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- Estado
- Você foi um menino tímido mineiro que veio para São
Paulo, trabalhou no Banco do Brasil e depois conheceu o mundo marginal.
Como um garoto como você sentiu atração pelo mundo
ordinário das ruas? O que o atraía nesse mundo?
-
José Vicente
- Quando cheguei a São Paulo, entrei em contato com esse mundo
e foi um choque brutal. Então, comecei a escrever sobre isso.
Eu nasci próximo de Alpinópolis, na província
de Ventania, num lugar chamado Angola. Foi uma infância feliz,
absolutamente feliz, porque desconhecia a violência e o mundo
marginal. Eu saí desse mundo puro, imaculado, para um mundo
que era o contrário disso. Fui para o seminário, fui
vendedor, funcionário do Banco do Brasil, representante de
laboratório, estudei Direito e me formei em Filosofia pela
USP.
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- Estado
- Como Antunes Filho, você também se interessa pela figura
do vampiro como metáfora da condição moderna.
Você até escreveu uma peça sobre Nosferatu. Por
que não a citou?
-
José Vicente
- Porque Nosferatu era uma peça para televisão,
para a TV Cultura. Era uma visão fantástica do vampiro
chegando a São Paulo, mas não foi muito bem realizada.
Tive mais dois casos especiais feitos pela Globo, um chamado Gângster
e outro com o título original de O Zelador, uma homenagem
ao Harold Pinter de The Caretaker, que a Globo mudou o nome
para A Feiticeira.
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- Estado
- Vamos falar um pouco de sua filiação estética.
Você gostava de Antonioni, mas não de Visconti, por exemplo...
-
José Vicente -
Minha referência máxima é o Fellini de Oito
e Meio. Escrevi José Vicente, Virtuose pensando
nele, porque Fellini fez a apologia da prostituição,
de Noites de Cabíria a La Strada. Eu sou
o anti-Fellini.
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- Estado
- Mas você realmente acha que Fellini fez o elogio da prostituição?
-
José Vicente -
Ele canta a beleza da prostituta. Trata a prostituta como uma ingênua,
quando na verdade ela nada tem de ingênua, mas está associada
ao crime. Fellini é trágico, é um grande cineasta
moderno, como Polanski e Bergman.
-
- Estado
- Você diz que Fellini é um apologista da prostituição,
mas a relação entre o bancário Victor e o faxineiro
Hugo em O Assalto não passa pela do michê e seu
cliente. Victor assalta o banco para dar o dinheiro a Hugo porque
o ama e não para comprar seu corpo.
-
José Vicente
- Não, na verdade há o problema da prostituição,
porque o varredor só o aceita por dinheiro.
-
- Estado
- Bem, o dinheiro é mais uma desculpa, porque Hugo
também sente atração física por Victor.
-
José
Vicente
- É, mas ele só aceita por dinheiro.
-
- Estado -
Você, então, acha que a homossexualidade sempre está
associada à prostituição?
-
José Vicente
- Ah, sim, fundamentalmente. Os homossexuais só são
aceitos socialmente porque a prostituição é aceita
pela sociedade, que faz a apologia da prostituição.
Nós, cristãos, somos contra a prostituição.
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- Estado
- Aos 26 anos, você decretou a morte do teatro com A Última
Peça. Depois você virou um autor cristão.
Em Fim de Século, você surge na pele do escritor que
tenta converter jornalistas ateus. Essa não era uma peça
com propósitos de evangelização?
-
José Vicente
- Eu escrevi várias peças que eu não considero
parte do meu teatro, mas apenas incursões em campos que fogem
da minha temática básica. Eu repudio essa peça.
-
- Estado -
O que achou da homenagem de Alcides Nogueira em Ventania?
-
José Vicente
- Não li o texto nem vi o espetáculo, mas aceitei
a homenagem, porque é maravilhoso um dramaturgo jovem e importante
como ele homenagear meu trabalho.
-
- Estado
- Nogueira faz uma divisão formal do José Vicente em
dois personagens. José seria um menino da zona rural, solar,
sagrado. Já o Vicente seria o lunar, o profano. Como vê
isso?
-
José Vicente
- É a interpretação dele. Não digo sim
ou não. Talvez ele tenha razão e eu tenha um lado profano
acentuado, mas acho que todos somos religiosos e profanos ao mesmo
tempo.
-
- Estado -
Você localiza o momento de sua conversão? Como São
Paulo, você viu a luz na estrada de Damasco?
