|
Duas
noites para conhecer melhor o teatro do Japão
Hoje e amanhã,
em dois palcos diferentes de São Paulo, a chance de apreciar
o requinte e a delicadeza das artes cênicas orientais, como
parte das comemorações dos 90 anos da imigração
no Brasil
- Christine
Greiner / Especial para O Estado de São Paulo
-
-
- Como parte das
comemorações dos 90 anos da imigração
no Brasil, estará em cartaz hoje e amanhã em São
Paulo um espetáculo que inclui o teatro clássico japonês
e o chamado teatro kyôgen. A apresentação de hoje
é na Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e a de amanhã,
no Sesc Vila Mariana. Organizada pela Fundação Japão
e com coordenação de Alice K., a turnê começou
em Brasília, no dia 8, e seguiu para o Rio, Recife e para Curitiba,
cobrindo uma parte significativa dos pólos de produção
cultural do Brasil.
- Mais do que
mostrar o requinte e a delicadeza do teatro tradicional japonês,
que já esteve em São Paulo no ano passado em festival
do Sesc, o objetivo da turnê é a integração
entre os profissionais das artes cênicas no Brasil e a cultura
japonesa. Para estreitar ainda mais o contato com o público
e dar ênfase ao aspecto cômico do kyôgen, os atores
prometem arriscar falas em português, durante a apresentação.
- O nô conquistou
uma forma de representação profissional apenas no início
do século 15 (período Muromachi), encontrando nos templos
zens os mais importantes centros de cultura. Foi quando nasceram as
artes unidas pela aristocracia civil e pela cultura militar, que constituem
a base de tradição estética japonesa como o sumiê,
pintura monocromática com tinta preta; o cha-no-yu, cerimônia
do chá; o ikebana, arte floral japonesa; o karesansui, jardim
de pedra e areia; a arquitetura shoin-zukuri e o renga, poesia em
cadeia.
- Um grande número
de peças nôs é atribuído aos monges zens
e ao ator Zeami (1363-1443) que, ao lado do pai Kan'ami, teria sido
o responsável pela transição entre a dança
pura e o teatro dramático. Ele foi o segundo representante
da escola Kanze (após a morte do pai), a mesma a que pertencem
os atores que estão em São Paulo: Kyutaro Hashioka e
Nobuaki Hashioka, filhos de Cumas Hashioka, tido como "patrimônio
cultural vivo do Japão".
-
- Drama suspenso
- Para apreciar o nô, não é necessário
entendê-lo. É preciso mergulhar no estado de sonambulismo
que ele provoca. Um estado que, segundo o poeta e dramaturgo irlandês
William Butler Yeats, estaria entre o sono e o despertar, em uma espécie
de universo fantástico. Isso porque nô é um drama
suspenso no tempo. Trata de deuses, espíritos, acontecimentos
que não têm uma vinculação com fatos reais,
mas são capazes de depurar sentimentos universais como o amor,
o ciúme, a coragem e a vingança. As medições
do tempo são, quando muito, as estações do ano,
um começo de primavera, um final de outono... medidas que obedecem,
na verdade, a um tempo mitológico.
- Participam da
encenação: um ator principal (shite), um coadjuvante
(waki), os acompanhantes (tsure), um coro e os instrumentos musicais
(três tambores e uma flauta). É o shite que usa a máscara
e define a natureza do nô. Ele pode ser: humano (ancião,
homem, mulher), fantasma, demônio, animal ou criatura imaginária.
-
- Loucura como
categoria - No programa que será apresentado no Sesc Villa
Mariana, Aoi no Eu (Lady Aoi) é uma peça da categoria
da loucura. É inspirada nos Contos de Genji, um dos primeiros
romances da humanidade. Shite é a amante do príncipe
Genji que fica tomada pela loucura (no caso, o demônio do ciúme),
após a perda de seu amor, e quer atormentar a esposa doente
Aoi. Já Tsuchi-gumo (espírito da aranha) é uma
peça da categoria de demônio, baseada nos Contos de Heike,
e mostra a saga de um guerreiro (waki) para vencer o espírito
demoníaco de uma aranha (shite) que lhe foi atirado por um
monge. A terceira peça, Shakkyô (A ponte de pedra), apresenta
uma adaptação da Dança do Leão (Shishimai),
típica do gigaku e do bagaku (manifestações de
origem chinesa para o nô) , e também está incluída
na categoria de demônio. Fala da peregrinação
de um monge a templos da China, que é alertado por uma criança
sobre a aparição do buda da sabedoria. O leão
mitológico que dança é o mensageiro do buda Mônju.
- Essas peças
não serão apresentadas integralmente, apenas os trechos
de maior impacto, como os bailados e as cenas de possessão.
É uma escolha dos próprios atores, tendo em vista a
adaptação à platéia brasileira e às
condições de que dispõem sem o elenco completo.
-
- Mais agilidade
- Quanto às peças de kyôgen, são bastante
diferentes. Como manda a tradição, o kyôgen é
sempre encenado com o nô. São peças cômicas,
mais ágeis e nada imponentes. Constituem o toque de humor que
dá equilíbrio à chamada "jornada de nô",
representando o entreato dos dramas que se costumam estender por muitas
horas. A maioria dos atos cômicos não passa de 30 minutos
e precisa apenas de dois ou três atores, por isso serão
apresentadas integralmente.
- Mas o tempo
é diferente do nô, não apenas porque a ação
é rápida, mas sobretudo porque os personagens não
olham para trás. As ações são presentes.
Kyôgen ensina que o humor é construído para o
momento e, quando estendido ao passado, corre o risco de perder a
graça. As peças têm normalmente apenas um ato.
Se precisam mostrar uma mudança de tempo, basta um "na manhã
seguinte..." e está tudo resolvido.
- Mas há
outras peculiaridades. A linguagem não é a do texto
literário do nô e, sim, bastante coloquial. O uso da
máscara também é muito diferente porque os atores
de kyôgen precisam usar o rosto para expressar os sentimentos.
Por isso, as cerca de 20 máscaras de kyôgen são
vestidas apenas para interpretar os personagens velhos e feios, para
os deuses, demônios, animais e espíritos.
- Em São
Paulo, serão apresentadas: Bonsan (O ladrão de árvores
anãs) e Kakushidanuki (Escondendo o texugo). A primeira mostra
um sujeito que, indignado pelo fato de seu amigo ter muitas árvores
anãs e não lhe dar nenhuma, decide arrombar a casa do
amigo, dando início a um jogo divertido. A segunda, com a história
de um caçador de texugos que, quanto mais bebe, mais honesto
fica. Sabendo dessa fraqueza, seu patrão oferece saquê
para driblar suas maneiras e conseguir um bom par de texugos para
o jantar.
O
Estado de São Paulo
Christine
Greiner
Sexta-feira,
22 de maio de 1998.
Página
D-23.
|