Marieta Severo vive sua fase de descasada feliz
 

Norma Couri / Especial para O Estado de São Paulo
 

O papel de mulher de Chico Buarque de Holanda foi vivido com discrição por três décadas enquanto Marieta, dublê de mãe e de atriz, escancarava no palco, no cinema e na televisão o tamanho da sua força. Mas só agora, aos 51 anos, separada de um dos maiores criadores do Brasil, segura, bonita e bem, Marieta conseguiu dominar de vez a situação, nocautear a platéia com a explosão do seu talento e ser, definitivamente, a dona da história.

Esse é o nome da peça mais recente de Marieta, A Dona da História, de João Falcão, na qual ela tem interpretação brilhante ao lado de Andréa Beltrão, no Teatro Leblon do Rio. A peça vai estar em cartaz em São Paulo só em julho. É aconselhável aos ansiosos culturais que peguem a ponte aérea para ter o prazer de apreciar essa delícia de humor em que uma mulher de 50 anos se confronta com ela mesma aos 20 e tenta mudar a própria história.

Tudo começou num baile, no qual ela dançou com o futuro marido, de quem teve quatro filhos e herdou um enfado. Ou tudo não começou nesse baile, ao qual ela não foi, não conheceu o futuro marido, não casou nem teve os filhos. Virou atriz. Ou solteirona arrependida. Ou apenas solteira e feliz. Ou tudo é imaginação e ainda vai acontecer.

O baile é a peça-chave. Marieta e Andréa são uma pessoa só decidindo os rumos da própria história. O baile é aquele momento em que nós todos embarcamos numa direção da vida, deixando um promissor caminho para trás. E se tivéssemos optado por aquele atalho?

Alternando os tons de voz, a figura, os desejos, a personalidade e ainda em perfeita simbiose com Andréa, Marieta, sem mudar de roupa ou cabelo, é milhões de personagens num só palco, que acaba sendo o de todo mundo na platéia e o da sua vida. Na estréia, ao contrário do que ocorreu no desfile da Mangueira deste ano, ela foi sambar na pista e Chico, na galeria, bateu palmas com vontade.

Desde o surrealista personagem Rato na novela O Sheik de Agadir, que misturava oficiais nazistas com odaliscas, passando pelo terremoto em que morreu soterrada por vontade de Janete Clair em Anastácia, a Mulher sem Destino - estrelada por sua amiga íntima, Leila Diniz -, Marieta já estava decidida. Seu papel na vida não era o de coadjuvante.

Como a determinada Penha que segue o marido até o arraial de Antônio Conselheiro em Guerra de Canudos, de Sérgio Rezende, como a destemperada Carlota Joaquina no filme de Carla Camurati, como a patética solteirona de No Natal a Gente Vem te Buscar, ou como a especial Aspásia de A Estrela do Lar, de Mauro Rasi, Marieta vem alternando os próprios papéis. Cômica e dramática, Rasi a definiu assim: "É a mistura de Ana Magnani com Giulietta Massina e Dercy."

Marieta, a dona dessa história, traz uma infinidade de personagens escondidos dentro dela, mil e uma histórias para contar, quilômetros de bastidores de vida pessoal e profissional. Dona dos maiores troféus do cinema e do teatro brasileiro, Marieta orgulha-se de ter conquistado um nos bastidores: ela ganhou o processo movido contra a Editora Bloch e está prestes a ter o resultado de outras ações contra a imprensa. Para Marieta, um direito fundamental, garantido pela Constituição, foi violado. "Minha privacidade foi invadida."

 

O Estado de São Paulo

Norma Couri

Caderno 2

Sábado, 28 de março de 1998.

Página D-1.