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Nelson de Sá
e Marcelo Rubens Paiva/ Folha de São Paulo - O que você
prioriza nas suas encenações?
Antunes - Tem que ter sempre uma
vertigem. Eu, quando coloco uma marca, tem que ter um sentido para mim.
Eu aprendi com o (Adolfo) Celi. Ele dividia o palco de tal maneira...
Ele colocava uma figura em cena, e era o lugar certo. Era ali, não
podia ser em outro lugar. Os diretores hoje não sabem. O ator
pode entrar de qualquer lugar, sair por qualquer lugar. Não pode.
O meio é o meio, tem uma razão. Aí entram as artes
plásticas. O Celi foi o cara que eu conheci que sabia mais da
tipografia do palco. Para você colocar uma pessoa à direita
ou à esquerda, no proscênio, você tem que ter um
sentido. Se eu coloco duas pessoas aqui na frente, tem um sentido. Não
é em qualquer lugar. Se eu me aproximo de você, tem um
sentido. As distâncias têm um valor hierárquico.
Aproximar, afastar. Eu cuido muito disso. Não é que eu
cuido. É inerente, é orgânico. E tem gente que eu
vejo hoje, que faz teatro, que não tem o menor sentido. Que faz
uma diagonal quando não podia fazer. É uma barbaridade.
Depois eu chego: "Está errado tudo". E falam: "Ah, ele está
com dor de cotovelo". Ficar com dor de cotovelo, na minha idade?
Folha - Com quem você aprendeu?
Antunes - Eu peguei todos os diretores
estrangeiros, trabalhei com eles todos. Eu era assistente do TBC e saí
para fazer "Weekend", com a Nicette Bruno, Paulo Goulart. A minha peça
fez mais sucesso do que a peça do TBC. No dia seguinte à
estréia, voltei para o TBC com as minhas coisinhas e ia buscar
café para todos os atores, como assistente de direção.
Eu queria aprender. Eu quero aprender. Hoje em dia, sabe qual é
o erro de vocês? Vocês elogiam as pessoas, e elas não
querem mais aprender. Quando eu fiz sucesso com "Plantão 21",
eu pedi uma bolsa para a Europa e fiquei lá vendo os ensaios
do (Giorgio) Strehler e conhecendo todos os museus. Eu falei: "Não
é hora ainda de fazer". Eu sabia que não estava preparado.
O que aconteceu com os diretores novos todos? Vocês incensaram
demais e tiraram a volúpia de aprender. Você elogia o cara
e ele: "Ah, eu sou o tal". Pronto, acabou. Eu nunca vejo um ator crescer,
fazer alguma coisa a mais. Ele vai continuar fazendo aquilo lá,
um pouco melhor, por causa dos macetes, mas não através
do conhecimento.
Folha - Você
falou de passagem de Adolfo Celi.
Antunes - Adorava o Celi. Ele era
meio comercial, mas sabia. Eu olhava as marcações que
ele fazia, a chamada "mise-en-place", e ficava: "Esse cara sabe". Nem
o Ziembinski tinha essa capacidade. O Ziembinski era outra coisa, mais
musical. Eu adorava o Ziembinski como ator. Ninguém entendia
o que ele falava, mas eu entendia. Ele era ótimo. Falava meio
enrolado, mas era excelente ator. Mesmo em "Pega Fogo", em que a Cacilda
estava muito bem, eu achei ele melhor. Embora ele falasse um brasileiro
polaco (ri), era muito musical. Ele era no som. O Celi era nos volumes,
na distribuição dos volumes.
Folha - E Ruggero Jacobbi?
Antunes - Ruggero Jacobbi era a
cabeça, o intelectual. Ninguém sabia de Brecht na Europa,
e ele estava falando de Brecht aqui.
Folha - Você
chegou a ser assistente de Ruggero?
Antunes - De todos eles, menos do
belga, (Maurice) Vaneau. Do resto eu fui. Fui do Ziembinski, do (Flamínio)
Bollini, fui do Celi, do Ruggero.
