
Helena Meirelles - Parte 2
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Marie Claire/Lucy Dias - Você teve onze filhos, e fez, sozinha, o parto de todos? Helena Meirelles - Eu mesma é quem fiz, abaixo de Deus, porque eu fui mulher de bastante coragem. Eu não tinha um pingo de medo.
MC - Nunca teve complicação? HM - Não. Quando eu sentia que já ia estourar mesmo eu subia na cama e tinha o meu filho deitada, sem segurar em nada nem em ninguém.
MC - E cortava o cordão? HM - Deixava tudo pertinho, a tesoura, o iodo, tudo no jeito. Eu cortava o umbigo, media um dedo e amarrava; media mais um dedo e cortava.
MC - Você aprendeu sozinha? HM - Foi tudo da minha cabeça porque a minha avó era parteira, mas nunca vi a vó cortar umbigo. Ouvia ela falar: "Mede um dedo e amarra; mede outro, corta".
MC - Se foi fácil parir, criar foi mais complicado: você deu quase todos os filhos, não? HM - Sabe por quê? Eles eram pequenos, mas já sabiam limpar a bunda. Porque filho só precisa da mãe enquanto tem que limpar a bunda deles.
MC - Não dava para ficar com eles? HM - O João eu dei porque eu tava nessa vida, né? Foi relação rápida. A menina também. Os outros dois do paraguaio eu entreguei pro pai. Sabe o que ele fez? Arrumou uma mulher e abandonou os meninos.
MC - Você tem notícias deles? HM - Tenho, mas eles me detestam. Só o que mora em Mauá gosta de mim, e o Barbino, que mora comigo e tem 28 anos, com tudo que ele é débil mental, ele gosta de mim uma coisa bárbara.
MC - Você não se arrepende de ter abandonado seus filhos? HM - Eu já pedi perdão a Deus porque eu entrei numa estrada suja, mas pedi pra sair e estou feliz.
MC - Você tem religião? HM - Eu fui criada na Igreja católica, só que não vou na igreja. A minha corrente já vai direto aonde está o nosso Pai. Quando bebia pinga e bagunçava e pintava e bordava, eu tinha esses dois meninos, esse que é doente mental e o que está em Mauá, os meus caçulas, e um dia acordei cedo e sentei na minha cama, bem de ressaca. E vi os meninos fuçando no fogão a lenha, com a cara cheia de carvão. De certo eles tavam querendo comer, com fome, e eu lá dormindo. Olhei bem assim e falei: "Mas que barbaridade. Ô meu Deus, ô meu Jesus, ilumina meus passos, me mostra uma estrada de luz, eu tô na escuridão, eu tô no espinho. Chega de sofrer com os meus filhos". Daquele dia em diante - até me arrepio- não bebi mais e detesto gente com bebida. Fui trabalhar de empregada e nunca mais deixei faltar o pão de cada dia, nem um pedacinho de carne.
MC - Quais eram seus maiores vícios? HM - Foi só beber, mascar fumo e tocar na zona.
MC - Quanto tempo você mascou fumo? HM - Masquei 40 anos. Enquanto eu mascava, meus dentes estavam perfeitos. Parei de mascar, foi de fio a pavio, rápido.
MC - E a marvada pinga? HM - Comecei a tomar pinga eu tinha uns 25 anos, quando comecei na zona. Bebia pinga e cerveja, não tomava álcool. A mulherada bebia, né? Bebia perfume, desodorante...No meu quarto tinha sempre três, quatro garrafas de pinga. Cheguei a beber mais de uma garrafa por dia.
MC - E o que você acha desse mundo cheio de Aids? HM - Falo pra meu velho que graças a Deus eu tô longe disso porque eu não uso ele e ele não me usa mais. Nós estamos livres desse tal de Aids. Eu nunca vi essa tal de droga também.
MC - Sexo então acabou mesmo, você nem pensa mais nisso? HM - Tem noite que eu sonho que estou transando e gozo até dormindo. Fui até no médico pra ver se ele me dava um remédio pra cortar, mas ele disse que não pode, é da natureza...
MC - É mentira então que a gente perde o tesão com a idade? HM - Eu falo pras mulher até hoje: "Tem dia que sonho que tô subindo nas parede..."
MC - Como é que você se alivia? HM - Eu gozo no sonho é a coisa mais gostosa do mundo.
MC - Essa coisa dos homens só gostarem de mulher mais nova te deixa aborrecida? HM - Não, não me deixa porque o meu talento já é suficiente pra eu viver alegre e contente. Pode me chamar de feia que eu aceito, pode me chamar de coscorenta que eu aceito. Não é nem comigo, não ligo. Já vi gente debochando, falando que eu era feia, e eu falei: "Quero ver uma bonita chegar onde eu cheguei. Não chega". Tem muita bonita que não vai na televisão, não faz show, os jornalistas não chegam perto e é bonita dos pés à cabeça.
MC - Você é vaidosa? HM - Quando eu era mais nova, e até há pouco tempo eu era, gostava de andar arrumadinha, usava muita pintura.
MC - E quando os cabelos começaram a cair? HM - Faz uns oito anos. O doutor falou que em todos os velhos o cabelo tem de cair mesmo, ainda mais com tanto antibiótico e injeção perigosa que tomei.
