Helena Meirelles - Parte 1

Marie Claire/Lucy Dias - Alguma vez você imaginou que sua vida fosse dar essa virada?

Helena Meirelles - Não, porque fui criada que nem bicho selvagem no Mato Grosso. Quando nasci e me tornei menina-moça e de moça mulher, lá era sertão bruto, só existia bicho bravo, perigoso, e a gente tinha que viver se escondendo. Nós crescemo assim, via gente, tinha medo; se via um automóvel, nós pensava que era bicho e se escondia até debaixo da cama.(Estamos mantendo sua fala original.)

 

MC - Quem eram seus pais?

HM - Meu pai se chamava Ovídio Pereira da Silva e minha mãe, Ramona Vaz Meirelles. Ela nasceu no Mato Grosso, num lugar de nome Catiqués; ele nasceu no Paraguai, mas veio criancinha pra cá. Os paraguaios com os mato-grossense são irmãos, falam a mesma língua, é a divisa, né?

 

MC - E ainda tem uma coisa de índio...

HM - A mãe de minha bisavó era índia pegada a laço nas matas do Paraguai.

 

MC - Do que viviam?

HM - Meu pai trabalhava de boiadeiro tomando conta de fazenda, viajando no estradão, o meu avô também, minha família era tudo boiadeiro.

 

MC - Quando descobriram que você tocava?

HM - Eu tinha uns nove anos. Meu tio tava viajando e parou com a comitiva. Aí mandou eu buscar o violão dele, afinou e começou a tocar. Eu olhei, olhei e falei:"Tio, eu queria tocar uma moda com o senhor". Ele olhou espantado: "Tocar violão?" Expliquei: "É, eu já toco um pouquinho". Ele disse: "Vai buscar o violão lá, sua merda, se você não tocar eu vou te dar uma surra". Fui mais que depressa. Na hora de afinar, ele disse:"Dá aqui que eu afino". Eu disse: "Pode deixar que eu sei". Ele ficou com os olhos arregalados vendo eu afinar. Depois eu falei pra ele solar que eu ia acompanhar. Aí arrematei: "Agora o senhor me acompanha que eu vou solar". "Mas quem te ensinou?", ele me perguntou. "Eu aprendi sozinha vendo o senhor e o Aldo (o irmão) tocar." Daí em diante ele já foi lascando para todo mundo e falando que tinha uma sobrinha que tocava e tocava muito bem. Dali se alastrou para o Mato Grosso.

 

MC - Seus pais proibiam você de tocar e ameaçavam cortar seus dedos?

HM - Eu dizia: "Corta , que eu toco com os tocos". Eu era capetinha desde criança. Minha mãe não pôde comigo, ninguém me segurou.

 

MC - No seu tempo, mulher não podia uma porção de coisas.

HM - Era muito atrasado o pessoal do sertão, mas era porque eles eram muito respeitoso mesmo. O vestido da mulherada era do colarinho cá em cima, o punho lá embaixo, a saia arrastando o chão. Do corpo só mostrava os dedo da mão e do pé. Moça que mostrasse um pedaço do corpo era posta pra fora, rua. Não entrava mais em casa de família. Eu já era moça e a minha mãe falava de mulher da vida. Eu não entendia, "que qualidade de mulher é essa?" Mas naquele tempo não explicavam. A gente ficava lutando com os pensamentos. Eu já era mulher velha no Mato Grosso quando falavam "homem viado" eu falava "mas o que será homem viado? Será que o homem viado também fica de quatro pés, pastando lá no mato?" Depois que fui indagando o que era, teve um que falou: "A senhora não sabe o que é homem viado? É o homem que dá o cu". Eu falei: "Nossa senhora, e esse cara não morre?"

 

MC - Você sabia como nasciam as crianças?

