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Nelson de Sá e Marcelo Rubens Paiva/Folha de São Paulo
- Quando você começou a consolidar o seu método?
Antunes Filho - No "Prêt-à-Porter"
eu vi que primeiro precisava limpar o ator, através do processo
de corpo e através da mente, da sensibilidade. Tirar o ator de
uma grosseria, da ansiedade, deixar ser mais simples, de ser estereotipado.
Noventa e oito por cento do teatro brasileiro é estereotipado.
As interpretações são estereotipadas. O estereótipo
é uma coisa morta. Você coloca a máscara e aquilo
não funciona, é morto. Quando um ator está no palco,
ele pensa que está com sentimentos. Mas ele não está
com sentimentos da personagem. Os atores que eu vejo em cena quase nunca
estão colocando o sentimento programado para a personagem. Estão
colocando o confinamento, a ansiedade, a angústia de estar no
palco. Porque para isso precisa educar o ator. Quer queira, quer não,
por mais tolo que possam achar, o músculo conta. Se eu ficar
com o ombro duro, já vou para a projeção e perco
a sensibilidade.
Folha - Com
"Prêt-à-Porter" você alcançou a sensibilidade?
Antunes - O "Prêt-à-Porter"
é a busca do afastamento, para chegar à sensibilidade.
O afastamento nada mais é do que "saia da paixão e vá
para a sensibilidade". Se você ficar tomado de emoção,
fica travado. Mas o "Prêt-à-Porter" ainda não é
a sensibilidade plena, que o ator só vai poder alcançar
com a colocação vocal. Corpo e voz são uma coisa
só. Não adianta só ensaiar voz, que não
vai resolver; não adianta só ensaiar corpo. Tenho que
ensaiar as duas coisas. No "Prêt-à-Porter" ensaiei muito
corpo, mas havia muita ansiedade ainda. Para mim, a voz é a coisa
fundamental do teatro. Estou chegando agora a essa conclusão,
com "Fragmentos Troianos", embora as pessoas não saibam ler e
estejam estranhando o espetáculo. No início, nos primeiros
dias, a maioria era contra esse tipo de voz. Agora, já mudou.
Estão vendo a eufonia da língua portuguesa. Porque não
é mais feito com projeção. É feito por ressonância.
Folha - Como
é a ressonância?
Antunes - Na projeção,
é a consoante que leva a vogal para você. Na ressonância,
é a vogal que leva a consoante. A consoante é impressa
na vogal. E é tecla por tecla. No coloquial, a gente fala com
um impulso só. Agora, não. É de música.
A música não está no fim da frase, do teatro clássico
que você viu até hoje. Não está mais no fim.
Não tem mais isso de você cantar no fim da frase e achar
que é clássico, como nós sempre vimos. Não
havia um espetáculo que não tivesse a cantadinha no final.
Aqui, não. A música é durante. Quando você
vai ver teatro grego, é todo mundo igual. Aquela voz empostada,
ridícula, que me dói o ouvido. E fica todo mundo gritando.
(exaltado) Não vai poder ter texto, o grande texto em profundidade,
enquanto não tiver ator falando muito bem. Porque fica uma gritaria,
e gritaria por gritaria eu vou escrever para a televisão, fazer
porcaria. Agora, na hora em que houver o ator com sensibilidade...
Folha - "Prêt-à-Porter"
já anuncia uma nova dramaturgia?
Antunes - "Prêt-à-Porter"
é um degrau. Só depois de ter o"Prêt-à-Porter"
e depois de ter alguma experiência, depois de os garotos fazerem
alguma dramaturgia, é que nós começaremos com o
círculo de dramaturgia. E não é uma camisa-de-força.
Não vamos pregar Aristóteles, que mata a possibilidade
de autor. Se o Aristóteles tivesse existido antes dos grandes
trágicos, não existiria a tragédia. Eu sou a favor
da retórica, mas não da poética do Aristóteles.
Você pode chegar à poética do Aristóteles
um dia, mas não de cara. Agora, a retórica é fundamental
para o autor e para o ator. Quando falo retórica, é a
nova retórica, a metafórica, a da imaginação,
da metade do século para cá. Não é de chicaneiro.
Porque tem ética. É aí que entra o pensamento oriental.
Eu vejo os filmes e mando o pessoal assistir os filmes do (John) Gielgud.
Esse cara sabe tudo de técnica, mas dá uma porcaria. Ele
está fazendo para ele. É chato, é egoísta.
Folha - John Gielgud, a voz.
Antunes - Sim, mas é uma
porcaria, é chato. Quando falo do ator ilusionista, é
que ele está iludindo, mas antes de iludir ele tem uma ética.