Folha - Em
que Ruggero influenciou você?
Antunes - Na pesquisa, na inteligência,
que eu sempre admirei. E foi ele quem deu chance aos diretores brasileiros.
Nós conseguíamos dirigir porque ele dava força
aos diretores brasileiros. Eu sou da primeira leva.
Folha - Flávio
Rangel veio depois?
Antunes - Flávio já
é cria minha.
Folha - Como foi a sua relação com a crítica,
nesse início?
Antunes - Do Décio (de Almeida
Prado) eu não abro mão. Tenho respeito profundo por ele.
Pelo Sábato (Magaldi), também.
Folha - Você acha que o crítico aponta as suas fraquezas?
Antunes - O Décio conseguia
me dizer... Sabe o que é? Havia humanidade no que ele escrevia.
Mesmo metendo o pau, havia humanidade. Havia: "Vai por aqui, garoto.
Vai por ali". A função do crítico é da maior
importância. A função social, de ter um crítico
para a comunidade, é da maior importância.
Folha - Recebi
uma carta de um homem que participou dos seus primeiros espetáculos
nos anos 50, que você já descreveu, brincando, como os
seus primeiros "Prêt-à-Porter". Eram espetáculos
curtos, despretensiosos.
Antunes - Aquilo foi uma introdução
ao teatro. Eu não poderia chegar aonde cheguei se não
tivesse passado por aquilo. Mas não tinha nada do que tem agora,
do método.
Folha - Sebastião
Milaré descreve em "Antunes Filho e a Dimensão Utópica"
uma das primeiras encenações, talvez até a sua
primeira encenação, como "expressionista".
Antunes - Ah, porque na época
eu era garotão e eu fui muito influenciado pelo expressionismo.
Mesmo nas coisas que escrevia na época, numa revista literária
do nosso colega.
Folha - Eu
tenho um exemplar. O segundo número.
Antunes - Você está
brincando! Qual era o nome da revista?
Folha - "Ponto
II".
Antunes - Desenho meu na capa?
Folha - Exatamente.
Antunes - (ri) Como é que
você conseguiu isso?
Folha - O
seu colega mandou. Ele ficou emocionado de ter visto você falando
sobre o seu passado, no jornal.
Antunes - Era muito louco aquilo
(ri). Você vai perceber lá que o Gerald Thomas é
fichinha perto da minha loucura. Essa loucura toda em que ele está
eu já passei aos 17, 18 anos. Como você vê, havia
mesmo uma forte influência da escola expressionista nos meus primeiros
trabalhos.
Folha - Qual
foi o papel de Reynaldo Jardim, nessa época?
Antunes - Ah, ele é um poeta
magnífico. Ele, o Nelson Coelho, aquele pessoal todo. Ele era
ator também!
Folha - Ele
participou das suas primeiras peças.
Antunes - Era tão engraçado.
Todo mundo era ator. Nós brincávamos. Você vê
que era uma turma da pesada. Eu me orgulho dessa turma da pesada. Esse
contato foi vital, na cinemateca, no Museu de Arte Moderna. O (Sérgio)
Milliet também, da biblioteca. Falta esse contato, hoje, da molecada
com essa "intelligentsia" paulista.
Folha - Na
carta, o homem, um senhor agora, descreve como você era na época,
como encenador.
Antunes - Como é que ele
descreve? Quero saber.
Folha - Ele
fala várias coisas, mas o que ele diz insistentemente é
que você era muito jovem, mas a intensidade, o fervor do diretor
já estava presente. Já estava evidente. Antunes Filho
já era Antunes Filho.
Antunes - Está me comovendo,
isso que você está me dizendo agora. Na vida, né,
sempre... (pausa). É uma força muito grande, essa coisa
espiritual. Sempre acreditei nisso. É por isso que não
há dinheiro que me compre, que me seduza. Não me seduz.
