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Norma Couri / O Estado de São Paulo - Por que a Joana d´Arc de Caroline Gage? Christiane Torloni - Porque é uma autora contemporânea que só escreve para mulheres e tem uma produtora chamada Not to Men Productions. Estado - Por que o texto da Caroline e não o de Bernard Shaw por exemplo? Christiane - Porque já encenei o texto do Shaw sobre a tortura da Joana d´Arc num trecho embutido na peça 10 elevado a menos 43 - Êxtase , uma colagem montada em Portugal. A cena é brilhante , mas o restante da peça é palavrosa demais. Não quis repetir a montagem de colcha de retalhos , lição que aprendi em Portugal e não repeti em Salomé. Estado - A diferença foi escolher um texto só de um autor consagrado? Christiane - Autor acima do bem e do mal. Um clássico de Oscar Wilde , não preciso ficar defendendo a história. Como a Joana, Salomé perseguiu-me durante muito tempo. Estado - Como? Christiane - Recebi cinco convites para montar várias Salomés por pessoas que não sabiam da minha decisão prévia. Era um sinal repetitivo e o que o artista faz é ler , materializar , traduzir esses sinais. Em Portugal um grupo queria que eu montasse a Salomé. Minha prima chegou de Paris trazendo um presentinho que era o texto da Salomé. Salomé só faltou arrombar minha porta. Aí fiz e valeu a pena. Estado - Por que? Christiane - Ouvi minha intuição e a interpretei com coragem. O diretor José Possi Neto desenhou uma cena perturbadora de transparências , imagens , calores. A trilha sonora foi composta em cima do tapete mágico do texto do Oscar Wilde. Eu tinha 5 toneladas de água em cima. A gente não colocou a Salomé no terraço de Herodes , mas debaixo de uma cisterna idealizada pelo Felipe Crescente - João Batista ficava mais embaixo ainda. As fotos de Vânia Toledo viraram um programa que era calendário de um mito feminino que é arquétipo da rejeição de seu amor. Estado - Joana d´Arc também perseguiu você? Christiane - Ainda estou concebendo a Joana. Ainda não sei como será a cara dela , que pertence à versão americanizada dark - ligada a breu , escuridão , negro. O texto bota fogo na reflexão que eu gostaria que a mulher tivesse do terceiro milênio - só vai entrar no século 21 quem já estiver falando no novo agora. Estado - O que o terceiro milênio tem a ver com uma menina analfabeta , pura , inocente , visionária que foi queimada numa fogueira do século 15? Christiane - Ela foi queimada na fogueira da vaidade masculina porque ouvia vozes aos 13 anos. Ouve Santa Catarina , Santa Margarida e São Miguel dizendo que é sua missão reunificar a França invadida pelos ingleses e coroar o rei. Os franceses já se estão entregando , politicamente divididos , incluindo o clero. Joana é força bruta... Estado - ...e expressão da coragem feminina. Christiane - Com o país em plena guerra ela pede uma comitiva ao governador e um encontro com o rei. O governador toma-a por louca e avisa que ela deve partir antes que os soldados dele a estuprem. Ela volta vestida de homem e aí o governador cede a escolta. Analfabeta e camponesa , Joana vai procurar o rei , que está fragilizado porque saiu de Paris e não tem certeza se é ou não filho bastardo. Joana o localiza disfarçado no meio da mutidão , diante de um bobo da corte que se faz de rei. A primeira frase que diz é resposta a uma prece feita no dia anterior : ela diz que ele é filho legítimo e ao mesmo tempo pede um exército. Ele dá. Estado - Não é tão fácil assim. Christiane - Até porque fazem um exame para ver se ela é virgem , o que na época da Inquisição era um elemento a favor do caráter da mulher. A própria rainha participa. Então , Joana sai chefiando o exército francês. Em dois anos reunifica a França e vence todas as batalhas , humilhando os generais que querem vê-la morta. É ela quem coroa o rei. Todo mundo que deveria estar sentado ao lado do rei está na platéia de coadjuvante. Ao lado do rei está uma ninguém , vestida com armadura , que rouba a cena dizendo que finalmente a vontade de Deus e o destino estavam cumpridos. Estado - A cena da coroação é a condenação dela. Christiane - Surge o boato de que ela era uma enviada. Imagine o rei coroado por alguém que ouve vozes! Abandonaram Joana numa