já passou, o que você pretende falar para a sua filhinha de um ano quando ela entender e para os seus outros filhos para tentar evitar que aconteça com eles o que você sentiu? João - Evite andar com pessoas do tipo que eu andei. Lilian - Você vai tentar vigiar? João - Isso, mas também não tem como colocar uma coleira e ficar 24 horas. Mas tentar, pelo menos passar um pouco do que aconteceu comigo. E não foi nada bom. E evitar certas amizades. Lilian - A gente tem que cortar as amizades dos filhos se eles tiverem mal acompanhados é isso? João - Orientar. Dr. Arthur - A orientação é o melhor. Às vezes dizer "não pode encontrar com fulano" -- pronto, daí que une mesmo. Lilian - Mas haja psicologia para tratar com essa criançada. Dr. Arthur - Tem uma coisa chamada psicotapa. Às vezes um tapinha no bumbum ou uma enquadrada - "na minha casa eu não quero que fume maconha. A casa é minha, eu não autorizo não deixo". E às vezes os pais ficam com muita psicologia. Lilian - Ou na minha casa não quero durmam juntos no mesmo quarto, por exemplo? Dr. Arthur - É. Quem pode é quem faz a lei. Às vezes têm uma certa liberdade excessiva que não favorece uma vida melhor, portanto, não favorece a pessoa a ficar sem usar drogas. Lilian - Haja jeitinho para falar com eles? Dr. Arthur - Você tem que ser firme e tem que ter amor ao mesmo tempo. Tem que falar "não quero porque eu gosto de você" ou "não autorizo isso, porque estou preocupado com a sua saúde". Não tem que falar tanto na droga ou na doença ou na dependência. Isso é secundário. Lilian - Dona Genilsa, abra seu coração agora no nosso encerramento, depois de ouvir e falar só um pouquinho. A senhora em algum momento já se perguntou se a senhora errou com o seu filho para acontecer o que aconteceu justamente com ele? Dona Genilsa - No começo sim. No começo tanto eu como o meu marido achamos que fomos um pouco omissos. Lilian - Mas só com ele entre os cinco? Dona Genilsa - Pois é. Nós achamos que ele foi para esse lado porque nós levamos um pouco em banho-maria. Por azar dele, ele estudava na mesma classe do irmão. O irmão chegava em casa e ele não. Eu falava para o meu marido: você não acha que ele está fazendo coisa errada? Ele dizia: imagina, o menino está trabalhando. Depois, com o tempo e nossa participação no grupo de ajuda para familiares de dependentes químicos, nós sabemos que não temos culpa. Ele entrou para o uso da droga porque ele teve predisposição para aquilo. Por que o meu outro filho não entrou? Hoje, nós aprendemos e sabemos que não é culpa da gente. Nós quisemos o bem dele assim como o dos outros filhos. A gente quer sempre o melhor para o filho. Quem não quer o melhor para o seu filho? Lilian - E ele nunca se queixou de ser tratado de forma diferente dos irmãos? Dona Genilsa - Ele era o melhor. Ele era um menino carinhoso, bonzinho. Até os 15 anos, ele brincava de carrinho na mesinha de centro da sala junto com a gente. Lilian - Ele era o mais bonzinho de todos? O menos rebelde? Dona Genilsa - Até hoje ele é o mais bonzinho. Nenhum deles foi rebelde. Lilian - O menos contestador? Dona Genilsa - Um menino carinhoso que me beija quando sai, beija quando chega. Hoje, ele me telefona duas, três vezes por dia. Quando não estou ele deixa recado "mãe estou com saudades da senhora, obrigado pela comidinha". Ele é assim. E antes ele era também sempre bonzinho, educadinho, sempre andou arrumadinho. Ele começou a trabalhar cedo. Com 18 anos ele teve moto. Lilian - E os outros não eram assim? Dona Genilsa - Eu não posso me queixar de nenhum. Mas ele era diferente nesse ponto, bonzinho. Sabe, aquele menino educadinho. Ele chega e beija o irmão, o pai, minhas amigas. A gente não entende como ele conseguiu ficar desse jeito. Lilian - Ele namora? Dona Genilsa - Diz ele que está ficando. Lilian - Já foi namorador? Dona Genilsa - Dos 14 aos 18 anos tinha muita menina que ia lá na porta de casa, ele vivia cheio de amigas e ele namorava. Ele é pai solteiro. Ele tem uma menina de nove anos. Quando ele começou nas drogas ele engravidou uma moça, que não era namorada dele. Lilian - Ela também usava drogas? Dona Genilsa - Não. Eles namoraram por duas noites e ela ficou grávida. Lilian - E a senhora adora a netinha? É a primeira neta? Dona Genilsa - É a primeira. Quando ele tinha 19 anos a menina nasceu. Nós não temos muito contato porque a menina fica com a mãe. E ele e ela não tem amizade. A menina vai lá em casa, no Natal ela vai nós damos lembrancinha. Mas quem tem toda a responsabilidade é ela e a mãe dela (avó).
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