Não é simplesmente gostar daquilo, para o seu narcisismo,
para o seu egocentrismo. É um ato coletivo, de festa coletiva.
É fundamental uma ideologia. Tivesse o Gielgud ou o (Laurence)
Olivier essa ideologia, e eles seriam os atores mais maravilhosos. Mas
eles fizeram para eles mesmos. Tanto é que você vê
o Olivier, no fim da vida dele, que porcaria. O Gielgud, que porcaria.
Fala tão bem, mas não tem para onde ir. É por isso
que a ideologia é fundamental, esses livros todos. O ilusionismo
é dirigido. O ator ilude, mas é para o bem.
Folha - Você
não tem um modelo claro para a dramaturgia, como você tem
para a interpretação. Qual é a sua visão
da dramaturgia?
Antunes - Cada um é um. Você
é capaz de escrever uma peça, ele é capaz. Agora,
é preciso dar condições para trazer a sua poesia
à tona. Você não tem condições, porque
não tem atores. Os atores não têm técnica
para isso. Se escrever uma obra profunda, de uma sensibilidade extraordinária,
ela vai ser gritada, vai ser um contorcionismo. Com o novo ator, você
vai poder escrever até versos, que ele vai dizer esses versos
maravilhosamente bem. Sabe para que serve a ressonância? O ator
não dá mais o ritmo na garganta. Na projeção,
ele dá o ritmo na garganta. Isso é fundamental. Ninguém
mais vai ficar com calo na voz, porque o ritmo não será
dado na garganta. Aquele cara, aquele negrinho do espetáculo
do Shakespeare... Ele falava as coisas mais delicadas do mundo.
Folha - Adrian Lester, em "As You Like It".
Antunes
- É esse o método. Ele foi um dos modelos. Eu fiquei
nele o tempo todo, na apresentação. Você vai fazer
uma cena de "Romeu e Julieta" no Brasil e é tudo sambinha de
uma nota só, tudo na garganta. Inglês falando dá
o ritmo aqui (demonstra), não dá mais na gargantinha.
Foi por isso que eu larguei.
Folha - Você
comentou um dia, de passagem, que combatia a entonação
portuguesa do teatro brasileiro, herdada dos atores portugueses e que,
apesar de não ter mais o sotaque...
Antunes - Como é que não?
Doisss, trêsss, pixxxina, "i" em lugar de "e". Isso é coisa
de Portugal. É o modelo gutural, alemão, feito por Portugal.
O paradigma que se está falando aqui ainda é o português.
Ainda precisamos fazer a Semana de Arte Moderna da eufonia da língua
portuguesa falada no Brasil. Mas eu vou chegar lá, vou.
Folha - E
você contrapõe a isso a entonação inglesa,
sem esse tipo de vício.
Antunes
- Mas que tem outro vício, que é não ter a ideologia.
Folha - Ao
mesmo tempo, é maravilhosa.
Antunes - É maravilhosa!
Você pega o inglês, o russo também. É lindo
como eles falam. Ali é que está a ressonância.
Folha - Os
ingleses chegaram a isso com Shakespeare.
Antunes - Os atores russos falam
do mesmo jeito. Os eslavos falam do mesmo jeito. Eu vou fazer Tchecov
desse jeito, vou fazer Shakespeare desse jeito. Vou fazer tudo com a
ressonância. Tanto é que a menina que faz a Hécuba,
em "Fragmentos Troianos", consegue criar uma voz com o arrastado da
velha, para dizer que ela é velha, com a ressonância. Isso,
em vez de fazer vovozinha. Ela é uma nobre. Ela tem que falar
secamente. Ela deve ficar chorando? Se você é chefe, você
é seca. Ela não é do povo. Ela é uma rainha,
ela não pode ceder, tem que ser dura consigo mesma.
Quando você
vê Hécuba por aí, é uma imbecilidade. Fica
tudo igual, as carpideiras, o povo, a rainha. Aqui tem hierarquia, tem
rainha, tem princesa e tem povo. E cada uma tem seu timbre, seu ritmo.
Quando você vê tragédia grega, todo mundo fala igual.
Em "Fragmentos Troianos", você não perde um fonema. Quando
eu fazia espetáculos, antes, você não entendia frases
inteiras. O Sábato (Magaldi) foi o meu maior crítico nesse
sentido, e nisso me ajudou bastante. Ele foi um dos propulsores. Agora
você entende tudo. Essa é que é a minha batalha.
Eu fiquei me dedicando. Fazia estudos sozinho. Nunca tomei uma aula
de voz. Fui aprender sozinho, para poder ensinar. Mandava vir umas pessoas
para dar aula de voz, e dava tudo errado. As pessoas perdiam a voz.
