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Dias
Gomes, brasileiríssimo e iluminado
Autor investiu
na realidade do País, na força da fé religiosa,
em seus problemas sociais, nas ilusões deste ou daquele
grupo, mas sempre distante das experiências formais, fiel
à linguagem do povo
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Mariangela Alves de Lima / Especial
para O Estado de São Paulo
- No teatro brasileiro
dos anos 40 a aura artística luzia somente sobre a cabeça
do ator. Ao dramaturgo competia produzir textos adequados às
características e às preferências dos intérpretes
que lideravam as companhias. Dentro desse modo de produção
o jovem Alfredo de Freitas Dias Gomes ofereceu, em 1942, uma de suas
peças a Procópio Ferreira, então figura máxima
da cena brasileira. Procópio gostou da primeira oferta, um
drama antinazista, mas considerou pequena a sua probabilidade de sucesso.
Ficou com uma segunda peça, denominada Pé-de-cabra e
fez dela um êxito de público e de crítica. Sendo
assim, em 1942, aos 19 anos, esse escritor de origem baiana radicado
no Rio de Janeiro estava nas melhores condições possíveis
para a época, ou seja, escrevendo por encomenda peças
que deveriam, antes de mais nada, satisfazer o gosto do público.
- O contrato firmado
com a companhia de Procópio Ferreira previa uma produção
anual de quatro peças e uma das cláusulas especificava
a exigência de uma quinta peça caso uma delas não
agradasse o contratante. Em resumo, "um contrato escorchante", como
afirmaria o dramaturgo muitos anos depois, mas sintomático
da posição do texto na hierarquia de valores artísticos
do período. O texto deveria ser uma mercadoria produzida em
abundância para suprir a rotatividade dos repertórios
e o intérprete tinha sobre ele amplos poderes. Basta lembrar
que em uma das peças escritas nesse período a personagem
negra foi transformada em branca pela suposição de que
o público não se interessaria em ver em cena um conflito
racial.
- De qualquer
forma, Dias Gomes nunca renegou essas obras de juventude escritas
por um iniciante, sob a pressão do mercado consumidor. "A minha
opinião pessoal é a de que são textos ingênuos
escritos sobre problemas muito sérios", diria em um depoimento
concedido ao Serviço Nacional de Teatro em 1977. Os assuntos
da resistência democrática, da luta contra o preconceito
e da caracterização de peculiaridades da sociedade brasileira
estavam presentes como uma marca pessoal nesses primeiros trabalhos.
Dessa primeira fase parece ter conservado também o hábito
de uma produção copiosa, sempre ciosa da comunicabilidade,
tanto no que diz respeito à oportunidade do tema quanto à
transparência da linguagem. Em tom dramático ou farsesco
toda a sua produção teatral tem como núcleo um
problema relevante para a vida social do país. Não estava
no seu temperamento resignar-se ao que chamava de boulevard.
- Não é
de estranhar portanto que, depois desse começo auspicioso,
tenha passado quase dez anos afastado do teatro. Foi absorvido pelo
rádio, então uma força cultural importantíssima,
e produziu, em uma década, mais de 500 adaptações
radiofônicas de romances e peças teatrais. Essa experiência
de sintetizar grandes peças e transformar em diálogo
narrativas romanescas lhe forneceu os instrumentos para poder retornar
ao teatro com objetivos mais claros e maturidade cênica. Enquanto
isso, transformavam-se as condições de produção
do teatro por meio dos grandes conjuntos artísticos em que
o texto e a interpretação do elenco tinham um valor
equivalente na hierarquia da composição da obra cênica.
- Estimulado por
essa efervescência e pelo mote "realidade brasileira", que parece
propagar-se como uma boa nova também no meio teatral - a literatura
já ouvira esse brado íntimo desde os anos 30 -, Dias
Gomes escreve, em 1959, o brasileiríssimo texto de O Pagador
de Promessas. Encenada no ano seguinte pelo Teatro Brasileiro de Comédia,
é considerado um triunfo artístico em todos os níveis
de realização, tem uma temporada mais longa do que a
média do TBC e é coroada por nada menos do que 17 prêmios.
- Quarenta anos
depois de ser escrita, não se pode deixar de reconhecer que
se trata de uma obra de estatura excepcional. Décio de Almeida
Prado refere-se a ela como "um instante de graça" por ter seu
autor atingido um ápice, "aquela obra que congrega numa estrutura
perfeita todos os seus dons mais pessoais". De fato, nas obras subseqüentes
abre-se o leque de temas e o dramaturgo explora variadas tendências
narrativas, mas o conflito essencial que interessa a Dias Gomes e
a sua marca estilística estão configurados à
perfeição na saga de Zé do Burro.