-
José Vicente -
Eu acho que vi. Houve uma queda em mim. Aquele menino que veio de
Alpinópolis, daquele paraíso, caiu do outro lado. Até
hoje estou tentando me levantar do tombo que levei, porque fui precipitado
no inferno.
-
- Estado -
Mas você não acha que as experiências com sexo
e drogas levaram, de alguma forma, a essa conclusão? Você
teria chegado à iluminação sem isso?
-
José Vicente -
Aos 52 anos, acho que tenho de viver as duas coisas, o inferno e o
paraíso. Sem a experiência da dor e do sofrimento você
não compreende o paraíso. É o que falei sobre
Os Convalescentes, que é a mais fraca das minhas
peças e eu assumo até hoje. Com aquela idade eu não
poderia jamais ter escrito essa peça. Sem experiência
não tem sentido você proferir frases filosóficas.
-
- Estado
- Você diz que não pretende voltar ao teatro. Para você,
o teatro é sinônimo de degradação?
-
José Vicente
- Não. Apenas não tenho interesse que minhas peças
sejam encenadas. O que funciona em teatro é o rude, o vulgar.
O teatro é arte vulgar.
-
- Estado -
Mesmo Shakespeare?
-
José Vicente
- (silêncio) Shakespeare é uma exceção.
Não, não, também os clássicos são
vulgares, porque o teatro vive um pouco em função dessa
vulgaridade.
-
- Estado
- Mas há quem procure o sublime no teatro.
-
José Vicente -
O sublime? Isso não funciona no teatro.
-
- Estado
- Você agora se dedica a pesquisas relacionadas com a descoberta
de uma vacina contra a aids. Como, sem ser cientista, vê o advento
da aids?
-
José Vicente -
Não sou cientista, mas sou filósofo. E posso afirmar
que a aids não surgiu agora. Já existia na Roma imperial.
Nasceu da imundície do corpo do homem. É um problema
do asseio. O vírus nasceu do próprio corpo do homem.
As carnes que comemos hoje, especialmente a do cordeiro, são
impuras e amamentaram o vírus. Por outro lado, o que se vê
nos hospitais não tem nada de científico. O curandeirismo
ainda é praticado nesses hospitais, onde o problema da falta
de higiene colabora para o fortalecimento do vírus.
-
- Estado -
Como cristão, você não identifica a aids como
castigo divino?
-
José Vicente -
Há sem dúvida um lado satânico nessa peste. É
uma posição difícil de ser refutada. Ela não
é uma doença normal. Camus escreveu A Peste também
baseado nos acontecimentos da Roma dos Césares.
-
- Estado -
Bem, há teses de pensadores contemporâneos que tratam
a doença como uma metáfora da autofagia do homem moderno,
como se fosse uma tentativa de aniquilamento de uma parte indesejável
de sua natureza.
-
José Vicente -
Muita gente aceita que a doença é um problema de higiene
e acho que, cientificamente, é impossível refutar essa
tese cristã, de que o vírus nasceu da imundície
do homem. As outras são posições extremadas,
mas não descartáveis.
- Estado
- Em sua mais recente peça, Virtuose, há um autor
de teatro chamado César, cercado por figuras marginais.
São seus fantasmas? A peça é uma resposta pública
para sua auto-reclusão?
-
José Vicente
- Sim, concordo. Virtuose é a minha visão
final do teatro e meu trabalho. Amadureci com minha reclusão,
com o afastamento do teatro e do meio social. É um acerto de
contas com meu passado. Certamente Virtuose será adaptada
para o cinema. O Assalto foi filmada pelo Walter Lima Júnior
como Na Boca da Noite.
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- Estado -
Você ainda recebe pedidos de autorização para
montagem de antigas peças suas?
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José Vicente -
Sim, até mais por grupos amadores e experimentais do que profissionais.
As mais requisitadas são O Assalto e Hoje
É Dia de Rock.
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- Estado
- Para finalizar, gostaria que definisse teatro e Deus.
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José Vicente -
O teatro, como disse, é a mais vulgar e a mais social de todas
as artes. Quem é Deus é difícil de responder,
mas acho que é o ser supremo, o arquiteto supremo do universo.
FIM.
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Jornal:
O Estado de São Paulo
Caderno:
Caderno 2
Sábado,
15 de março de 1997
Páginas:
D-1, D-4 e D-5.
Entrevista
Concedida para Antônio Gonçalves Filho.
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