Folha - Você
abandonou o Desequilíbrio, o exercício de corpo que usava
tanto, dez anos atrás?
Antunes - Não abandonei.
Faço de outra maneira. Estava virando uma coisa mecânica,
de ginástica. E as pessoas iam para o palco fazer aquilo. O Desequilíbrio
servia para as pessoas lidarem com os músculos, para deixarem
os músculos a serviço da sua vontade, não as pessoas
a serviço dos músculos. Era para amolecer todo o seu corpo
e deixá-lo uma argila, para você fazer o que quisesse com
ele, qualquer papel. Era uma maneira de dominar os seus músculos
sem ser aquela coisa chata, inglesa, de dizer "esse é o músculo
tal".
Folha - Mas
o Desequilíbrio foi a base.
Antunes - Ele foi a base, de certa
maneira. Com a ressonância, agora, você também pode
fazer qualquer papel. Tanto é que a Gabriela (Flores) foi interpretar
uma velha nos "Fragmentos Troianos" e criou uma voz de velha. Até
perguntam: "Onde é que está aquela velha?". Foi na ressonância
que ela criou aquela voz. Ela pode falar 20 horas, que não perde
a voz. Pode gritar 200 anos, que não vai perder a voz. E ela
pode falar muito baixo, que chega ao fundo da platéia. Desculpe
dizer, mas eu vejo as coisas que essa menina faz e vejo os filmes das
grandes estrelas da Inglaterra, está ali.
Folha - Voltando
ao Desequilíbrio...
Antunes - O problema é que
tem atores que ouvem o galo cantar e não sabem onde. Tudo quanto
é escola começou a adotar. Eu via atores assim (se contrai).
Aí eu parei. Agora eu faço outros exercícios, para
conhecer os músculos. Mas eram vários exercícios,
o Desequilíbrio, a Bolha. A Bolha era ainda mais terrível.
Cortei esses exercícios, porque levavam a erro. Agora vou de
outra maneira. O meu método é legal, porque foi uma prática
que depois resultou numa teoria. Aprendi através desses anos
todos. Não queria fazer método nenhum, nem gosto da palavra,
mas eu queria o ator. E precisei desenvolver. Se isso é método,
vamos chamar de método, então.
Folha - O
seu método é, de certa maneira, uma desconstrução.
Antunes - Você desconstrói
o estereótipo físico do ator. A persona. Tento destruir
a persona. A pessoa tem que estar ciente de que usa uma persona, uma
defesa. Eu tenho que destruir essa defesa.
Folha - Quando
você pegou um Raul Cortez, por exemplo, como foi essa relação?
Você conseguiu?
Antunes - Da minha relação
com Raul eu não posso falar muito, porque ela é muito
amorosa, sempre.
Folha - Mas
como você encaixou o ator no método?
Antunes - O Raul começou
numa época, comigo, e ele é extraordinário. Só
que eu fui enveredando por um caminho, e é lógico que
ele não foi me acompanhando o tempo todo. Mas foi harmoniosa
a nossa relação, sempre. O "Matraga", por exemplo, saiu
perfeito, do ponto de vista do trabalho. Se tivesse convivido com ele
todos aqueles anos em que ele fez umas coisas, e eu outras, o resultado
seria ainda superior, embora já tenha sido excelente.
Folha - Você
estava formando atores jovens e, no meio desse processo, entrou um Raul
Cortez.
Antunes - O resultado da Laura Cardoso,
na "Vereda da Salvação", de 93, também foi extraordinário.
O que ela fez me surpreendeu. Foi o melhor trabalho da vida dela, tenho
certeza. A gente brigou muito, mas pouco a pouco eu fui levando. Que
nem com o Paulo Autran, numa peça do Vianinha. Minha vida com
ele foi briga o tempo todo. Chegou um momento em que não conversava
mais com ele. Um dia, no botequim, a gente conversou e se acertou. Aí
ele fez um trabalho extraordinário, dos melhores.
Folha - O seu trabalho no CPT deixa a impressão de que
você exige um compromisso até mais ético do que
estético.
Antunes - Eu acho que a ética
pertence à estética.
Folha - E
com essa exigência você trabalha os atores por um tempo.
Quando eles estão prontos, você deixa que partam. É
isso, é assim?
Antunes - Claro. O Centro de Pesquisa
Teatral é uma praça do Sesc, que tenta produzir alguns,
a palavra é pretensiosa, mas é por aí, alguns paradigmas
que venham em benefício da sociedade, a médio e longo
prazo. São bens imateriais que vão se transformar, em
algum tempo, em bens materiais. A minha preocupação é
muito grande, de formação das novas gerações.