Foram outras coisas que sempre me seduziram. Você pode mandar
fazer uma proposta de trilhões. Manda fazer uma proposta de uma
televisão ou de outra coisa. Eu agradeço, obrigado. Não
é isso. O Sesc me paga razoavelmente, dá para viver, dá
para comer. Não preciso de mais nada. Não quero mais nada.
Folha - Por
que teatro? Você teve e tem uma paixão também pelo
cinema.
Antunes - Ah, as duas coisas, teatro
e cinema. A expressão dramática sempre me pegou. A aventura
humana sempre me tocou fundo.
Folha - Você falou da "intelligentsia" paulista, de Sérgio
Milliet. Havia uma escola...
Antunes - É, o Décio
é que comandava.
Folha - Como é que você via o combate de Decio de
Almeida Prado e outros, na época, contra o teatro dos velhos
comediantes, como Procópio Ferreira, Jaime Costa?
Antunes - Não estava legal
mesmo essa comédia que os velhos atores faziam. Eu cheguei a
desistir de ver teatro, depois que eu assisti "Deus Lhe Pague" com o
Procópio. Independente de ele ser um grande ator, era um comércio,
uma coisa que não tinha nem pé nem cabeça, com
ponto. Eu vi muito teatro de ponto. Eu era um garoto ainda sonhando
e de repente via aquelas coisas. Eu via com horror aquilo. Então,
desisti de teatro. Desisti mesmo. Não fosse um amigo meu, Moacir
Rocha, que me levou para o Centro de Estudos Cinematográficos...
Pouco a pouco fui vendo TBC, Osmar Rodrigues Cruz, a quem devo muito,
e aí voltei a gostar de teatro. Mas eu achei aquilo uma casa
dos horrores.
Folha - Decio,
em particular, mas também grande parte da escola do TBC, tinha
um projeto ligado ao Cartel francês.
Antunes - A nossa cultura era toda
européia, na época. Era a vanguarda, o Alfredo Mesquita
trazendo as primeiras coisas, na Escola de Arte Dramática. Nós
íamos e nos deliciávamos com aquilo. Mesmo na minha influência
expressionista, sartriana, prevalecia a cultura francesa. Isso já
vinha do modernismo. Isso foi muito forte em São Paulo.
Folha - E
quanto aos preceitos específicos do Cartel?
Antunes - Do Cartel do (Charles)
Dullin, aquele pessoal todinho? Nós adorávamos. Quando
eles vinham para cá, (Louis) Jouvet, tudo isso. A influência
era grande, de ver o Jouvet em cena, o Barrault. Aliás, sabe
por que o Décio me convidou para o TBC? Porque ele viu o espetáculo
que eu fiz, "Os Outros", e gostou da minha direção, embora
muito expressionista. Foi aí que ele fez o convite para ir de
assistente. Para aprender. Isso foi legal. Isso também me comove.
Eu não era ninguém, e o Decio vai lá no camarim,
me convidar. "Claro, claro." Quero realçar isso: eu fiquei um
ano no TBC como assistente, depois fiz sucesso com o "Weekend" no teatro
da rua Aurora, mas nem por isso deixei de, no dia seguinte, ir ao TBC
continuar como assistente de direção, buscando café.
E buscar café para a Cacilda (Becker), o Ziembinski é
magnífico (ri). Agora, buscar café para certas pessoas
era muito chato. Mas eu ia. Eu tinha que aprender. Tinha que pagar o
preço pelo aprendizado. Porque eu queria chegar, um dia, a um
lugar em que pudesse fazer uma coisa significativa.
Folha - Voltando
um pouco mais no tempo, que influência os seus pais, que vieram
de Portugal, tiveram sobre o artista Antunes Filho?
