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Bob
Wilson estréia seu novo poema cênico
The Days
Before: Death, Destruction and Detroit III tem como tema o apocalipse,
mas, na beleza das 12 cenas criadas pelo encenador, transforma-se
num espetáculo de redenção
- Anne Midgette/
tradução: Ruth Helena Bellinghini
-
-
The
New York Times/ O Estado de São Paulo
- Peças
de roupas vazias, espalhadas pelo palco, levantam-se e caminham enquanto
a atriz Fiona Shaw lê um trecho escrito por Umberto Eco em que
ele descreve detalhadamente os corpos em decomposição
que habitam a terra dos mortos. Um galo vermelho arranca pedaços
de um rolo de papel das mãos de um anjo azul que paira sobre
o palco. Uma garotinha, uma boneca com cabeça de porcelana,
ostenta uma expressão maravilhada enquanto observa meteoritos
por meio de um gigantesco telescópio, enquanto uma coruja-da-neve
agita suas asas.
- O espetáculo,
que teve seus ensaios e pré-estréias realizados em Módena,
na Itália, chama-se The Days Before: Death, Destruction and
Detroit III. Foi originalmente concebido como uma peça sobre
o apocalipse e suas 12 cenas estão repletas de imagens bizarras
e movimentos estilizados. Cada uma delas inclui um excerto do livro
de Eco, A Ilha do Dia Anterior, textos que nada têm a ver com
a ação que se desenrola no palco.
- Robert Wilson,
que criou e dirigiu The Days Before, diz que sua peça é
uma celebração da humanidade. Inicialmente encomendada
pelo Lincoln Center Festival, The Days Before: Death, Destruction
and Detroit III estreou mundialmente na quarta-feira, na abertura
do festival, no New York State Theater.
- "É o
mundo dos sonhos de Bob Wilson", diz Fiona. "Nas peças dele
as pessoas movem-se como se estivessem num mundo submarino", afirma
a atriz mexicana Ines Somellera, que, entre outros, faz o papel da
coruja. O próprio Wilson é bastante flexível
ao definir seu mais novo espetáculo. "Como você o descreveria?",
costumava perguntar durante os ensaios. "É uma viagem, um poema",
respondia.
- Nos Estados
Unidos, Wilson é mais conhecido pela abstração
de Einstein on the Beach, a peça músico-teatral que
criou em parceria com Philip Glass em 1976 e, mais recentemente, pelo
belo visual da sua montagem de Lohengrin no Metropolitan Opera, muito
mal recebida pela crítica e pelo público.
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- Linguagem
própria - Desde que começou a trabalhar como encenador,
nos anos 60, Wilson desenvolveu uma linguagem própria, que
envolve precisão, estilização e a decisão
de ignorar completamente a lógica intelectual em favor de outra,
que é visual ou estética. Algumas pessoas acham seu
trabalho frio e nada emocional; outros descartam-no como mero criador
de belas imagens, mas poucos são capazes de perceber a efervescência
que há por trás de sua celebração de humanidade.
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- Sem imposições
- Um dos motivos que levam Wilson a concentrar-se na forma e no
movimento é o fato de não querer impor nada a seus atores.
"Faço o espetáculo primeiro sem palavras e acrescentamos
as palavras mais tarde", explica. "Elas têm de vir deles, não
podem ser algo mecânico." Ele vê o elemento humano emergindo
de movimentos rigidamente controlados.
- "Este espetáculo
faz-me lembrar dos meus primeiros trabalhos, quando as pessoas podiam
ser elas mesmas e não tinham de assumir um papel", disse para
seu jovem elenco no último ensaio. "Os momentos mais tocantes
do espetáculo são aqueles em que posso ver vocês
como indivíduos; às vezes vocês tentam representar
e não acredito em vocês, mas se vocês sentem alguma
coisa, isso é a verdade, é a experiência de vocês."
- Em fotografias,
Bob Wilson pode parecer uma pessoa distante e inatingível,
mas pessoalmente esse texano de 57 anos, alto e de fala mansa parece
uma combinação de Larry Hagman e Kevin Costner. Criado
em Waco, ele teve uma relação distante com seu pai,
um advogado, e uma mãe que descreve como pouco emotiva e muito
controladora. Mas é um diretor que costuma abraçar calorosamente
todo o seu elenco. Wilson formou-se em artes visuais no Pratt Institute
em 1965. "Se tivesse estudado teatro jamais faria o trabalho que faço
hoje", diz.
