-
José
Carlos Santana/ O Estado de São Paulo
- A sua infância em Ouro Fino foi mesmo tão boa
assim?
- Álvaro
Apocalypse - Olha, foi uma infância de menino de
interior, gostosa demais e cheia de boas recordações.
Brinquei tanto que os meus amigos dizem que até hoje não
parei, por causa dos bonecos que eu faço. A gente nadava em
ribeirão, pescava, subia em árvores, armava arapuca,
roubava fruta no quintal dos vizinhos, fazia os diabos. E ainda tinha
as brincadeiras dentro de casa, nos dias de chuva, que era quando
eu mais desenhava.
- Estado
- Então, você já desenhava bem naquele tempo?
-
Apocalypse
- Eu desenho desde pequeno, sempre desenhei. E eu devo muito à
minha professora no grupo escolar, d. Donica, que percebeu
isso e começou a me dar tarefas, a me pedir para reproduzir
plantas no quadro, para fazer cartazes, coisas de escola. Até
que fui para Campinas fazer o científico, porque em
Ouro Fino só tinha a Escola de Comércio,
e depois viemos para Belo Horizonte.
- Estado
- Em Belo Horizonte, você foi direto para uma escola
de arte?
-
Apocalypse -
Não, primeiro eu fui concluir o científico no Colégio
Municipal, mas continuei a desenhar em casa. Até que, um
dia, consegui que me aceitassem no Salão da Prefeitura
e ganhei menção honrosa. Lá eu conheci Gavino
Mudado, Wilde Lacerda, Yara Tupinambá (todos
artistas) e foram eles que me convidaram para freqüentar a Escolinha
Guignard.
- Estado
- O Guignard ainda estáva lá, nesse tempo?
-
Apocalypse
- Estava sim, mas já naquela fase difícil. Eu chegava
à escola muito cedo e encontrava tudo arrumadinho, as salas
varridas, as jarras com flores e os nossos desenhos com comentários
dele ao pé. Era muito engraçado porque ele fazia as
observações sobre o desenho, dava sugestões,
recomendava isso e aquilo, assinava embaixo Ticiano, Da
Vinci, Botticelli... e ia embora.
- Estado
- Então, você não teve aulas com ele?
-
Apocalypse
- Aula mesmo eu não tive não. Acontece que Guignard,
mesmo ausente, era uma inspiração para todos nós,
pelo fato de ser um homem simples, ter uma enorme capacidade de trabalho
e pelo artista maravilhoso que sempre foi. Guignard era uma
figura especial, contaminava todo mundo com o seu jeito de ser e com
a arte que fazia.
- Estado
- Você só desenhava ou também pintava?
-
Apocalypse
- Na época, eu não me interessava nem um pouco pela
pintura. Eu fazia sérias restrições à
pintura, porque procurava uma arte enxuta, pura, que hoje chamaria
de arte desmaterializada. Eu até comentei isso com o Aldemir
Martins, recentemente. Eu, o Jarbas Juarez e a Vilma
Martins esperávamos pelos desenhos dele com a maior ansiedade,
por causa da técnica, daquele cruzamento de linhas, da precisão
do traço, que nada tinha com os borrões dos pintores.
O pessoal da pintura fazia um quadro a cada manhã, imagine!
- Estado
- E você vivia de quê? Do desenho?
-
Apocalypse
- Desenho não dava dinheiro, não. Ninguém comprava
desenho, nessa época. O que aconteceu foi que logo comecei
a ilustrar o suplemento literário do Diário Católico,
a revista Alterosa, a capa da seção feminina
do Estado de Minas e era com esses trabalhos que eu ganhava
dinheiro.
- Estado
- E temática dos seus desenhos, por que tão diferente?
-
Apocalypse -
Essa é outra história interessante. Na época,
os outros alunos da Guignard freqüentavam bons clubes,
o Iate, o Automóvel Clube, e eu, embora tivesse o mesmo
nível social deles, convivia com outro tipo de gente. No Colégio
Municipal, onde fui estudar, não tinha curso científico
de manhã e acabei na turma da noite. Como os alunos da noite
eram militares, alfaiates, mecânicos, tinha muito operário,
eu ia com eles para bares e festas de bairros afastados, que nada
tinham a ver com minha turma. Eu conheci uma outra Belo Horizonte.
Por isso é que as primeiras séries de desenhos meus
têm como tema a boemia pesada, homens de bar, mulheres de gafieira.
- Estado
- Você parece ser um grande observador de indumentárias...
-
Apocalypse -
Eu sempre fui fascinado pelo desenvolvimento da vestimenta, pelas
origens do paletó e dos seus botões, por exemplo, e
essa curiosidade eu trago comigo até hoje. Desenhar figurinos,
fazer pesquisas sobre vestimentas, de tudo isso eu gosto muito.
- Estado
- De aluno da Escolinha do Parque, mesmo ainda um rapazola,
você foi ser professor do curso de Belas-Artes da Escola
de Arquitetura da UFMG. Subiu rápido, não?
-
Apocalypse
- É, eu tinha só 22 anos. Foi o Gerson Lodde,
ex-aluno de Guignard, um grande arquiteto e um excelente aquarelista,
quem me levou para dar aulas lá, em 1959. Ele diz que me ouviu
falando e ficou com a impressão de que eu seria um bom professor.
Só fui fazer exames de suficiência anos depois. Hoje,
estou aposentado, mas continuo trabalhando na universidade como orientador
de mestrado.
- Estado
- E a advocacia?