Antunes - Meu pai e minha mãe
vieram com uma mão atrás e outra na frente. Era terrível
aquela realidade, mesmo tendo terras, mesmo fazendo as próprias
uvas, tudo isso. Ele veio para o Brasil e aqui comeu o pão que
o diabo amassou. Só depois de dez anos é que veio a minha
mãe. (ri) Eu sou o fruto do reencontro. Meus dois irmãos
eram portugueses, eu sou o único brasileiro. Eu sempre quis saber
essas histórias. Minha mãe me contava, meu pai nunca.
Sabe essas pessoas fechadas, do campo? Mas aqui o meu pai, para me ensinar
a ser adulto, me colocou como entregador de laboratório. "Tem
que aprender a vida." Depois eu fui funcionário da prefeitura,
office boy (ri). E andava em tudo o que era prostíbulo e casa
de jogo. Fiz de tudo. Não era o (Antônio) Abujamra, fanático,
mas jogava tudo o que era jogo. Quanto salário eu recebia na
prefeitura que depois deixava todo ele no Jóquei Clube e voltava
a pé, eu e os meus amigos! E vivia nos lugares mais terríveis.
Ao mesmo tempo em que vivia no meio daquela malandragem toda, no meio
de prostitutas, de gays, que na época não eram bem-vistos,
eu comecei a frequentar o Museu de Arte Moderna, o Centro de Estudos
Cinematográficos do Cavalcanti. Não me arrependo. Essa
experiência é que me propiciou dirigir teatro. Foi fundamental
a malandragem. Fui muito malandro. Era amigo de ladrão. Mas isso
me ajudou, hoje em dia, a me aproximar dos atores e falar da aventura
humana, falar dos caracteres, falar como é que é a reação
humana.
Folha - Depois de "Macunaíma", você ancorou numa
dramaturgia mais tradicional. O alvo já estava estudado, era
Shakespeare, Nelson Rodrigues. Por que você não continuou
na sua reinvenção de uma dramaturgia?
Antunes - Sabe por quê? Porque
todo mundo começou a fazer "Macunaíma" aí fora.
Eu saí dessa. Além do mais, uma coisa que eu sempre quis
fazer foi Nelson Rodrigues. Sempre quis fazer Nelson Rodrigues no seu
valor real, o grande poeta dramático que ele foi. Ninguém
reconhecia. Reduziam o Nelson Rodrigues a autor de costumes. E eu vi
tudo, no Rio e em São Paulo. Só não vi o "Vestido
de Noiva" do Ziembinski, lá nos Comediantes.
Folha - Na sua viagem plástica, com a direção,
você se manteve preso a uma dramaturgia mais ortodoxa, Shakespeare,
Nelson Rodrigues. Isso era para poder começar a plantar o seu
método?
Antunes - Eu não pensava
nisso, então. Mas eu fiz muito Shakespeare. Em que momento?
Folha - "Romeu
e Julieta."
Antunes - Não, ainda tinha
o espírito moleque do "Macunaíma". Era adaptada por mim,
era muito livre, muito solta. Tinha asinhas, voava, não era uma
coisa rígida, presa. Eu adapto tudo. A única peça
que não adaptei muito foi o "Gilgamesh", em que foram as 12 tábuas
quase na íntegra. Eu queria fazer um ritual num convento fechado,
com cheiro de batina, de vela, de mofo. Não era para palco. Era
quase um mistério, dentro de um convento, mas aí tive
que fazer no palco.
Folha - Para
definir sua visão da dramaturgia, gostaria de perguntar sobre
"Xica da Silva".
Antunes - Ah, não deu certo
o meu papo com o (Luís Alberto de) Abreu. Eu queria fazer uma
comédia rasgada, da boba da Xica da Silva, que pensava que iria
tirar proveito. Eu pensava numa comédia, o Abreu pensou numa
tragédia, e não deu certo. Saiu uma coisa que não
é nada. O híbrido quase sempre é legal, mas não
deu liga. A gente brigou feio, na época.
Folha - Na
época, o seu método estava quase lapidado, ou não?