- Atualmente,
sua agenda inclui a realização de instalações
em galerias e museus e exposições de seus desenhos,
pinturas e design de móveis, especialmente de cadeiras. As
imagens são o ponto central de sua obra: ele tende a descrever
seus trabalhos teatrais com a ajuda de desenhos.
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- Experiência
visual - "A melhor maneira de conhecer meu trabalho é pela
experiência de vê-lo." Imagens, porém, são
apenas parte da história. "As imagens são a superfície",
explica Wilson. "O público italiano não era particularmente
sofisticado e nem falava inglês, mas olhava as imagens, que
são uma linguagem universal", prossegue. "Isso é apenas
a pele e sob ela há carne e ossos, a megaestrutura, como se
fossem colunas." Seja um trabalho de Eurípedes ou uma peça
de sua autoria, Wilson começa sempre pela arquitetura. "É
como construir um apartamento; você pode preferir algo barroco
e eu, algo zen, mas o prédio como um todo tem uma certa coesão,
então você cria uma megaestrutura para o todo e dentro
dele todos têm uma certa liberdade."
- Um modelo para
essa fusão de formalismo e liberdade é o trabalho de
George Balanchine, que Wilson chama de o Mozart do século 20.
"Quem mais poderia alinhar 17 bailarinos que, aparentemente estão
fazendo a mesma coisa, mas, na verdade, estão fazendo coisas
levemente diferentes?" Ele se lembra de ver Balanchine ensaiando Allegra
Kent. "Balanchine dizia: `Faça isto'", conta, fazendo um gesto
elegante. "E ela fazia isto", continua, repetindo o gesto com uma
ligeira imperfeição. "Mas ele não a corrigia
e aí reside sua grandeza, no ato de dar espaço."
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- Contrapontos
- Wilson codifica a estrutura de cada espetáculo em seqüências
de números e letras que ele consegue citar anos depois. "As
estruturas nem sequer são perceptíveis quando o espetáculo
está pronto", explica. O público, porém, pode
perceber a correspondência entre diferentes cenas: o palco escuro
com uma caverna iluminada no canto esquerdo em outra cena pode transformar-se
num palco feericamente iluminado com um canto às escuras à
direita. The Days Before foi planejado como duas colunas de seis cenas
cada. "A cena 1 está relacionada à 12ª, a cena
2 à 11ª e assim por diante", afirma, comparando as colunas
a um emaranhado de linhas cruzadas.
- Em outros trabalhos
seus, como Einstein on the Beach, os atos são separados - ou
associados - por cenas intermediárias que ele chama de knee
plays (peças-joelho). "Chamo-as assim porque a peça
é como um membro e essas cenas são sua articulação."
Essas knee plays também aparecem na estrutura de The Civil
Wars: a Tree Is Best Measured When It Is Down, outra parceria com
Philip Glass, com cinco atos e 12 horas de duração em
seis países.
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- Épico
cancelado - Embora algumas de suas partes tenham sido encenadas,
o épico completo, criado para os Jogos Olímpicos de
1984, foi cancelado por falta de financiamento. A reação
de Wilson a essa contrariedade está refletida em sua oeuvre.
Em trabalhos anteriores a The Civil Wars, Wilson freqüentemente
testava os limites do teatro, até mesmo os de tempo e geografia:
Ka Mountain e Guardenia Terrace foi encenada em 1972 no topo de uma
montanha do Irã e durou sete dias. Desde The Civil Wars ele
tem evitado os cenários sem tramas de sua juventude, mantendo
seu trabalho dentro de limites mais convencionais.
- Em 1979, o Schaubühne
em Berlim pediu-lhe para encenar a peça que seria a primeira
Death, Destruction and Detroit - Death, Destruction and Detroit II
estreou no mesmo teatro em 1987. Foi a primeira oportunidade do encenador
de trabalhar com uma companhia profissional e rendeu-lhe uma série
de convites. O passo seguinte foi enfrentar o teatro de repertório.