batalha. Sobem a ponte levadiça do castelo e a deixam para trás. Ela é presa , responde a um inquérito militar , em vez de os franceses pagarem resgate são os ingleses inimigos que compram Joana dos franceses. Estado - Ela é traída por todo mundo. Christiane - Menos pelo povo. Ela estava disposta a salvar a França , mas a França não estava interessada. A França , não , o rei da França. O bispo também não é a França. O interrogatório dela dura oito meses com três sessões diárias e um dos bispos está do lado dos ingleses quando a França é reunificada. Joana é entregue aos ingleses que se realinham com a França reunificada. De novo , é uma peça política. Estado - Começa o processo de bruxaria. Christiane - Os ingleses entregam Joana à Inquisição , no julgamento há teólogos , padres , bispos e ela não entende o que querem dela , vai dando respostas desconcertantes , há uma divisão.Tem um bispo a favor , que se encanta com a inteligência dela e é ameaçado de ir junto para a fogueira. Estado - Ela não imagina que vai ser queimada. Christiane - Ela acha que vai salvar-se. Ouviu que seria libertada. Tinha pavor do fogo , mas era atrevida. Figura andrógina , cria boataria , a condenação dela é pelas roupas que usava , por ter abandonado a casa dos pais , por que ouve vozes e porque não acreditava nem autorizava a Igreja a dizer o que ela deveria pensar , sonhar e fazer. Por ela estar trabalhando fora , digamos. Vestiu roupas de negócios e foi para o mercado de trabalho que , naquela época , era a guerra. Ela vai ser queimada dentro daquele mercado. Vai dando respostas de uma inteligência incomum , tem só 19 anos. Você vai acompanhando os fatos e vai dando uma ira ; 500 anos não é tanto tempo assim. Estado - Por que as pessoas vão interessar-se pelo assunto neste fim de século? Christiane - Como Salomé , Joana engloba os adjetivos de prostituta a sacerdotisa e rainha. Ela é tão engrandecida quanto desqualificada , chamada de perversa , vadia , santa , guerreira , libertadora. Caroline Gage quer dizer que a mulher de 500 anos atrás é a mesma mulher de hoje , infelizmente. Estado - Por exemplo? Christiane - Você pode torturar uma mulher de várias maneiras , partir essa mulher em duas , mente e corpo. Você desqualifica o corpo , a roupa que ela está usando , vai quebrando a sua auto-estima até que ela se sinta um nada. Ou você pode confundir a mente dela de forma que ela comece a desconfiar de não ser sensata ou racional. Um homem pode fragilizar uma mulher a ponto de ela desconfiar que está louca. Estado - Isso não está muito longe da Inquisição? Christiane - Há 500 anos uma pessoa sonhava com a vizinha e denunciava a mulher dizendo que ela o tinha tentado. O desejo criava as bruxas e isso é contemporâneo. Estado - A peça de Caroline Gage é totalmente histórica? Christiane - É perigosamente histórica. Até a dúvida de que ela seria homossexual está nos autos. Há o testemunho de uma amiga , dizem que eram amantes. A autora afirma isso , mas eu não posso afirmar nada ainda. Também não tenho nenhum compromisso com a cabeça raspada , há imagens dela com a cabeleira enorme caindo sobre a armadura. Vou fazer a minha Joana Dark_A Re-Volta , ela desmistifica o mito. Estado - Ela foi estuprada? Christiane - Há controvérsias. A Igreja não pode dizer que ela foi queimada depois de ter sido violada , senão não pode santificá-la. Assim como o rei não pode ter sido coroado por uma bruxa e então se santifica a mulher. Há um momento no julgamento em que ela negou ouvir vozes , achou que assim iria para uma prisão com mulheres e se livraria da guarda de cinco ingleses. E há suspeitas de que ela teria sido estuprada quando vestiu uma roupa feminina. Afinal ela não vai a uma prisão de mulheres: tiram a roupa feminina , ela é obrigada a pôr roupa de homem. Quando veste a segunda pele se lembra de quem é e então diz que ouve vozes , sim. Estado - E é o fim. Christiane - As vozes podem ser uma projeção do próprio inconsciênte dela , posso projetar meus valores à vontade para fazer minha Joana. É o testemunho de uma mulher do século 15 que no Brasil vai virar peça no ano 2000. jornal : O Estado de São Paulo jornalista: Norma Couri Caderno 2 - Página D-2 Quarta-feira , 7 de julho de 1999 |