Antunes - Eu estava caminhando,
numa etapa. Não era o método. Tinha mais uma ideologia,
alguns passos. Mas não tinha alcançado as estações.
Não, não.
Folha - A impressão era que você estava procurando
desenvolver uma relação com uma nova dramaturgia.
Antunes - Eu sempre quis, mas não
podia fazer. Depois entendi que não era possível fazer
uma nova dramaturgia. Não dava certo. Não vai surgir uma
nova dramaturgia enquanto não houver o ator novo. É como
em pintura, em poesia também. Você lê um Fernando
Pessoa, você vê um Cézanne, um Leonardo da Vinci,
eles nunca estão na superfície. Você vai afundando,
lá embaixo é que vai ver o artista. Eu sou muito maluco.
Quando vejo Leonardo da Vinci, começo a olhar e, através
do esfumaçado dele, vou passando por ele e, no fim, vejo a cara
dele, sempre. Ele me olhando (ri). Nos grandes artistas, eu consigo
ver o olho do artista. Uma obra de arte nunca está na superfície.
É aquilo que o Eco diz: uma obra é mais artística
quanto mais conotativa ela for. É óbvio.
Folha - E
a dramaturgia?
Antunes - Eu acho que, se você
escrever um texto para valer, você dá para essa molecada
fazer, para esses diretores, e eles vão fazer uma gritaria. Não
vai sobrar nada. Eu vou fazer um Shakespeare, posso até entender,
mas não consigo falar aquilo de maneira correta, no palco. E
o que acontece com o diretor? Você coloca um penico na cabeça
do ator e dá uma vassoura. Porque a peça tem que ser levada.
Foi aí que o Shakespeare começou a ser "clownerie". Porque
não se conseguia resolver dramaticamente o jogo. Faltava a técnica.
Não a técnica no sentido que a minha geração
tem, "ah, a técnica empobrece, é uma camisa-de-força".
Não, eu vi que sem técnica você não consegue
desenvolver sua sensibilidade. Sensibilidade é cultura. Todos
nós temos sensibilidade, mas para desenvolvê-la precisa
de cultura.
Folha - O
autor novo depende de um ator com técnica?
Antunes - Não há possibilidade
de surgir um novo autor brasileiro, além do Nelson Rodrigues,
enquanto você não tiver o ator novo. O ator vai dar segurança
ao autor. Ele precisa de ator. Se você pegar um texto e der para
a molecada fazer, vão ficar fazendo palhaçada, fazendo
bobagem. É chato, e não vai sobrar nada do texto. O texto
só serve de pretexto. É um pretexto para que façam
lá umas acrobacias, umas formas bonitinhas, teatrais, umas estéticas
consumistas.
Folha - Desde
90 a sua dramaturgia tem sido heterodoxa. Você até chegou
a transformar a língua, criar uma língua nova. Folha
- A palavra, para você, não fazia mais sentido. Só
o som. Por quê? Como você chegou à conclusão
de que o foco é o ator, não o texto?
Antunes
- Eu tentei fazer duas tragédias, "Medéia" e "Antígone".
As pessoas iam falar, e não dava samba. A não ser que
eu colocasse a vassoura na mão e o penico, para ver se a coisa
funcionava. Eu sempre achei o português uma língua eufônica.
Mas no palco eu acho uma porcaria. Pedras, pedras, pedras. Dói,
dói. A projeção da voz é feia. Eu gosto
de música, gosto de coisa eufônica. Não aguentava
mais. Eu falava: "Tenho que me retirar da língua portuguesa,
para voltar depois. Tenho que começar tudo do zero". Daí
o fonemol. Além do mais, teve o Muro de Berlim. Eu tinha que
recontar a história da humanidade, ação e reação
não dava mais certo. Isso só provocava um dominó
que deu no que deu este século.
Então,
o mito do Chapeuzinho Vermelho era para que as pessoas... Todos nós
temos todas as personagens dentro da gente. Temos todos os seres humanos,
todos os arquétipos. A gente tem o Hitler, tem o Stálin.
