José Vicente - Parte 1

O Estado de São Paulo/ Antônio Gonçalves Filho - Está fazendo 30 anos que você escreveu sua primeira peça, Santidade, proibida pessoalmente pelo então presidente Costa e Silva. A peça trata da relação entre um seminarista e o amigo dele. Como você, hoje convertido ao cristianismo, vê essa peça?

José Vicente - Foi a minha visão de um problema que depois retomo em outras peças, que é o da prostituição masculina. Esse tema, acredito, esgotei em Virtuose e, obviamente, hoje tenho uma posição crítica com relação ao problema. Sou contra.

Estado - O crítico Anatol Rosenfeld, na época, defendeu a sua peça contra os ataques que ela recebeu, afirmando que era um modelo de pureza. Você concorda ou não vê dessa forma a relação entre os principais personagens?

José Vicente - Eu acho que não modificaria quase nada na peça, a não ser formalmente. Na época, era muito influenciado pelos angry men ingleses, Harold Pinter e John Osborne. Aqui, o angry man era Plínio Marcos. Era moda usar o palavrão, a linguagem rude. Hoje eu teria um pouco de vergonha de usar a gíria, aquela coisa toda, mas acho que tomaria a mesma posição.

Estado - O crítico Anatol Rosenfeld, na época da censura a Santidade, lembrava que a peça ficava entre Bernanos e Genet, que tinha algo de essencialmente religioso. Ele não concordava que ela fosse tributária dos angry young men ingleses ou feita para chocar. Para Rosenfeld, ela era confessional, autobiográfica.

José Vicente - Autobiográfica porque fui seminarista durante sete anos. Foi a minha visão da Igreja Católica, a minha visão de seminarista. A peça enfoca o tema da santidade.

Estado - E o que é ser santo para você?

José Vicente - Eu sou cristão, não sou católico. Tenho uma posição cristã diante da vida, conheço os escritores cristãos como Bernanos. Ser santo é renunciar ao mundo. É uma renúncia à sociedade, à vida social.

Estado - Não é a posição de Bernanos.

José Vicente - Bernanos era pessimista. Eu sou otimista. Acho que você pode ser feliz sem se negar a si mesmo, mas não participar da sociedade, porque ela é corrompida e corrompe.

Estado - Quando a censura proibiu Santidade, em 1968, você estava escrevendo Che - Paixão e Morte de um Apóstolo da Desordem, que viria a ser Os Convalescentes. Qual era o embrião dessa peça?

José Vicente - Era uma visão sartriana do mundo. Fui criticado muito pelo Yan Michalski, que achava a peça pretensiosa. Mas ela faz parte de uma obra - e uma obra só faz sentido se for coerente. Assim, Virtuose fecha um ciclo. Com Os Convalescentes e Hoje É Dia de Rock, eu fugia da minha temática. Os Convalescentes foi escrita numa época em que o terrorismo era moda e ser engajado na esquerda era a posição dos intelectuais, embora minha peça fosse contra o terrorismo. Mas concordo com a crítica quando diz que Os Convalescentes foge de minha temática inicial.

Estado - Em O Assalto, sua primeira peça montada, os dois personagens completam-se. Victor, que assalta o banco, é o espírito, e Hugo, o faxineiro para quem ele quer dar o dinheiro, é o corpo. Esse conflito está esboçado desde o princípio de sua carreira, o que fez alguns críticos aproximarem suas peças às de Genet. Você admite esse parentesco?

José Vicente - Eu posso dizer que sou o anti-Genet, o anti-Sartre, que estou numa posição oposta aos existencialistas franceses. Virtuose faz referência a Genet e a Sartre, mas uma referência crítica. Eles também são frutos da Bíblia, estão ligados ao mundo antigo do Velho Testamento. São mais ligados à prostituição. O próprio Sartre tem uma peça, A Prostituta Respeitosa, e o que Genet faz é compilar a Bíblia. Ele dá o underground, o submundo violento da Bíblia. Quanto a O Assalto, Victor e Hugo foram concebidos como alegorias. Os dois juntos formam Victor Hugo. Era uma homenagem ao escritor francês, considerado um imortal, e ao corcunda de Notre Dame de Paris. Meu teatro completo são 12 peças, 8 da fase jovem e 4 da fase adulta. As da fase adulta você não conheceu: Satã, O Povo de Deus e uma terceira chamada A Idade do Ouro, que é uma homenagem a Cervantes. A última, Virtuose, retoma o teatro jovem. Dessa fase jovem, a primeira peça é Santidade, depois vêm O Assalto, Os Convalescentes e Hoje É Dia de Rock, fugindo da temática inicial e mostrando minha infância nas terras de minha família. Depois veio A Última Peça, uma forma de matar o teatro influenciada por Artaud, que estava muito na moda na época, em 1974. A crítica não me perdoou. Aí eu pedi perdão com Ensaio Selvagem, fruto da minha experiência européia de três anos. Passei dois anos em Londres e um em Paris. Era a época de Laranja Mecânica, de Kubrick, da swinging London.

 

Estado - Aliás, você quase trabalhou em A Laranja Mecânica, não foi?

