- José
Carlos Santana/ O Estado de São Paulo
- E vocês, em Ouro Fino, já conheciam o teatro
de marionetes?
- Apocalypse
- Não, não, nenhum de nós tínha
visto nada disso. Eu só vim a ver teatro de marionetes em Belo
Horizonte, no ano em que cheguei aqui, em 1953. Um grupo de fora,
o Piccoli, estava apresentando-se na Feira de Amostras e nós
fomos ver.
- Estado -
Daí veio a idéia de criar o Giramundo?
-
Apocalypse -
Não, o Giramundo veio bem depois. Eu tinha um primo,
Mário Lúcio Brandão, que se interessava
muito por cinema e eu acabei por aproximar-me do pessoal que fazia
filmes. O primeiro desenho animado para o cinema feito em Belo
Horizonte foi eu que fiz. Foi no lançamento do Hospital
Inconfidência e o filme foi feito para cinema mesmo, em
35 mm, sonoro e tudo. Aí eu passei a fazer desenho animado
para a televisão, para a TV Itacolomi. Vinhetinhas. Mas ficava
muito caro e tivemos de parar. Depois eu tentei fazer animação
com bonecos, como se fazia na Europa, mas também tive de desistir
porque o rapaz que me ajudava, um engenheiro, não quis continuar.
Aí eu pensei: se não posso fazer animação,
faço um teatro de bonecos. Mas, por mais que eu tentasse, na
Escola de Belas-Artes, não conseguia fazer, porque o
pessoal começava entusiasmado e depois me deixava sozinho.
- Estado
- Você ganhou um prêmio de desenho, nessa ocasião,
não ganhou?
-
Apocalypse
- É, ganhei o Prêmio de Viagem da Aliança Francesa
e fui para a França com minha mulher, a Terezinha, que
tinha ganho uma bolsa de estudos de prêmio pelo 1º lugar
no Salão Universitário. Isso foi em 1968. Lá
a gente passou a freqüentar teatros de marionetes, a observar
como eles trabalhavam e voltamos para o Brasil com algumas idéias.
Mas foi no Festival de Charleville-Mézières,
em 1972, que percebemos a importância do teatro de bonecos e
começamos a trabalhar com outra visão. Passamos a estudar
mais, a pesquisar, a chamar músicos, compositores e cantores
para os nossos espetáculos. Antes, nós fazíamos
tudo sozinhos. Eu, a Terezinha e a Madu montamos o primeiro espetáculo.
- Estado
- O que vocês montaram?
-
Apocalypse
- A Bela Adormecida, de Charles Perrault, mas numa versão
bem mineira. Nossa idéia era mostrar o espetáculo só
para os amigos e os filhos dos nossos amigos, em casa, mas o Júlio
Varella viu e nos convenceu a ir para o Teatro Marília,
que ele dirigia. Como deu certo, a recepção foi muito
boa, a gente continuou e está nisso até hoje.
- Estado
- E por que Giramundo Teatro de Bonecos?
-
Apocalypse
- A gente procurava um nome de boi, um nome de animal, bem brasileiro.
Já estávamos dispostos a adotar Mimoso quando
alguém sugeriu Giramundo e dissemos: é esse aí!
- Estado
- Os textos são de vocês, sempre?
-
Apocalypse
- Nós mesmos escrevemos tudo ou adaptamos. E acontecem coisas
interessantes. Por exemplo: o último espetáculo que
montamos, O Diário, começou como uma sátira aos
centros culturais, porque no Brasil não pode aparecer um casarão
desocupado que eles vão lá e transformam em centro cultural.
Mas fomos convidados a levá-lo para a França e achamos
que ninguém iria entender nada da narrativa. Aí, resolvemos
incluir no espetáculo trechos de O Diário de um Louco,
de Gogol, e deu certo. Veja você, fomos buscar num louco
uma narrativa racional.
- Estado
- Como é que nasce o espetáculo?
-
Apocalypse
- Depende. Pode surgir das nossas pesquisas ou até numa fila
de banco, quando a gente vê uma cena que parece pronta para
o palco. Mas nós também aceitamos encomendas, o que
ocorre com bastante freqüencia. Por exemplo: nos 150 anos do
nascimento de Carlos Gomes, pediram-nos uma peça e nós
fizemos O Guarani. No aniversário da Independência do
Brasil, em 1992, criamos o Tiradentes. No bicentenário da morte
de Mozart, fizemos A Flauta Mágica, que apresentamos
no Teatro Municipal de São Paulo. Foi assim também
com o Ratton (Helvécio), que me encomendou os bonecos para
o filme dele, A Dança dos Bonecos.
- Estado
- E o Cobra Norato, que foi o maior sucesso de vocês,
surgiu como?
