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Concisão
e simbologia fascinam o Ocidente
Na peça
`Aio-No-Ue', uma mulher doente é representada por quimono dobrado
no palco
Christine
Greiner / O Estado de São Paulo
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- A lista de dramaturgos
e poetas ocidentais encantados pelo drama nô é bastante
longa e poderosa. Reúne, entre muitos outros, nomes como os
de Gordon Craig, William Butler Years, Eugene O'Neill, Paul Claudel
e Bertolt Brecht. Motivos não faltam. Para se ter uma idéia,
em 1989, foi até organizado um congresso no Hawai, onde está
localizado um dos mais importantes Centros de Estudo Oriente/Ocidente,
só para discutir nô e kyôgen no mundo contemporâneo.
- O material foi
publicado no ano passado e discute as modificações que
a tradição tem sofrido, mesmo no Japão, por intermédio
de experiências como as de Tadashi Suzuki e até de membros
de famílias tradicionais que, não raramente, organizam
seções de improvisação para trocar experiências
com profissionais de kabuki, butô e outras formações
cênicas.
- Quanto às
razões para tanta fascinação, uma delas é
a concisão que marca o drama nô e não tem nada
a ver com uma simples economia. Ela está nos movimentos (um
ator pode atravessar um deserto dando três passos), no uso dos
objetos cênicos (o palco é quase vazio), nos conceitos
de tempo/espaço, na simbologia altamente sofisticada e, ao
mesmo tempo, simples. A personagem que dá nome à peça
Aio-No-Ue, a mulher doente de Genji, é, por exemplo, apenas
um quimono dobrado na frente do palco.
- Outro aspecto
que chama a atenção no drama nô é a sua
organização. Um modo de traduzir o pensamento ideogramático
que está na língua e nos seus textos culturais. De acordo
com essa representação, idéias diferentes são
relacionadas para sugerir outras, com uma flexibilidade poética
fértil e ilimitada. No drama nô, dança, música,
elementos cênicos, figurinos, texto, atores apresentam-se ao
público insinuando sempre novas relações. A passarela
e o seu uso múltiplo durante a apresentação,
é um bom exemplo.
- Ela pode ser
um lugar de passagem, pelo qual shite vai ao quarto de espelho e se
transforma no espírito verdadeiro. Pode também indicar
o destino do ator naquela noite (dizem que após o segundo passo
ele já sabe se a performance será boa ou não),
ou o emblema da arte que, em japonês, é dô, caminho.
Já dizia o crítico George Banu: a cultura japonesa é
a cultura da passagem e não a do lugar, como a nossa.
- Além
de tudo isso, o que encanta artistas do mundo todo, é a preparação
do ator de nô. O mentor do teatro nô, Zeami, escreveu
vários tratados estéticos, esmiuçando modos de
atuação, exercícios, conceitos de beleza e técnicas
de interpretação. Neles, é bem claro que ao lado
do estudo dos movimentos (kata), o ator precisa aprender a conquistar
o público, "enganando o seu espírito", mesmo quando
repete a mesma cena, da mesma peça, durante toda a sua vida.
- O jogo de sedução
entre público e ator tem graus diferentes de atuação,
de princípios de beleza e de precisão técnica,
que vão do "charme sutil" (yugen) ao desabrochar da flor (hama).
A "receita" de Zeami é simples: para adquirir a flor é
preciso praticar exercícios, polir a arte.
- No livro um
do seu tratado Füshikaden, aparecem os exercícios que
devem ser realizados pelos atores, conforme a faixa etária,
tendo em vista adquirir a técnica, o ofício da flor,
a semente. Quanto ao espírito da flor, designa a capacidade
de aprender o que Zeami chamou de concordâncias. O ator deve
conhecer a si mesmo, ao outro e reconhecer o momento propício.
Se o ator se conscientiza do grau da sua arte, a flor que corresponde
a esse nível não mais desaparecerá por toda a
vida.
- Se ele conhece
o outro, percebe o nível do público. E se reconhece
o momento propício, reage de maneira apropriada, de acordo
com a situação, escolhendo o momento ideal para apresentar
a sua arte. Por isso, a concordância total envolve o grau do
nô, o grau do ator, a perspicácia do público,
o lugar e o momento oportuno.
- Para brilhar,
os atores devem ainda guardar as flores que vão e vêm
ano após ano. As experiências passadas podem ser novas
sementes no momento em que forem esgotados todos os recursos presentes.
Uma boa dica para quem ainda tem dúvidas sobre o fato de que
todo artista precisar ser, antes de mais nada, um pesquisador. (C.G.)
O
Estado de São Paulo
Christine
Greiner
Sexta-feira,
22 de maio de 1998.
Página
D-23.
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