-
Apocalypse
- O negócio é o seguinte: eu não sabia o que
fazer da minha vida e fui fazer o teste vocacional. Era lá
no Serviço de Orientação Profissional do Instituto
de Educação e demorava meses para responder tudo
e para obter os resultados. No fim, deu que eu deveria ser um artista
plástico, em primeiro lugar, e poderia dedicar-me também
à literatura. Como não tinha artes plásticas
na universidade e eu não queria cursar Letras, porque não
me interessava ser professor de línguas, fui fazer Direito.
Era um caminho conciliatório, já que eu gostava muito
de um debate, de uma controvérsia.
- Estado
- E conseguiu levar até o fim ou trocou o Direito pela arte?
-
Apocalypse
- Não, levei o curso até o fim. E acho que fiz uma grande
coisa porque na minha turma só tinha gente brilhante. Tinha
o Sepúlveda Pertence, o Maurício Correia,
o Carlos Eloy, gente do mais alto gabarito, e dessa convivência
tirei bom proveito. Foi uma experiência muito rica, enriquecedora.
- Estado -
Entre o pessoal das artes plásticas, você é apontado
como um intelectual de verdade, o que conhece mais da literatura brasileira
e estrangeira. A leitura era um hábito desde criança
ou começou na Escola de Direito?
-
Apocalypse
- Eu já lia muito, desde menino, mas tive a sorte de ser orientado
pelo Silas Ferreira (contista mineiro), que tinha uma grande
biblioteca e fez uma lista dos livros que eu deveria ler para começar
a entender a literatura. E, a partir daí, eu fui lendo tudo
o que era considerado de maior importância, dentro de uma programação.
Eu costumo brincar dizendo que eu li até o Brejo das Almas,
o primeiro livro de Drummond, tão falado e nunca lido.
- Estado
- Antes de entrar na sua fase teatral, eu queria que você me
respondesse o seguinte: o Álvaro Apocalypse, no fundo
da alma, é o quê? É desenhista, muralista, ilustrador,
escultor, cenógrafo, figurinista, dramaturgo, poeta, diretor
de teatro ou advogado?
-
Apocalypse -
Eu mesmo não sei o que sou e não tenho certeza de nada.
Tem dia que eu acordo achando que estou fazendo tudo certo e o caminho
é mesmo o que escolhi. Outros dias, abro os olhos e acho que
está tudo errado, que me perdi. Não sou nada e sou um
punhado de coisas. O que eu sei é que tenho muita vontade de
viver e de ver o espetáculo da vida, que é uma coisa
extraordinária.
- Estado
- O que diferencia o Giramundo do teatro de marionetes tradicional?
-
Apocalypse
- Nós temos uma linha que é o estudo da linguagem do
teatro de bonecos. Vamos das técnicas tradicionais, que são
a luva, a vara, o fio, o marote, os mais conhecidos, e avançamos
com técnicas de manipulação que nós mesmos
inventamos, com base em muita pesquisa e experimentação.
Nossa intenção é ir, na medida do possível,
além do teatro mais comum. É pôr a imaginação
para trabalhar e explorar todas as possibilidades, que são
infinitas.
- Estado
- É esse o segredo do sucesso aqui e do prestígio que
o grupo ganhou fora do Brasil?
-
Apocalypse
- Eu acho que é isso e também a seriedade com que fazemos
o nosso trabalho. O que a gente faz é pesquisar muito, experimentar,
testar, aproveitar idéias de atores e compositores, num trabalho
integrado e de muita busca para manter o teatro de bonecos vivo...
Vivo e renovado.
- Estado -
Esse seu amor pelo teatro vem da infância? Está em Ouro
Fino a origem do Giramundo?
-
Apocalypse
- Eu acho que vem de Ouro Fino sim e vou contar por quê.
Lá, nós fazíamos uma câmera com caixote,
lâmpada cheia d'água e conseguíamos projetar ilustrações
de gibis que eu decalcava no papel-manteiga para fazer cinema. Já
era uma idéia de espetáculo. Quando chegava um circo
à cidade, a gente ia ver e imitava em casa tudo o que os artistas
faziam, cobrando ingresso dos meninos da rua. Mas acho que o que mais
se aproxima do que faço hoje é uma brincadeira que a
gente chamava de hominho, que brincávamos no tempo de chuva.
- Estado
- Hominho, de homem pequeno?
-
Apocalypse
- Isso mesmo. Naquela época, não tinha televisão
e, quando chovia, era uma tristeza, porque ninguém podia sair
de casa. E aí nós inventamos essa brincadeira, que era
feita sobre a mesa de pingue-pongue. Nós reproduzíamos
em papelão as fachadas das casas de uma rua, recortávamos
bonecos de papel inspirados nos personagens mais conhecidos da cidade
e fazíamos uma dramatização, comprando, vendendo
coisas, conversando, repetindo as cenas e os diálogos que a
gente via na cidade. Tinha tudo quanto é tipo.
- Estado
- Há outros artistas na família?
-
Apocalypse -
Meus irmãos, meus primos, eles todos faziam maravilhas com
papel. E até meu pai, que era médico, desenhava bem.
Um dos meus irmãos, o Francisco, conseguia recortar e montar
figuras que faziam gestos, que tiravam o revólver do coldre
e caminhavam como um mocinho. Era extraordinário o que ele
fazia. Os bonecos tinham casaco, tinham capa de chuva, havia cavalos,
vacas, carruagens e até um Ford bigode.
-
Jornal:
O Estado de São Paulo
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Sábado,
20 de junho de 1998
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Pág.
D-10 e D-11
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Caderno:
Caderno 2
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Entrevista
concedida para José Carlos Santana.
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