-
Apocalypse
- Cobra Norato foi o nosso maior sucesso, mas o primeiro grande
espetáculo que fizemos, saindo do formato teatro de bonecos
e entrando no formato ópera, foi El Retablo de Maese
Pedro, com uma orquestra de 50 músicos na frente, maestro,
cantores, que apresentamos primeiro no Festival de Inverno de Ouro
Preto, depois no Municipal de São Paulo e, em seguida,
no Rio, onde inauguramos o Teatro do Sesc Tijuca. Houve dias
em que fizemos quatro apresentações, com gente esperando
na fila. Foi aí que o Giramundo finalmente virou notícia,
foi parar até no Fantástico.
- Estado
- É o mal de quem faz teatro ou é artista fora do eixo
Rio-São Paulo.
-
Apocalypse
- Exatamente. Imagine que já nos tínhamos apresentado
pelo Brasil todo e no festival de Charleville-Mézières,
na França, com o maior sucesso, e só então é
que fomos descobertos pela crítica, pela imprensa do Rio e
de São Paulo. O Yan Michalski fez um belo trabalho a
nosso respeito, na época, e daí subimos para um outro
patamar. Começamos a ganhar credibilidade. No fim da crítica
que escreveu, o Yan lamentava que uma montagem tão rica como
a que fizemos tivesse como base um texto estrangeiro e nós
começamos a pensar, então, em fazer alguma coisa bem
brasileira.
- Estado
- Aí apareceu Bopp!
-
Apocalypse
- Exato. A idéia foi da Madu, que sugeriu a peça
numa das nossas reuniões em Lagoa Santa, dizendo que
não havia nada mais brasileiro que Raul Bopp. Eu não
o conhecia, nunca o tinha lido e saí pelas livrarias de Belo
Horizonte procurando o livro. Acabei encontrando um exemplar. Mas
eu confesso que li e não entendi nada do poema e tive de recorrer
a amigos envolvidos com literatura para tentar compreender sua estrutura,
as razões dos mitos. Até que a coisa foi se abrindo,
fomos felizes no trabalho de junção das três raças
- indígena, africana e européia - e chegamos à
forma que o espetáculo tomou.
- Estado
- Cobra Norato ganhou o Molière, o Mambembe,
o Prêmio da Crítica de São Paulo... Mudou
a história do Giramundo.
-
Apocalypse -
Diria que foi um momento de rara felicidade para todo o grupo, porque
nós estávamos inspirados, os atores eu. Nunca os vi
fazer algo num nível tão bom, os cantores estavam excelentes
e o Alexandrino do Carmo e a Amelinha, ambos fora de
série. A gravação foi notável e a música
do Lindembergue Cardoso, antológica. Foi, realmente,
um trabalho que nos deu um prazer enorme e nos abriu novos caminhos.
Meu medo é o grupo ficar conhecido só por Cobra Norato,
porque é o de que a imprensa mais se lembra e o que o público
quer ver.
- Estado
- Vai ser difícil romper essa ligação, não?
-
Apocalypse -
É verdade! E com isso nós ganhamos maior credibilidade,
uma publicidade muito grande e convites para apresentações
em vários países da Europa, nos Estados Unidos, na Argentina.
Mas o melhor de tudo, eu acho, é que o pessoal daqui, pelo
menos quem foi ver nosso espetáculo, começou a perceber
que teatro de bonecos não precisa ser, necessariamente, ingênuo,
infantil, limitado nas suas formas de expressão.
- Estado -
E na Europa, o teatro de bonecos ainda tem a importância que
tinha no passado?
-
Apocalypse
- Tem e é visto com o maior respeito. O ressurgimento começou
nos anos 50, sobretudo nos países do Leste, primeiro como instrumento
pedagógico e, depois, servindo a objetivos políticos.
Hoje, tem teatro próprio, elenco próprio, suas estrelas,
como na Polônia e na antiga Iugoslávia, e uma atividade
extraordinária na Rússia, onde há 12 escolas
de nível superior. A diferença é que lá
eles permanecem mais ou menos fixos em certos gêneros e nós
não. A gente é brasileiro e quer ir em frente, conhecer
mais, arriscar mais. Nós já fizemos muita coisa arriscada.
- Estado
- O que, por exemplo?
-
Apocalypse
- O Diário, nosso último espetáculo, é
um bom exemplo. A primeira versão não tinha nada de
Gogol. Eram simplesmente loucuras tiradas da nossa cabeça,
que estavam à espera de uma oportunidade para virar teatro.
A gente fazia uma crítica bem-humorada da psicanálise
e falava da nossa mania, no Brasil, de transformar todo casarão
abandonado em centro cultural. Quando veio o convite para participar
de um festival na França é que resolvemos mudar o espetáculo,
introduzindo a narrativa de O Diário de um Louco dentro
de um texto que já existia, para que o público lá
fora pudesse entender. E deu certo.
- Estado
- Esse desenho que está aí na sua prancheta é
para algum espetáculo novo?