Quando o cara sai do CPT, às vezes ele não está
ainda muito preparado. Mas a semente ficou. Eu sempre digo que teatro
é arte. Muitos atores fazem teatro pelo sucesso, para se locupletar.
Eu tento tirar essa visão. É um pouco aquela coisa do
Mário de Andrade, de doação. O lema dele era doação.
E eu sou muito Mário de Andrade.
Folha - O
"Tao da Física" era um carro-chefe do CPT, dez anos atrás.
Ele foi encostado?
Antunes - Não. Foi um movimento
de ruptura, mais um, assim como eu não poderia chegar ao taoísmo,
ao budismo, se não tivesse antes passado por Jung. O Jung começou
muito tarde na minha vida. Foi depois de "Macunaíma". Eu comprei
um livro, no Rio, do Mircea Eliade. Li e dali fui para Jung. Antes,
o processo nosso tinha, no máximo, Freud, essas reações
freudianas, de todos os espetáculos no Brasil. Lendo Mircea Eliade
e chegando ao Jung, eu vim a saber o que tinha feito no "Macunaíma",
vim a decodificar tantas e tantas cenas. Eram todas arquetípicas.
Hoje em dia, no CPT, os nossos atores já leram todos esses livros,
pelo menos têm contato.
Folha - Você
introduziu agora, no CPT, textos sobre retórica.
Antunes - A retórica entrou
para os atores poderem explicar o "Prêt-à-Porter" ao público.
Para ter um diálogo sobre uma cena, é preciso ter referenciais,
um balizamento. E a retórica deu isso. A retórica ajuda
o imaginário, ajuda você a falar, a pensar. Nós
estamos fazendo com que os atores pensem. Você está convidado
a pegar qualquer um dos atores que trabalham comigo e colocar na parede.
Respondem tudo, e de maneira bem razoável. Com o tempo, vai ser
melhor. Esse é o primeiro grupo de atores absolutamente independente.
Eles dominam a sua expressão, porque têm conhecimento,
têm cultura para isso. São eles que têm que levar
essa bandeira adiante.
Folha - Você
não acha que surge um impasse no ator que começa a ler
o texto de uma peça, sendo que ele não tem que ler, mas
fazer o texto?
Antunes - Não. Quando você
dá um texto, o ator tem que ler aquilo friamente, com cuidado.
De maneira racional, não de maneira emocional. Vê a programação
primeiro, para saber a função das cenas, causa e efeito.
Dentro da programação é que ele vai, racionalmente,
conquistando, até chegar ao imaginário.
Folha - Primeiro
a técnica.
Antunes - Primeiro a técnica.
Teatro é inteligência. Mas, veja bem, eu estou falando
em arte. Não estou falando de espetáculos burocráticos,
dos diretores burocratas que nós temos. Estou falando de arte,
de coisas espirituais, mais altas. E não da funcionalidade, do
regulamento. Não, não. Eu odeio espetáculo burocrático,
bem-feitinho. Eu odeio aquelas coisas bem ajustadinhas, bem certinhas.
Não vem que eu não engulo, não. É por isso
que eu adoro o Zé Celso e gosto do Gerald (Thomas). Mesmo que
errem muito, eles são artistas. Não são burocratas.
É esse o meu amor, a minha admiração profunda por
eles. Eu vou ver espetáculos deles, posso não gostar,
mas tiro o chapéu e falo: "São artistas". Agora, os burocratas
que têm lá tudo direitinho não me falam ao coração.
Tudo o que não tiver arte eu acho chato.
Folha - Você
cria uma dinâmica ao redor de você, no CPT, que lembra um
pouco uma seita. As pessoas cultuam você, com amor e ódio,
medo e admiração. Você acha que o diretor tem que
ter essa reverência?
Antunes - Não, mas eu até
concordo que possa existir isso. As pessoas me admiram e podem até
me odiar, tudo bem, mas saibam que eu não estou brincando em
serviço. Não há dinheiro que me seduza. Num mundo
tão consumista, tão terrível como o que nós
estamos vivendo, isso incomoda. Eu faço com que as pessoas se
aproximem e se afastem. É lógico, se as pessoas se vendem...
Eu sei o que eu quero. Só posso ser feliz se der uma contribuição
social. Você pode dizer que eu sou uma personagem ibseniana, utópica,
mas o que vou fazer? Tenho um compromisso com aqueles que me assistem.
Se tenho privilégios, uma infra-estrutura legal, eu tenho obrigações,
deveres. Eu tenho que continuar com o meu trabalho.