O importante é você, pela civilidade, conseguir colocar
o mal no lugar. Foi aí que comecei. Eu falava: "Não vamos
matar o bandido, vamos colocá-lo no lugar certo". Tudo isso aí
vem de lendas, do Oriente, de colocar o bandido no lugar certo, sem
matar. E qual era a história mais popular do mundo? "Chapeuzinho
Vermelho." Eu ia começar ali a ética: "Esse lobo fez isso,
então vamos matar? Não. Vamos colocá-lo de castigo,
no fundo do mar". Nas fábulas orientais, o mal você coloca
no fundo do mar. Eu falei: "Vamos colocar no céu, em vez de matar.
Não adianta fazer ação e reação que
vai voltar tudo aos crimes, aos genocídios que aconteceram no
século".
Folha - E
o fonemol?
Antunes - Eu queria usar uma linguagem
pré-mítica, uma pré-linguagem, e dar autoria a
cada espectador. Com o fonemol, você pode imaginar o diálogo
que quiser. Foi isso que tentei. Ao mesmo tempo, tentei me afastar um
pouco da língua portuguesa, para depois me reaproximar de outra
maneira.
Folha - Não
é assustador fazer um espetáculo em uma língua
inexistente e as pessoas entenderem? Você conseguiu provar a sua
dúvida de que o texto é desnecessário.
Antunes - Não, mas tinha
o texto de cada espectador. Você lia com a sua sintaxe, eu lia
com a minha sintaxe. Eu criava a situação, mas o texto
quem criava era o espectador. Aí também entra o Bob Wilson.
É trabalhar com o subconsciente e o inconsciente de cada um.
Isso eu aprendi muito bem foi com o Kazuo Ohno. Cada vez que eu o vejo,
a minha alma emigra. Eu saio do lugar e vou não sei para onde.
Depois, no fim, eu volto. É meio xamânico o troço
dele. Ele me leva para viagens estranhas. É xamanismo puro.
Folha - Para
onde você está indo, na dramaturgia? Você largou
os romances, teve uma época em que você queria fazer "Os
Sertões" e também falava muito em Guimarães Rosa.
Antunes - Eu fiz o Guimarães,
que não foi entendido. Fiquei fulo da vida. Até eu fazer
o "Augusto Matraga", a crítica não conhecia Guimarães
Rosa. Quando se fazia, era um bangue-bangue. E, na verdade, o Guimarães
é uma viagem ao fundo da alma. É uma viagem interna. Eu
acho que a sintaxe todinha do "Grande Sertão: Veredas" é
um monólogo dele com ele mesmo. A sintaxe fica torta, porque
ele está perturbado, porque está querendo se saber. É
um processo de autoconhecimento. Mas estavam acostumados a ver Guimarães
no lado externo. Foi por isso que inventei a expressão "ser tao".
Não é sertão, é "ser tao". E você
sabe que ele era um homem que tinha uma certa tendência, muito
cuidado com essa palavra, esotérica? Todo mundo sabe, menos a
nossa crítica, que acha que ele é bangue-bangue.
Folha - E
Nelson Rodrigues?
Antunes - Posso falar a verdade?
Adeus, Nelson Rodrigues, estou em outra. Agora eu quero do círculo
de dramaturgia do CPT (Centro de Pesquisa Teatral) para frente. É
a nova dramaturgia. Daqui a pouco eu vou ajudar os textos já
escritos lá, de peça de um ato, pequenas ainda. Devagar,
com pouca gente, duas, três personagens, depois vai aumentando.
É assim que se chega lá. Se eu quiser chegar no fim, já,
não vai sair nada. Então, eu estou brigando para o pessoal
de dramaturgia ir devagar, lento.
Jornal:
Folha de São Paulo
Domingo,
6 de fevereiro de 2000.
Caderno:
Mais
Entrevista
concedida para Nelson de Sá e Marcelo Rubens Paiva.
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