MC - Alguém já falou que você era sapatão? HM - O Clodovil perguntou se eu era mulher macho ou fêmea. Ninguém nunca disse sapatão, se falar vai se dar mal comigo porque é coisa que nunca aceitei, nem quando eu estava na zona. Deus deu o nosso normal, papai-e-mamãe, a parte que deixou pra nós usar. Agora a mulherada faz pra todo lado, até na boca e é na bunda, vira aquela bagunça. O que é isso?
MC - Mas na zona as mulheres não eram bastante liberadas? HM - Eu tinha uma colega que me falou: "Helena, a minha parte da frente é virgem, eu nunca dei, eu só dou atrás". Eu fui mulher da vida, mas nunca aceitei. Eu falava: "Sou mulher família, sim, isso é um pecado mortal".
MC - Por que você acha que homem procura prostituta? HM - Porque eles acham a mulher deles muito ruim de rabo. Tem homem que fala: "Minha mulher não sabe dá, não sabe mexer, não sabe fazer nada. A gente tem de procurar uma que faz carinho". Claro, e você acha que eu vou andar com homem que não faz carinho em mim?
MC - Mas carinho não é o que de melhor a puta sabe fazer. HM - Sabe, sabe...Tem mulher muito carinhosa, como eu mesma. O que os meus homens sempre falavam é: "Você tem um carinho fora de série, sabe carinhar um homem". Não é só fuc, fuc, fuc, que não é galo, sobe e desce. O que é isso? Não é assim.
MC - Tem muito homem que quer fazer com a puta o que não tem coragem de fazer com a mulher dele. HM - Eu falo: "Se o teu marido procura outra é porque você não presta. O meu marido não procura outra mulher porque eu sou suficiente pra ele". Quando amiguei com esse aí, tinha vez que eu fazia oito vezes na noite e tinha dias que ele ia pra roça e me subia aquele tesão...eu ficava doida, subia nas paredes, dava vontade de buscar ele no mato. Tinha vez que nós ia pro mato de dia.
MC - Mas tem uma história que puta não goza em serviço... HM - Goza, goza, sim, porque eu, nossa! Era só começar a triscar,eu nem esperava o homem.
MC - Muita gente diz que em roda de viola o diabo anda por perto. É por isso que você sempre fez suas palhetas de chifre de boi em noite de Sexta-Feira Santa? HM - Diz que tudo que toca tem parte com o capeta, menos o violino, que é em forma de cruz. Então a gente tinha que levar o violão com acordoamento novo embaixo de pé de figueira na Sexta-Feira da Paixão, da meia-noite pro dia. E depois fazer as palhetas de chifre antes do sol nascer.
MC - Se não... HM - É muito perigoso. Tem nego que fica despeitado, dá tiro, pode até matar a gente.
MC - Você viu muito tiroteio? HM - Já vi demais. Por exemplo, eu tava tocando lá em Barracão do Jacuí, no Mato Grosso, e de repente nego arranca o revólver 38 e dava seis tiros embaixo do banco onde estava sentada.
MC - Por que? HM - É o chaime (charme) do Mato Grosso. Lá todo mundo tinha revólver 38, 22...Tudo armado. Até mulher. Eu tinha a minha faca e o meu revólver também.
MC - E aquela história do cara que furou sua viola a tiro? HM - Isso foi no Porto (Epitácio). Eu tocava violão num bar e o cara chegou, arrancou do revólver e falou para mim: "Eu vou atirar na boca do seu violão. Levanta que eu vou atirar dentro". Levantei e ele atirou, quebrou todinho o violão. Isso não é por parte do demônio?
MC - Ele queria brigar? HM - Não queria. É despeito. É um chaime do Mato Grosso. eles não são muito flor de se cheirar, mas são muito bons, a questão é o chaime, é o tiro. No Pantanal, tocando lá num baile tinha nego que chegava arrancando o revólver e parava de frente e atirava perto da cabeça da gente. Vinha outro dançando, parava e tornava a atirar. Então a gente ficava enxergando tudo o céu por causa dos buracos das balas nos tetos dos barracão.
MC - Depois que você saiu da zona, você desapareceu: foram 32 anos de sumiço total. Sua família dava você como morta. HM - Não dei notícia pra ninguém. Sumi mesmo, desde 59, quando amiguei com o Constantino (e atual marido). Só apareci agora. (Foi graças a essa reaparição que sua descoberta foi possível: seu sobrinho Mário Araujo, que também é músico, resolveu investir na ovelha negra da família, mandando uma fitinha com três músicas e uma carta para o editor da Guitar Player. Dois meses depois, soube que Helena foi eleita a artísta do mês de novembro de 1993).
MC - Por onde você andou por todo esse tempo? HM - Fiquei por esse mundão velho trabalhando, fui pro Pantanal, andei por lá tudo. Trabalhava de empregada, lavadeira, cozinhava pros peão. Meu marido no estábulo. E toda fazenda que ele ia, eu ia também.
MC - Tem alguma coisa da qual se arrependa? HM - Nunca me arrependi de nada.
MC - Se pudesse começar de novo... HM - Eu tinha coragem de tocar uma zona por minha conta. E se me convidarem, eu vou. Vai eu e o meu velho também. revista: Marie Claire jornalista: Lucy Dias Junho de 1994 , número 39 página 40 à 44. |