Um autor muito elogiado, mas pouco encenado

Dramaturgo abordou a passagem do Brasil rural para o urbano e criou personagens complexos

Beth Néspoli / O Estado de São Paulo

Autor de peças como A Moratória, Vereda da Salvação e Ossos do Barão, Jorge Andrade pode ser comparado a Nélson Rodrigues pela dimensão de sua dramaturgia ainda que esteja longe de despertar nos diretores brasileiros o mesmo interesse que o dramaturgo carioca.

Uma pena, pois Andrade abordou como nenhum outro a desordenada passagem do Brasil rural para o urbano e, embora longe de fazer um teatro de tese, criou personagens inseridos na história. Personagens que não podem ser compreendidos sem levar-se em conta a um só tempo aspectos históricos, sociais e psicológicos, daí seu poder de iluminar a formação do País e, em conseqüência, nosso presente.

Alguns confrontos que ele aborda permeiam o Brasil desde sua formação até hoje. "Sua obra mostra o confronto entre o arcaico e o moderno, o rural e o urbano e também nossa eterna busca do pai", comenta Eduardo Tolentino. "Encontramos desde o mais profundo atraso, regiões onde ainda se vive na Idade da Pedra até um local como a Avenida Paulista; essas dicotomias, que o Brasil não resolveu, estão no cerne da obra de Jorge Andrade."

Nascido em 1922, em Barretos (SP), filho mais velho de grandes proprietários rurais, Aluízio Jorge Andrade Franco viveu em família a crise de 1929 e viu a fazenda de seu pai encolher de 30 mil para apenas 61 hectares. Desde menino sofreu a incompreensão do pai, que via no primogênito seu sucessor e irritava-se com o fato de ele preferir ler a laçar bois.

Em 1951, Andrade assistiu a O Anjo de Pedra, de Tennessee Williams, no TBC, e no fim do espetáculo procurou Cacilda Becker dizendo que queria tornar-se autor de teatro. A atriz aconselhou-o a entrar para a Escola de Arte Dramática. No fim do mesmo ano, já na EAD, escreveu O Telescópio, com a qual ganhou o Prêmio Fábio Prado. Mais tarde, com A Moratória, ganhou um prêmio do governo norte-americano para estudar nos Estados Unidos, onde conheceu Arthur Miller.

"Volte para o seu país e procure descobrir por que os homens são o que são e não o que gostariam de ser e escreva sobre a diferença", foi o conselho do dramaturgo americano a Andrade, como conta Delmiro Gonçalves no prefácio do livro Marta, a Árvore e o Relógio, da Editora Perspectiva. O volume reúne dez peças de Andrade e ainda textos teóricos sobre o conjunto da obra de críticos como Anatol Rosenfeld, Décio de Almeida Prado, Antônio Cândido e Sábato Magaldi, entre outros.

Andrade seguiu à risca o conselho de Miller. "Sua obra é, em essência, escavação do passado, rasto atrás, volta às origens, iluminação crítica do passado pelo presente e do presente pelo passado", escreveu Rosenfeld. "A obra de Jorge Andrade refaz, no teatro, um caminho percorrido em parte pelo romance brasileiro de nosso tempo, na medida em que se volta para a decadência dos valores patriarcais, que assina a formação do Brasil atual", escreveu no mesmo volume o crítico literário Antônio Cândido. O Grupo Tapa, mais uma vez, oferece ao público a oportunidade de conhecer a elogiada, porém pouco encenada, dramaturgia desse autor. (B.N.)

O Estado de São Paulo

Beth Néspoli

Quarta, 21 de abril de 1999.

Página D-1 - Nº4.527