Ron Daniels
Jotabê Medeiros/O Estado de São Paulo - Como você define o seu trabalho de direção?

Ron Daniels - Eu penso que o processo de direção não consiste apenas em bolar idéias e encená-las. Ele se define na pesquisa do texto, principalmente quando se trabalha com Shakespeare. É preciso ver o texto como uma grande obra da imaginação, quer seja em um workshop ou num ensaio. Dirigir também pede um mergulho no mistério da arte de um ator. Eu não interpreto, não sou ator desde 1968. Mas, por mais que dirija, a arte do ator é para mim uma arte misteriosa , que não compreendo mais. Tudo que posso fazer, que um diretor pode fazer, é tornar-se um conselheiro, um amigo, se preciso um amante do ator, o psicólogo que o conduza através desse mistério. Minha preocupação central continua sendo o trabalho com o ator, porque eu era ator. E nós nunca traímos - ou melhor sempre traímos (risadas) - nossas origens. Um diretor deve principalmente ajudar.

Estado - O lado cênico então não é tão importante?

Daniels - Um espetáculo bonito qualquer um faz. É só ter um cenógrafo genial que o ajude e pronto; fazer beleza é fácil. Mas um espetáculo de conteúdo, que ilumine os atores e a platéia, isso é difícil. Fazer um desfile plástico é fácil, e daí? Acho que a beleza tem até um problema - distancia um pouco a platéia da essência das coisas. É bom que as coisas sejam um pouco indeterminadas. Mas o fato é que eu também tenho uma grande atração pela beleza, vivo um pouco dessa divisão.

Estado - Há alguma diferença na leitura que um brasileiro faz de Shakespeare e um inglês faz de Shakespeare?

Daniels - Tem, claro. Eu tenho influência brasileira, isso sempre vai ser decisivo , mas vejo o texto dentro de um contexto inglês. O que importa é a palavra, o som, a metáfora de Shakespeare. Eu sou um condutor, um servidor da palavra de Shakespeare. Não faço uma análise acadêmica, mas uma análise de imaginação, essa é minha perspectiva. Vejo o texto como um mapa, no qual a gente - atores, diretores, cenógrafos- está para fazer uma viagem maravilhosa. Não é escravidão, mas um respeito profundo ao texto. Mais importante que a personalidade do diretor é o autor, a sua capacidade de iluminar através dos tempos as nossas vidas. É esse o debate: Não uma escravidão ao texto, mas inspiração para interpretá-lo.

Estado - Mas como se manifesta seu lado brasileiro numa montagem que segue os preceitos da Royal Shakespeare Company, por exemplo?

Daniels - Transparece em diversos momentos. Há três anos, minha montagem de A Tempestade tinha cenas que se passavam durante uma cerimônia de Iemanjá. Até hoje, sou reconhecido nas ruas de diversos países - a última vez aconteceu em Tóquio - como o diretor que fez o "Hamlet de pijama". Eu coloquei o Hamlet em cena de pijama como uma imagem que tinha do Brasil, o meu padrasto andando de pijama pela rua, indo até a padaria. É comum no Brasil, mas alguns viram como um pequeno escândalo na Europa.

Estado - Existe uma avaliação determinista que diz que um ator não ingl}es tem poucas chances de fazer um Shakespeare realmente forte. O que acha disso?

Daniels - Acho isso um mito. É um debate muito comum no Estados Unidos atualmente, as pessoas dizem que os atores americanos nunca vão fazer Shakespeare como os ingleses. É uma tremenda besteira. Sabe por que isso? Por causa daquelas drogas que a BBC mostra, que traz encenações dos anos 40. Não se faz mais Shakespeare assim. Técnica a gente desenvolve. Se o ator entra em cena achando que vai ser um ator subdesenvolvido , então ele será. É preciso experiência, autoconfiança, coragem. Claro que cada ator, cada diretor que vem de outro país tem uma cultura completamente diferente e isso é evidenciado em seu trabalho. Mas qual e o problema?

Estado - O que você acha dos atores brasileiros, Marília Pêra, Fernanda Montenegro?

Daniels - Acho Marília Pera genial. Só vi Fernanda Montenegro em Petra von Kant e achei-a maravilhosa. Paulo Autran é fenomenal. Mas não posso falar dos brasileiros em geral porque não trabalhei no Brasil. Pretendo aproveitar esta visita para melhorar meu conhecimento.

Estado - Você foi um dos fundadores do Oficina. tem acompanhado do desenvolvimento do trabalho do José Celso Martinez Corrêa?

Daniels - Não. Mas eu soube que o Zé Celso levou três anos para montar As Bacantes, não sei se é verdade. Na Inglaterra, um espetáculo é montado em seis semanas. Nos Estados Unidos, em quatro semanas. Eu levei oito semanas, mais um ensaio técnico, para montar Ricardo II e Ricardo III. É claro que é um trabalho intensivo, de nove, dez horas diárias de ensaios. Senão, como é que se pode viver? Todo mundo pensa que é só no Brasil que é difícil viver de teatro, mas nos Estados Unidos também não dá para ganhar a vida, a não ser que o artista esteja ligado a uma universidade ou a um grande teatro. Lá, só a porcaria da Broadway dá um dinheirinho. Ninguém monta Sam Shepard com o intuito de ganhar dinheiro, mas já sabendo que vai perder. A exceção talvez tenha sido Angels in America, que foi um grande sucesso de Tony Kushner , mas parece que não deu lucro, apesar de tudo. O que dá lucro são as montagens de três atores, de uma hora e meia de espetáculo, tipo Art. Mas isso não é teatro que me interessa. Na Inglaterra é diferente.