José Vicente - Fui convidado para um teste. Cheguei a ser aprovado, mas não me considerava bom ator. O dinheiro acabou e acabei voltando. Mas gosto muito do filme e de Kubrick. Bem, o fato é que voltei e escrevi Rock and Roll, montada pelo Antônio Abujamra no TBC. Lennon havia morrido, o sonho havia acabado e resolvi escrever uma peça sobre o mundo hippie e das drogas. Ainda escrevi História Geral das Índias, que foge da minha temática. Nas minhas peças há sempre um personagem central, o protagonista, que sou eu mesmo com nomes diferentes. Mas História Geral das Índias foge do problema. É a história da conquista do império inca por Pizarro, culminando com a morte de Atahualpa. Era quase uma resposta à peça O Real Caçador do Sol, porque seu autor, Peter Schaeffer, não era sul-americano e decidi que seria eu a escrever uma peça sobre o tema. Viajei de carona para o Peru e acabei fazendo o "on the road" por toda a América do Sul, realizando a pesquisa nos locais. Escrevi porque Schaeffer é europeu e não conhece a problemática daqui. Eu, como sul-americano, estava apto a dar uma visão mais próxima do tema, sendo também um relato autobiográfico. A peça, originalmente, tinha 12 personagens, mas acabou reduzida a 3 por motivos econômicos: Pizarro, Atahualpa e seu irmão.

Estado - Quando Hoje É Dia de Rock foi lançada, um garoto de blusão de couro aparecia no cartaz da peça anunciando a nova era. Esse garoto era você? O que significava, então, a "nova era"?

José Vicente - Não, não era eu o garoto do cartaz. De qualquer modo, enquanto Hair anunciava a era de Aquarius, Sem Destino respondia com o anúncio de uma era de violência. Hoje É Dia de Rock representa minha visão sobre o tema, mas não foi influenciada por Hair, que eu, aliás, adoro e considero atual com sua mensagem de amor e alegria. Minha peça foi consagrada pelo público, mas parte da crítica a considerava infantil. Ela foi montada pelo Rubens Corrêa e o Ivan de Albuquerque, do Teatro Ipanema, que lutaram para encenar quase todas as minhas peças.

Estado - Há um personagem na peça, o "seu Guilherme", que é um convertido amargo, quase um católico pessimista como Bernanos. Você se identifica com ele?

José Vicente - Bernanos é um caso que só os cristãos entendem, porque ele é fruto de uma visão errada do cristianismo. O cristianismo é alegria e ele era pessimista não só como escritor, mas como pessoa. Há o satanismo em sua obra, de Sob o Sol de Satã ao Diálogo com as Carmelitas. Ele não aceita que Satã possa estar no mundo e se revolta contra isso.

Estado - E você, como vê a permanência do mal no mundo?

José Vicente - O problema do satanismo, do mal, já foi vencido por nós, cristãos. O que as pessoas não aceitam é que Satã é permitido, tolerado por Deus, para provar o mundo, para provar quem ele ama de fato.

Estado - Bem, no Fausto de Marlowe, Mefistófeles, ao responder a Fausto onde está confinado, responde simplesmente que está no inferno e o inferno é aqui mesmo. Você concorda?

José Vicente - Não. A Terra é divina. A maioria que vive no inferno criou o próprio inferno. Para você não viver nele é preciso ter fé, como Abraão, que venceu pela fé. É preciso o benefício da graça. A esse respeito Virtuose faz uma alusão a Graham Greene, um escritor cristão. Só pela misericórdia divina é possível escapar desse inferno, do convívio social que degrada. Só por obra da misericórdia divina é possível não participar dessa sociedade.

Estado - Sua decisão de não voltar ao teatro tem algo a ver com isso?

José Vicente - Poderia voltar, mas não quero. E, depois, minhas peças estão censuradas. Quero publicar meu trabalho completo, até minha biografia, Os Reis da Terra. Além deles há três livros: O Reino de Deus, O Reino de Deus - Filosofia e Ciência e O Reino de Deus - Eclesia.

Estado - Nina, personagem de sua peça Os Convalescentes, mulher burguesa que se relaciona com revolucionários, considera o suicídio uma saída. Exatamente como Camus. Você chegou a pensar em suicídio na época?

José Vicente - Cheguei, mas eu fui protegido e graças a Deus estou vivo até hoje. De qualquer modo, Nina não comete suicídio, ela apenas resolve assumir a luta política. Ela vai ao hospital para tirar um terrorista que está preso. Quer apenas se livrar de sua condição de burguesa.

Estado - Qual a diferença que você vê entre o existencialismo de Sartre e de Camus?

José Vicente - Camus é mais poético. Outro dia li na revista Veja que Camus é o James Dean da filosofia, exatamente porque James Dean tinha aquela coisa terna como Camus, que faz com que você fique fascinado por ele. Sartre é mais escatológico, não é nada jovem.

Estado - Por falar em Sartre, Simone de Beauvoir, sua mulher, fez a apresentação de sua peça Os Convalescentes em Paris. Como era a relação de vocês?

José Vicente - Simone de Beauvoir escreveu que os temas de Os Convalescentes eram modernos em qualquer parte do mundo - o terrorismo, a falência dos intelectuais, o problema da luta política, do engajamento. Mas eu a considero minha pior peça. Era muito pretensiosa para a minha idade, justamente por tratar de temas tão fortes, pesados. O crítico Yan Michaslki falou sobre isso, mas ainda assim assumo a peça até hoje.

Jornal: O Estado de São Paulo

Caderno: Caderno 2

Sábado, 15 de março de 1997

Páginas: D-1, D-4 e D-5.

Entrevista Concedida para Antônio Gonçalves Filho.

Veja a segunda parte da entrevista.