Folha - Essa
sua utopia é o encontro do ator perfeito, do espetáculo
perfeito, do país perfeito?
Antunes - Eu adoro o sublime. A
hora em que nós fizermos o ator perfeito, o país será
menos imperfeito. A estética altera tudo. É por isso que
eu falei que a ética, para mim, faz parte da estética.
Tem que ter umas flores. Você melhora, organicamente você
melhora. Se é utopia, o que eu vou fazer?
Folha - A
construção dessa personagem, dentro do CPT, aponta para
uma imagem autoritária, de um personagem que dá o método,
que indica bibliografia, aonde deve ir. A arte tem que ter essa figura
autoritária?
Antunes - Se você usar esses
termos, hoje em dia, para o meu elenco, eles vão se ofender.
Se eu sou o primeiro a pedir "faça isso, estude aquilo", estou
fazendo de você um igual. Eu quero diálogo.
Folha - Você
quer trazer o ator para você?
Antunes - Não, eu estou querendo
ajudá-lo a se tornar um cara com consciência. Ser autoritário,
para mim, é bater nas costas do outro, jantar nos botequins de
teatro, fazer as coisas assim, docemente, e deixar o outro cada vez
mais à margem da vida. Eu trago as pessoas para a vida. Pego
pessoas que talvez não saibam nada e falo: "Vem". É só
você perguntar para as 15 pessoas que eu tenho no meu elenco.
Guia, sim, você pode dizer. Mas, nesse Brasil, quem vai ajudar
o outro é autoritário... Isso não existe aqui dentro.
Pega o telefone de uma das pessoas do elenco e pergunte, detalhe por
detalhe, das dez horas que eles passam aqui. Pergunte os mais íntimos
detalhes, a respeito do meu comportamento. Você vai ver que é
o contrário do autoritarismo. É a favor da liberdade absoluta.
Folha - Houve alguma transferência arquetípica,
no fato de você ter montado "Drácula"? De sugar o sangue
das virgens?
Antunes
- Você quer dizer o quê, com isso? Não entendi
exatamente.
Folha
- De estar trabalhando com jovens.
Antunes
- Vamos pensar? O que você prefere? Eu tenho que passar uma
série de exercícios, uma série de livros, para
o ator chegar ao que eu quero, a essa utopia. Você vai trabalhar
com gente estereotipada, viciada, ou você prefere um jovem?
Folha - Um jovem.
Antunes - O resto são os
cães que ladram. E eu não vou dar ouvido a cães
que ladram.
Folha - Mas,
quando você montou "Drácula", você pensou nisso?
Antunes - Nunca pensei nisso, porque
eu não tenho isso. Agora, eu adoro a juventude. Não somente
as mulheres jovens, como os homens jovens. Eu adoro, porque é
meio celestial. Você acha que eu prefiro uma virago do meu lado?
É uma questão estética, também. Uma virago
chata, mal-humorada, já toda frustrada, ou um jovem que tenha
vida, que dá o encantamento da vida? Os anjos. Só esses
hipócritas moralistas é que acham o contrário.
E o meu comportamento, apesar de ser uma coisa muito particular, uma
coisa só para mim, o meu comportamento é limpo. Não
tem canalhice. As pessoas que dizem que existe canalhice são
os covardes, os cães que ladram. São aqueles que estão
frustrados.São
aqueles que deixaram de trabalhar comigo.
Você sabe como é que eu faço um teste? Sabe como
é que eu ponho alguém no papel? O ator faz uma cena. O
elenco todo assiste, o elenco opina. Não sou eu que escolho.
Eu tenho a minha voz, também. Eu defendo certos pontos de vista,
ataco certos pontos de vista. Mas sempre é coletivo. Eu, para
colocar alguém, preciso conversar com todo mundo. É só
perguntar, eles vão dizer. E nunca, na minha vida, favores outros
me induziram a levar um ator a fazer tal papel ou aquele. Porque a hora
em que fizer isso, eu não vou me respeitar mais. Me dê
nome, endereço, RG e mande falar comigo. Eu desmascaro as mentiras.
E todo esse elenco que está aí dentro prova. E todo elenco
anterior também prova. Não tem favores. Não excluo
ninguém. A pessoa se exclui. Eu crio processos. Eu não
dirijo a peça mais. Dirijo um processo para fazer uma peça,
e todo mundo participa. Não tem nada feito no escuro aqui dentro.
FIM.
Jornal:
Folha de São Paulo
Domingo,
6 de fevereiro de 2000.
Cadernos:
Mais!
Entrevista
concebida a Nelson de Sá e Marcelo Rubens Paiva.
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