-
Apocalypse
- Esse é um cachorro que estou criando para um espetáculo
que nunca fizemos igual e nunca vimos nada igual, no mundo. São
bonecos em forma de brinquedo, pequenas engenhocas para ser empurradas
como se fossem enceradeiras. Os engenhos produzirão os movimentos
e limitarão a participação dos manipulares. O
pessoal aqui da oficina adora essas coisas.
- Estado
- Vocês fazem tudo aqui? Do texto ao trabalho de engenharia?
-
Apocalypse
- Fazemos tudo. Sempre digo que somos uma espécie de vanguarda
ao contrário, aqui na universidade, uma reserva de transmissão
de conhecimentos que a universidade abandonou faz muito tempo. Eu
estou convencido, depois dessa experiência de quase 30 anos
no Giramundo, de que a escola seria bem melhor e mais satisfatória
se as relações entre mestres e alunos fossem como as
que temos aqui.
- Estado
- O Giramundo é uma escola? Você recebe estudantes
de teatro aqui?
-
Apocalypse
- Não, isto não é uma escola, mas nós
admitimos estagiários e eles participam de todos os passos
da criação. Temos aqui uma garota que veio de São
Luís. Ela está fazendo o trabalho dela e, ao mesmo
tempo, vendo como é que planejamos o nosso, como é que
nos organizamos e preparamos uma viagem, como se faz uma gravação,
como se corrige um texto e se produz a arte gráfica. Participa
de tudo.
- Estado -
Se não faltariam alunos, por que não faz uma escola?
-
Apocalypse
- Olha, a gente até já pensou nisso, mas não
dá, porque senão o grupo se institucionaliza e paralisa
a criação. Ela poderia mudar os nossos objetivos, por
necessidade. Eu sou um dos fundadores da Escola de Belas-Artes,
na universidade, e me lembro dos nossos ideais e vejo no que deu a
escola. Eu sempre digo: nós nos `universitarisamos' e isso
não é bom para a criação. Sabe como é,
eles acham que a pesquisa tem um tempo para ser concluída e
isso é um absurdo. Nós temos pesquisas aqui que já
duram dez anos e o trabalho continua.
- Estado
- No Giramundo, você conseguiu muitas vezes um casamento
quase perfeito entre texto e plástica...
-
Apocalypse
- No teatro que nós fazemos, a ênfase é muito
grande no visual, porque são outras formas de transmitir a
emoção, de criticar, de sensibilizar as pessoas. E no
teatro, em geral, a primeira grande preocupação é
o texto. Nós partimos da imagem, que não se sabe de
onde vem, e evoluímos combinando tudo - o texto, a música,
o movimento... Alguém, não me lembro mais quem foi,
disse algo que eu acho perfeito: no teatro se representa, no teatro
de bonecos se é. Você é João e faz no palco
o rei Salomão. Nós não, nós colocamos
no palco o rei Salomão, não existe o João.
- Estado
- Vocês estão construindo uma sede, há anos. Quando
pretendem mudar-se?
-
Apocalypse
- O negócio é o seguinte: este local onde estamos era
um depósito para o cimento que seria utilizado na construção
dos prédios da universidade. Nós viemos para cá,
os estudantes de arte, porque a Escola de Belas-Artes estava
crescendo demais e foi expulsa da Escola de Arquitetura, numa
greve nacional organizada pela UNE. E foi ótimo. Quando a escola
foi transferida para o prédio definitivo, isto aqui ficou vazio
e a universidade o cedeu para o Giramundo. Há uns dez
anos, a gente decidiu construir uma sede no bairro da Floresta, com
nossos recursos, onde teremos um auditório, um espaço
para ensaios e exposição, um barzinho na parte de baixo...
Mas o dinheiro acabou.
- Estado
- Eu soube que você está triste porque o Giramundo está
sem verba para levar adiante suas pesquisas e montar seus espetáculos.
É verdade?
-
Apocalypse
- É, eu estou ficando cansado. O ano passado para nós
foi glorioso. Tivemos patrocínio da Petrobrás, da Comunidade
Solidária, da Telemig, do Banco Crédito Real e pudemos
trabalhar sem preocupação. Tanto que no nosso cartão
de Natal nós dissemos que 1997 foi "um ano muito louco" e desejávamos
a todos um 1998 "mais doido ainda". A coisa deu errado. Do fim do
ano para cá nada acontece, ninguém decide nada e não
sabemos de onde vamos tirar dinheiro. O que nos tem sustentado são
as apresentações. Às vezes, fazemos duas por
dia. E isso me deixa um pouco desanimado, porque é difícil
trabalhar nessas condições. Mas eu sou um otimista e
tenho certeza de que as coisas vão melhorar. FIM.
-
-
Jornal:
O Estado de São Paulo
-
Sábado,
20 de junho de 1998
-
Pág.
D-10 e D-11
-
Caderno:
Caderno 2
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Entrevista
concedida para José Carlos Santana.
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