HM - A minha avó. que era a parteira da minha mãe, falava que trazia o nenê na saia, lá do rio, e nós acreditava. Até que eu disse para uma prima que andava viajando pelo mundo, "ah, hoje a vó vai trazer pra nós um maninho lá do rio, na saia". Ela falou: "Larga de ser boba, é lá do rio nada. A tua mãe tá no trabalho de parto". Aí eu fiquei desesperada: "Ai, meu Deus, a minha mãe vai morrer agora. Mas é pelo nariz?" "Não é." "É pelos olhos?" "Não." "Racha a cabeça da minha mãe?" "Não. É por lá." Viu como a gente era burro? A moça casava antigamente e não aceitava o marido, não. Tinha medo do homem e o homem tinha medo da mulher. Hoje em dia, não, já cerca na rua, aí mesmo em qualquer lugar. Eu fico boba com isso.

 

MC - Qual foi a barra mais pesada que você já enfrentou na vida?

HM - Foi com meu pai. Ele me perseguia muito desde criança, mas com a idade de mocinha ele começou a me perseguir mais e uma vez ele se enroscou em mim. Aí eu fui pra luta e falei pra ele: "Você pode fazer comigo o que quiser, mas só depois que pular por cima do meu defunto três vezes. Do contrário você não faz."

 

MC - Você teve coragem de contar para sua mãe?

HM - Contei pra minha mãe, contei pro meu irmão. Mas a minha mãe não fazia nada. E foi por causa disso que eu fugi de casa.

 

MC - Quantos anos você tinha?

HM - Eu tinha uns 15 anos. Ele falava assim: "A terra cria, a terra come, eu também faço e também como". Eu diz pra ele: "Mas eu, o senhor não me come não".

 

MC - Você se casou com 17 anos?

HM - Com 17 eu tive o primeiro filho. A minha irmã casou e eu fui embora com ela. Lá apareceu o primo do meu cunhado e gostou de mim. O pai dele arrumou um padre que fez o nosso casamento.

 

MC - Como foi sua primeira vez?

HM - Eu achava um absurdo, eu não conhecia aquilo e ele também não sabia o que era mulher. Ele era mais velho, mas era bem jacu, bem caipira.

 

MC - Mas vocês conseguiram porque depois de um ano nasceu o primeiro filho...

HM - Eu tive três filhos com ele e ficamo oito anos junto.

 

MC - Foi bom?

HM - Sabe que uma pessoa pobre com uma pessoa mais ou menos só toma na cara, né? Ele era bem de vida e eu era pobre. Então enjoei daquela vida de viver agüentando, e eu não nasci pra isso , nasci pra vaidade, pra tocar e dançar. Então fui embora pra casa de minha mãe, passou uns tempos , apareceu um paraguaio, começamos a tocar junto, ele gostou de mim e me convidou pra ir embora.

 

MC - E os filhos?

HM - Foram comigo. Aí fiquei uns tempos com ele, tive mais três filhos. Nós dois amanhecia cantando e tocando, ele era muito trabalhador e gostava de mim. Mas depois ele trouxe uma outra cara e eu não gostei. Pensei: "Mas que diabo, eu não tive sorte com o primeiro, brigava, e agora pego esse que fica querendo me passar pra trás! Eu não nasci palhaça de homem. Quer saber o que eu vou fazer? Eu vou pra zona".

 

MC - Você sabia o que era zona?

HM - Não sabia, mas ouvia falar, né? Avisei: "Mãe, eu não tive sorte com o primeiro, não tive sorte com o segundo...agora vou ficar feito prostituta por aí. Se não der certo, não interessa. O que eu tinha mais de valor era a minha honra e eu já perdi mesmo. Então que se lasque".

 

MC - E se mandou.