Poucos anos depois, Wilson estava encenando Shakespeare e Brecht,
Mozart e Puccini em teatros europeus subsidiados pelos governos europeus,
continente em que Wilson é venerado. Nos EUA ele é mais
conhecido pela sua fama do que pela apresentação extensiva
de sua obra.
- Desde The Civil
Wars sua agenda também está aberta para vários
projetos, muitos deles comerciais, entre eles uma instalação
nas Galeries Lafayette, em Paris. Em alcance e ambição,
esses projetos são nitidamente distintos de seus primeiros
trabalhos. "Com The Days Before sinto que estou voltando para alguma
coisa", diz. Talvez porque seja a primeira peça teatral de
grande escala e não comercial que encena em muito tempo.
- Os movimentos
de seus atores, inicialmente considerados incomuns e inexplicáveis,
ganharam elegância e refinamento à medida que o diretor
reagiu às convenções do teatro e ópera
ocidentais recorrendo a elementos de outros gêneros tradicionais,
como o teatro nô. "Geralmente, ouço melhor uma ópera
de olhos fechados, cenários demais atrapalham a música;
por isso quero criar cenários que me permitam ouvir a ópera
e é difícil encontrar o contraponto", exemplifica. "Em
Lohengrin fiz o coro descer pelo palco lentamente, embora a música
fosse rápida, porque quis que caminhassem contra a música."
Em The Days Before, o estilo operístico de Wilson equilibra
o bizarro, criando um todo mais suave e sem arestas. Mesmo quando
a família Romanov é assassinada no palco por um grupo
de soldados semelhantes a babuínos, a violência é
graciosa e não provocativa.
- Ainda assim,
o diretor vê arestas em seu trabalho, em parte porque, embora
a estrutura do espetáculo esteja pronta desde o primeiro workshop
realizado em 1996, as cenas são desenvolvidas até o
último minuto antes da estréia. No último dia
de ensaio na Itália, Wilson rejeitou uma saia brilhante, de
6 metros de comprimento, que deveria tocar o chão desde uma
figura alçada sobre o palco, aprovou uma nova cabeça
para o anjo, trocou a ordem dos textos e decidiu que trabalhos do
compositor japonês Ryuichi Sakamoto iria usar no espetáculo.
- "Tinha uma idéia
de como esse espetáculo deveria ser e tentei fazer com que
fosse exatamente assim, mas tive de jogar muita coisa fora", afirma.
Como resultado, o que começou como uma visão do apocalipse
e desenvolveu-se como uma seqüência de contos individuais
acabou condensando-se como um fluxo de imagens distintas, mas elípticas,
e as quatro horas originais foram reduzidas para uma hora e meia.
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- Nem poético,
nem teatral - Os textos de Umberto Eco também foram depurados
até que, livres de trama e personagens, formassem uma melodia
abstrata para cada cena. "É um texto interessante porque não
é nem poético nem teatral", diz. O romance de Eco trata
de um náufrago italiano e passa-se no século 17. "Eco
e eu somos completamente diferentes, ele é um intelectual e
eu não sou", compara. "Você me pergunta se gosto de vinho
tinto e respondo que sim, mas ele fala meia hora sobre o assunto;
é fascinante", continua. "Seu texto e suas idéias são
densos como uma rocha, por isso coloquei algum espaço entre
eles; e o texto aumenta o peso de minhas idéias, impede que
saiam flutuando por aí."
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- Parcerias
- No sentido estrito, Eco não é parceiro de Wilson
na empreitada. Seu texto só entrou no espetáculo depois
do terceiro workshop, no ano passado. "Mesmo assim é uma colaboração,
sempre é uma colaboração, mesmo com Puccini;
se fosse um texto de William Burroughs o espetáculo seria bem
diferente", diz. Burroughs e Wilson trabalharam juntos em Black Rider,
de 1990.
- Trabalhar com
um texto já existente é diferente da parceria criativa
que marcou a colaboração de Wilson e Glass em Einstein
on the Beach. Em The Days Before, as palavras de Eco e a música
de Sakamoto parecem mais parte do mobiliário do que da estrutura.
O compositor fez algumas sugestões e participou do workshop
do ano passado, mas as decisões finais couberam a Bob Wilson.
