O artista alemão que vendeu a alma ao Diabo

Duas exposições e uma retrospectiva de filmes lembram aniversário de Gustaf Gründgens

Fabio Cypriano / Especial para O Estado de São Paulo
 

BERLIM - Se estivesse vivo, Mefisto faria 100 anos. Ou melhor, Gustaf Gründgens, o ator alemão que materializou no teatro e no cinema a imagem do personagem de Goethe, estaria comemorando um século.

Os alemães organizaram vários eventos para celebrar um dos mais importantes e polêmicos artistas da história alemã. Na Biblioteca Nacional, em Berlim, até o dia 12 de fevereiro está a exposição Mas Eu não Tenho Minha Face, com objetos, documentos e cartas do ator.

Uma retrospectiva com os filmes para cinema foi organizada pela Cinemateca Alemã, iniciada em novembro com término no dia 2. E, finalmente, uma segunda exposição, chamada Dança sobre o Vulcão, pode ser vista no Schwules Museum, o museu de cultura gay de Berlim.

"Gründgens é um mito na Alemanha, pois sua história é tão interessante e complexa, que qualquer aspecto que se escolher nela tem muitos desdobramentos", contou ao Estado o dramaturgo alemão Dirk Schlüter.

Liberalidade - Segundo o dramaturgo, "ele tem uma vida muito contraditória, com muitos pontos obscuros, muitos deles impossíveis de se esclarecer, como suas relações com o nazismo e com o escritor Klaus Mann".

É reconhecida a liberalidade de Berlim e Hamburgo nos anos 20, descrita nos livros do escritor inglês Christopher Isherwood, os quais serviram de base para o filme Cabaret, de Bob Fosse. Foi nesse contexto que Gründgens conheceu Klaus e Erika, filhos do escritor Thomas Mann, em 1925, na cidade de Hamburgo.

Erika vivia na época com a atriz Pamela Wedekind, e juntos, os quatro montavam peças no Teatro de Câmara de Hamburgo. Klaus Mann escrevia os textos e Gründgens os dirigia. Segundo Peter Michalzik, que lançou recentemente a biografia Gustaf Gründgens: O Ator e o Poder, apesar dos dois serem gays não se sabe qual o nível da relação que tiveram, e o fato é que, em 1926, Gründgens se casou com Erika Mann.

Mas o casamento não durou muito. Em 1927, os irmãos Mann, que tinham uma relação fraternal muito intensa, viajaram para os Estados Unidos. Em 1929, com a escalada do nazismo na Alemanha, os dois foram morar na França e Gründgens preferiu ficar. Ele já havia se mudado para Berlim e iniciado carreira no cinema.

Para o biógrafo Michalzik, era muito fácil para os irmãos Mann saírem do país, porque tinham um pai internacionalmente reconhecido e dominavam outros idiomas perfeitamente, o que já não ocorria com Gründgens, que necessitava da língua alemã para prosseguir na carreira.

Schlüter discorda da tese de Michalzik: "Muitos foram os atores que emigraram para a Suíça e mesmo a Áustria, onde também se fala o alemão." A realidade é que Gründgens ficou e fez uma carreira meteórica. Em 1934, com apenas 34 anos, ele assumiu a direção geral dos teatros de Berlim, tendo como padrinho o poderoso Hermann Göring, ministro da Aviação e segunda pessoa na linha de poder, logo após Hitler.

Interdição - Foi então que Klaus Mann escreveu o livro Mefisto - Romance de uma Carreira, segundo a história do seu ex-amigo, e publicado em 1936, em Amsterdã. A única solicitação do editor, Fritz Lanshoff, foi que no livro, Hendrik Höfgen, o personagem correspondente a Gründgens, não fosse caracterizado como gay, pedido aceito por Mann.

O livro foi publicado somente em 1965 na Alemanha, dois anos depois da morte de Gründgens, e mesmo assim proibido um ano depois, a pedido de Peter Gorski, seu filho adotivo. Somente em 1981, Mefisto voltou a ser publicado, o que aumentou a polêmica em torno do ator.

Ariane Mnouchkine, do Théâtre du Soleil, fez uma montagem de sobre o livro de Klaus Mann, em 1979. Mas o que tornou a história de fato mundialmente conhecida foi o filme Mephisto, de Istvan Szabo, em 1981.

Na exposição do Schwules Museum está exposto um trecho do diário de Josef Goebbels, o então ministro da Propaganda: "O führer não gosta de Gustaf Gründgens, pois ele não é masculino e, para Hitler, na vida pública não se deve deixar clara a homossexualidade." Foi por isso que em 1936 Gründgens se casou com a atriz Marianne Hoppe, separando-se logo após o fim do nazismo em 1946.

"É possível que sua relação com o nazismo tenha sido ingênua, pois é conhecida sua estupefação com a ordem de Hitler que, em 1944, mandou fechar todos os teatros, provável sinal de que ele não sabia exatamente o que acontecia fora das salas de espetáculos", explica Schlüter.

Com o fim do nazismo, Gründgens chega a ser preso pelos russos e detido por nove meses. Mas já em 1947 ele volta a trabalhar nos palcos de Berlim e, em 1948, assume a direção do Teatro Municipal de Düsseldorf, um dos mais importantes da Alemanha.

Para o dramaturgo Schlüter, "não se deve imaginar que com o fim do nazismo não havia mais nazistas na Alemanha, pois muitos cargos importantes continuaram com eles, como o então diretor da Filarmônica Wilhem Furtwängler e foi, por isso, fácil para Gründgens continuar sua carreira".

Vários foram os artistas que afirmaram desconhecer o que acontecia de fato na Alemanha de Hitler. A famosa cineasta de Triunfo do Desejo, Leni Riefenstahl, é uma delas. As exposições sobre Gründgens, contudo, não escondem esses vínculos e deixam para o público julgar se o artista pode ou deve ser aplaudido independentemente da sua posição política.

De qualquer forma, a carreira do ator continuou de maneira triunfal. Até mesmo Helene Weigel, fundadora do Berliner Ensemble com Bertolt Brecht, numa carta exposta agora na Biblioteca Nacional, escreveu a Gründgens pedindo para "assistir à sua espetacular encenação de Fausto".

Entre as muitas dúvidas na vida do ator, a última envolve sua morte. Ele foi encontrado morto no dia 6 de outubro de 1963, num quarto de hotel em Manila, nas Filipinas. Junto ao corpo, apenas um pequeno bilhete: "Acho que tomei muitas pílulas para dormir, sinto-me estranho ou diferente, deixem-me dormir muito."

O Estado de São Paulo

Fábio Cypriano

Sábado, 25 de dezembro de 1999.

Página D-6.