HM - Peguei um ônibus e fui pra Dracena (oeste de São Paulo), cheguei na rodoviária e falei pro taxista: "Você me leva na zona?" O homem me levou na melhor que tinha em Dracena, na casa de uma tal de Dolores. E como eu era nova e bonita, quem não queria me catar? Falei pra ela:"Eu nunca fiz esse serviço, como é que a gente faz isso? Eu não conheço dinheiro e também não sei beber". Ela me explicou: "Olha Helena, quando chegar um homem e convidar você pra beber cerveja, você fala assim: "Eu bebo, mas quero um guaraná". Aí você mistura metade cerveja e metade guaraná, bebe de golinho em golinho até você viciar em beber. E quando entrar no quarto com o homem e transar, eu recebo pra você e depois explico quanto você ganha". Eu fui fazendo assim e você sabe que depois eu virei uma pinguça, uma cachaceira...aí, sim, fui conhecendo dinheiro.

 

MC - E você fazia sucesso com os homens?

HM - Fazia, eu era procurada demais, vinha gente de longe me procurar.

 

MC - Nessa época você parou de tocar?

HM - Aqui no interior de São Paulo eu não tocava. Toquei em casa de mulherada em Piquerobi (SP).Aí apareceu um cara que gostou de mim e falou que eu não ia ficar lá, me arrumou um hotel, mas a minha mente não era de ficar com homem, era zoar mesmo, e beber e tocar e bagunçar. Fui pra zona em Porto Epitácio (SP) e zoei, zoei, zoei; aí fui pra zona no Porto 15 (divisa com Mato Grosso) e lá zoei no meio da mulherada, no meio da boiaderama. Ai apareceu esse rapaz (o atual marido). Ele me tirou da zona do Porto 15 em 1959. Tá com 35 anos que eu estou com ele.

 

MC - Ele se apaixonou por você?

HM - Apaixonou e eu também gostei muito e gosto até hoje. É um coitado, meio atrasadão, mas não tem importância - Eu firmo ele e firmo eu.

 

MC - Quanto tempo você ficou na zona?

HM - Mais ou menos três anos.

 

MC - E você gostava dos homens que iam lá?

HM - Eu escolhia os homens que eu gostava, não ia com qualquer um, qualquer coisa, não. Eu era muito sistemática sobre esse negócio e não ficava na zona a troco de ter relação com homem, certo? A minha vontade era tocar e beber pra ver as companheiras zoar e quebrar o pau e dançar e gritar e ficar pelada...

 

MC - Quando você fala zoar...

HM - É farra. É farra em cima de farra. Era um salão imenso, cheio de mesa, e toda mesa cheia de mulher e cheia de homem. E bebe e dança e fica pelada e briga e puxa uma pelo cabelo e vira um bagunça danada. Mas eu sempre ficava no meu cantinho tocando só pra ver a farra delas.

 

MC - E você não se apaixonou por nenhum homem nesse período da sua vida?

HM - Não. Eu só fui me apaixona por um homem...Um rapaz quando eu ainda estava na casa de meu pai.

 

MC - Quem era ele?

HM - Era um paraguaio de nome Lucio Rodrigues Fernandez. Eu amava aquele homem, mas o meu pai e a minha mãe não quis que eu casasse com ele.

 

MC - Por que?

HM - Porque a irmã de minha mãe casou com um paraguaio contra a vontade do meu avô e sabe o que aconteceu? Depois dela ter dois filhos, ele deu dois tiros de 38 nela. Então meu pai dizia: "Esse paraguaio esta jurando você antes de casar, ele vai acabar te matando". Mas com isso tudo eu queria morrer nas mãos dele.

 

MC - Antes de casar ele dizia que ia te matar?

HM - Ele jurava de me matar porque era demais ciumento. Era paraguaio puro mesmo.

 

MC - Foi o homem que você mais amou...

HM - Eu gostei e até hoje sonho com ele. Deito na cama e fico lembrando, oh , meu Deus... O dia que falei que eu não queria mais o casamento, ele montou no burro e foi embora. Nunca mais eu vi. Depois que virei mulher da zona, procurei ele até em buraco de tatu. Se tivesse achado, sei lá, viu... Continua na Parte 2

revista: Marie Claire

jornalista Lucy Dias,

edição de junho de 1994

número 39 , pág. 40 à 44.