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- Nô e
kabuki - Seus colaboradores no sentido convencional incluem a
coreógrafa Suzushi Hanayagi, bailarina que começou no
teatro nô e kabuki aos 2 anos e meio e trabalhou em 15 espetáculos
de Wilson. Outro colaborador é o poeta autista Christopher
Knowles, que recita seus textos. Depois de formar-se em Pratt, Bob
Wilson trabalhou em várias instituições para
crianças deficientes. Mais tarde, crianças surdas e
autistas tornaram-se suas colaboradoras. O uso abstrato que Knowles
faz da linguagem é uma das mais fortes influências sobre
o trabalho de Wilson e sua poesia está em Einstein on the Beach.
- Jovens atores
e equipe técnica também aparecem como colaboradores
na obra de Wilson. "A maioria está envolvida neste projeto
desde o início", conta. The Days Before foi quase que inteiramente
desenvolvida em Watermill, o centro de artes que Wilson criou em Long
Island em 1991 para funcionar como um laboratório criativo
e como base americana de um encenador que fica muito tempo na Europa.
Algumas pessoas pedem para passar algum tempo em Watermill. Outras,
como Ines Somellera, escrevem cartas sobre o trabalho de Wilson e
acabam recebendo um convite.
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- Caminhada
- "Você não anda do mesmo jeito depois de trabalhar
com Bob Wilson", afirma Ines. "Em Watermill ele me disse: `Lembre-me
de ensinar você como andar.' Eu pensei: `Mas eu venho fazendo
isso a minha vida inteira!'", conta. "Depois disso, você caminha
pela rua e, em vez de simplesmente olhar para a frente, fica consciente
também do que está ocorrendo a seu lado e atrás
de você", explica. Para Ines, essa consciência assoma
plenamente na cena 12, quando segue Fiona Shaw pelo palco. "Estou
em várias cenas, mas essa é `a' cena, é a minha
caminhada", diz.
- Entre sua partida
de Módena, em junho, e sua estréia em Nova York esta
semana, Bob Wilson esteve tocando três projetos. Com tantas
coisas rolando ao mesmo tempo, ele tende a ver os projetos individuais
à luz do todo maior, a oeuvre de Wilson. "De Kooning disse
certa vez que existe um ponto em que se torna difícil dizer
a diferença entre a sua arte e a sua vida." Nem sempre Wilson
tem tempo para monitorar tudo o que faz, como foi o caso de Monster
of Grace, um filme em três dimensões, realizado em parceria
com Philip Glass. "Detestei! Foi uma das coisas mais embaraçosas
de minha vida; pegaram meus desenhos e os animaram, mas não
era eu", afirma.
- Na Itália,
ele parecia Marcello Mastroianni em Oito e Meio, um diretor cansado,
perseguido pelo ruído incessante dos telefones, que luta para
ter paz de espírito e toma personagens de cada caminhada da
vida para criar um trabalho que, em última análise,
é uma celebração de humanidade. Há algo
de Fellini na abordagem calorosa de Wilson e na cantora turca de ópera
Semiha Berksoy que, aos 90 anos, passeia pelo palco de The Days Before
sobre um sofá gritando o Liebestod de Isolda. "As pessoas disseram-me
que eu não deveria fazer isso, mas ela tem praticado e quer
fazer." Em The Days Before há espaço para o acaso e
para o humano. A primeira cena abre com Dadon Dawadolma, cantora tibetana,
cantando ao crepúsculo. Wilson não sabia o que ela estava
cantando até a última pré-estréia. Na
tocante cena final, sob um luminoso céu cinzento de aurora,
um homem velho caminha lentamente, como se fosse criança, no
deque de um navio repleto de passageiros congelados enquanto Fiona
Shaw lê uma passagem sobre a morte.
- Bob Wilson não
tem medo de fazer coisas belas. E, à medida que a violência
estilizada da primeira metade de seu trabalho é compensada
pelas correspondentes cenas restauradoras da segunda - o naufrágio
é respondido pela transcendência, a morte de uma mulher
velha pela apoteose de uma criança - fica claro que The Days
Before: Death, Destruction and Detroit III, bela ou kitsch, impenetrável
ou fácil, não é apenas sobre o apocalipse, mas
também sobre redenção. (Tradução
de Ruth Helena Bellinghini)
O
Estado de São Paulo/ The New York Times
Anne
Midgette / tradução Ruth Helena Bellinghini
Sábado,
10 de julho de 1999.
Página
D-19.
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