Estado - Como você vê essa onda de trazerem Shakespeare para os dias atuais, para guetos de Los Angeles , para favelas brasileiras, para os morros de Salvador?

Daniels - Eu acho que qualquer Shakespeare é bom, exceto aqueles da BBC de Londres. Esse debate de contemporaneização de Shakespeare não é o verdadeiro debate. O problema é o de passar a ser verdadeiramente controlado pela população, mas ao mesmo tempo não ser tão alheio à sua realidade. Como se pode respeitar o texto e manter um grupo de atores que consegue entender e interpretar o texto de maneira que seja contemporâneo , que tenha sentido no fim do século? E, principalmente, que não seja apenas um amontoado de truques de direção e de encenação. Essa é a pergunta. Trata-se realmente de conhecer o texto, de não ter medo de abrir a boca, de agitar a imaginação e não temer as emoções grandes. Não pode ser mesquinho de imaginação , senão se torna tudo muito chato. Outra coisa : existe uma pressão econômica para que tudo seja feito da maneira mais barata possível, com dois ou três atores. A tendência é ficar modesto, covarde. Quando não é isso, é aquela ousadia que transborda, excessiva. Trata-se de fazer uma síntese, essa é a tarefa.

Estado - Você viu o Romeu e Julieta com o Leonardo DiCaprio? Não achou uma diluição?

Daniels - Eu gosto, é totalmente legítimo. E bem melhor que o do Zeffirelli, para se sincero. Pode-se fazer tudo com Shakespeare, e tudo funciona. E o DiCaprio é um bom ator. Titanic é um dos filmes mais detestáveis da História , mas o garoto é bom ator. sua interpretação de um débil mental em Gilbert Grape é sensacional.

Estado - Você é considerado um dos grandes especialistas em Shakespeare da atualidade. O que pode dizer do autor num workshop de um mês?

Daniels - Ninguém tem soluções, ninguém tem autoridade para sair por aí falando em nome de Shakespeare. Não venho aqui com a credencial de quem "sabe como se faz". Deve-se ter sempre a atitude de quem procura um esclarecimento.

Estado - Você nunca tentou montar Nelson Rodrigues em Londres ou nos Estado Unidos?

Daniels - Aconteceu uma coisa ruim com isso. A Amy Irving e seu marido, Bruno Barreto , foram me procurar algum tempo atrás em Boston. Ela tinha adquirido os direitos de Vestido de Noiva e queria montá-lo, convidou-me para encena-lo. Mas nenhum teatro dos Estados Unidos se interessou pela peça. Os americanos não reconhecem as qualidades do texto, consideram um surrealismo que até mesmo uma tradução fica um pouco pesado.

Estado - Como seria sua definição do teatro?

Daniels - O mundo do teatro é muito pequeno e eu acredito que a alegria do teatro está na colaboração. Você tem de buscar colaboradores cujos trabalhos abram a sua cabeça, transformem você. O teatro é a arte da colaboração. Pintar e compor são atividades solitárias, o artista em seu mundo sozinho. Mas no teatro você tem de se relacionar com pessoas que não só entendam o que você quer, como acrescentem. Aprendi principalmente com os cenógrafos - os atores em geral têm mais preocupação com sua interpretação. Cenógrafos e figurinistas têm idéia da totalidade, são os contribuintes mais bacanas, estimulam , fazem crescer.

Estado - Algum colaborador em especial frustrou você?

Daniels - Não. Trabalhei com gente muito especial, de diversas áreas. Com o pessoal do grupo U2 eu dirigi uma montagem de Laranja mecânica. Bono Vox e The Edge trabalharam como loucos na adaptação, divertimo-nos muito, foi uma bela experiência, uma aventura. Quase tão importante quanto o resultado. Tenho frustração pelo que não fiz. Um dia , Vanessa Redgrave ligou-me perguntando se eu não toparia dirigir uma montagem de Anthony & Cleopatra. Mas eu estava concentrado pela Royal Shakespeare Company e tive de pedir ao meu chefe, que era o Trevor Nunn. Ele me disse: "Não pode." Lembro-me perfeitamente daquele dia, ele disse isso e saiu do carro, entrando no seu prédio. Eu fiquei ali, a chuva caindo, chorando. Essa mulher é genial , teria sido um sonho trabalhar com ela. Mas não podia , a companhia não podia começar uma competição contra si mesma. Eu entendi as razões do Trevor, mas aquilo partiu meu coração.

 

O Estado de São Paulo

Caderno 2 - página D-3

Sábado, 15 de agosto de 1998.