- Nos moldes do
"protagonismo" trágico, o herói da peça tem um
único e inabalável desígnio, o de honrar uma
promessa. A justiça desse acordo firmado com um poder celeste
não pode ser contestada por um poder temporal. E é assim,
com um único e irredutível argumento, que o campônio
Zé do Burro justifica a sua determinação em levar
uma cruz até o pé do altar para agradecer a salvação
do seu amado burrico. Enfrenta a perda amorosa, a argumentação
eclesiástica e a força da lei e acaba por vencer a todos
na sua ingênua, mas sincera, imitação de Cristo.
- A essa estrutura
simples, em que um único motivo impulsiona a ação
e se sobrepõe a todos os outros elementos de composição
do texto, corresponde uma expressão verbal verossímil
e sem atavios literários. Respondendo à sugestão
da mulher para que se contente em deixar a cruz na porta da igreja,
Zé do Burro responde: "Eu prometi levar a cruz até dentro
da igreja, tenho que levar. Andei sete léguas. Não vou
me sujar com a santa por causa de meio metro." A habilidade de fazer
com que o impulso nobre, quase extra-humano na sua pureza, se ajuste
à fala coloquial permanece uma constante nas criações
posteriores do dramaturgo. Só notamos artifícios retóricos
- e alguns resquícios de "literarice" - quando recorre aos
expedientes narrativos, como é o caso das interlocuções
diretas entre o palco e a platéia em O Santo Inquérito.
- De volta à
dramaturgia e depois desse reconhecimento de crítica e de público,
Dias Gomes parece realizar, com as suas novas peças, um projeto
de investigação em etapas. Nos vários planos
(institucionais, culturais, religiosos e políticos) em que
se manifesta a opressão do homem do povo, localizam-se as ambientações
dramáticas. A cada um desses estratos enfocados correspondem
estilos diferentes, mas pode-se dizer que nenhuma das suas peças
é um experimento formalista, feito pelo prazer de exercitar
a linguagem.
- A Invasão,
por exemplo, é uma peça escrita em 1962 com uma forma
de composição em nada semelhante à de O Pagador
de Promessas. Enfoca o proletariado urbano como massa onde não
é possível a emergência do protagonismo ou a unidade
de ação. Um grupo de favelados, desalojado por uma enchente,
ocupa o esqueleto de um edifício em construção.
Colméia humana onde cada família indica a heterogeneidade
de objetivos dessa massa que só se iguala pela miséria
em que vive e pelas violências que sofre, a peça não
lhe atribui um movimento ou destino dramático. Capta essas
manifestações de impotência e as deixa em suspenso,
como uma radiografia que exige uma resposta de quem a observa e não
de quem a vivencia.
- O messianismo
religioso como uma força dotada de dupla potência de
energizar e escravizar o homem do povo, o banditismo como resultado
de exclusão social, a ignorância endêmica perpetuando
a si mesma por meio da projeção do populismo, as ilusões
dos intelectuais progressistas sobre o seu papel histórico
são alguns dos temas - há um número significativo
de subtemas - que essa dramaturgia propôs para avançar
sobre o continente invencível e sempre móvel da "realidade
brasileira".
- Nas duas décadas
em que a ditadura militar se opôs frontalmente a sua obra, interditando
ou censurando parcialmente textos, o tema do autoritarismo, que procura
além de proibir a expressão, violar consciências,
talvez tenha adquirido um relevo um pouco maior. Há uma evidente
analogia entre a forma de O Santo Inquérito e os inquéritos
levados a cabo pelos militares em seguida ao golpe de 1964. O visitador
do Santo Ofício, personagem que deve inquirir uma mocinha sobre
a firmeza da sua fidelidade à Igreja o faz para evitar "a propagação
de doutrinas revolucionárias e práticas subversivas".
Nem por isso o dramaturgo deixou de examinar, com espírito
crítico e também com uma certa dose de piedade, os vãos
esforços dos opositores do regime, meia dúzia de gatos
pingados sem o respaldo do povo que desejariam redimir.
- Campeões
do Mundo, peça cujo tempo ficcional vai de 1963 a 1979, é
um amargo inventário da resistência armada, com o seu
saldo real de pequenos triunfos e imensos sacrifícios. Mas
é nela que uma das personagens resume de um modo quase simplista,
como convém a sua posição na trama, o que o dramaturgo
Dias Gomes quis fazer e fez: "Quero chegar na alma do povo. E começar
daí. Descobrir o mecanismo da paixão popular e usar
esse mecanismo..." No plano factual, mostra-nos essa peça,
o povo deixou-se empolgar mais pela Copa do Mundo do que pelas ações
revolucionárias. No entanto, o feito artístico do que
então se podia chamar de "esquerda brasileira" é um
saldo considerável desse período de ativismo político
e social.
- Dias Gomes tinha,
na ponta da língua (repetiu-a em diferentes ocasiões)
a contestação aos que recriminavam seus esquerdismo:
"A liberdade não é um estado, mas um ato. O engajamento
não constitui um obstáculo na busca da verdade, mas
uma condição para que possamos conhecê-la em toda
a sua plenitude e expressá-la esteticamente."
O
Estado de São Paulo
Mariangela
Alves de Lima
Sábado,
22 de maio de 1999.
Página
D-12.
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