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Marieta
Severo não tem medo da vida nem da velhice
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Norma Couri / Especial para O Estado de São Paulo
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- Separada depois
de um casamento de 30 anos, que sobreviveu quando quase todos os da
sua geração naufragavam, Marieta Severo se deparou com
detalhes reais e imaginários de sua vida expostos na imprensa.
"Especulações, boatos, mentiras, fiquei indignada ao
ver isso acontecendo na minha vida", reagiu. "Nesses 33 anos de carreira
nós nos acompanhamos - vocês, imprensa, nós, artistas
- e, pelo nosso comportamento, Chico e eu achamos que todo mundo tinha
compreendido e íamos ter o respeito e a delicadeza com que
estávamos tratando das nossas coisas, mas viraram o balde."
- Chico e Marieta
também não acreditaram quando leram o texto racista
de um jornal de Goiás, escrita por um profissional negro, sobre
o neto - filho de Helena (Lelé) e Carlinhos Brown. Pais de
Luíza, de 22 anos, Helena, de 27, e da atriz Sílvia,
de 29, o casal que se uniu na ditadura se exilando na Itália
e boicotando os veículos que boicotavam qualquer um deles,
Marieta e Chico se uniram mais uma vez nessa guerra. Desta vez, contra
as intromissões na família, que continua a passar o
Natal na casa da Gávea e o réveillon no apartamento
de Paris. "Chico fez, faz e fará sempre parte da minha vida,
não tem jeito, ninguém conhece a gente como um conhece
o outro, a gente sempre estará inconscientemente um na vida
do outro", diz.
- Apaixonada por
balé desde os espetáculos no Municipal com a avó
Marieta, ela se casou há 30 anos - sem papel - com o estudante
de arquitetura Francisco, depois de um casamento relâmpago com
o artista plástico Carlos Vergara. Ali, como na história
daquele baile na peça A Dona da História,
de João Falcão, o destino foi traçado. "Mas
Chico continua arquiteto, o que mais vi foi o Chico fazer mapas de
cidades imaginárias." A casa onde ela mora na Gávea,
madeira encravada no verde, foi traçada por Chico. "Estamos
fazendo uma casa em Petrópolis e tem o dedo dele; não
adianta, o Chico tem cabeça de arquiteto."
- "A gente continua,
tem um nó que a gente não consegue abandonar", ela afirma.
Chico está num apartamento no Jardim Botânico, arrumado
em parte por Marieta. Ela só teme novas correlações
nos discos novos de Chico. "Por mais que eu tenha estudado balé
e quisesse seguir carreira, a música que fala `ele é
funcionário, ela é bailarina' não tinha a ver
conosco", avisa. "Beatriz, uma das músicas do Chico
que eu mais adoro (`será que é pintura/ O rosto da atriz/...
E se eu pudesse entrar na sua vida'), não foi feita para mim",
informa.
- "Vi o Chico
rindo várias vezes com a leitura ao pé da letra que
faziam das músicas dele; o processo de criação
passa por outro caminho, a gente às vezes fala de dor-de-cotovelo
no momento em que está muito bem na vida, essas interpretações
são risíveis."
- Aos 51 anos,
Marieta não tem medo nem da vida nem dos papéis que
começam a rarear no mundo todo para mulheres com mais de 50.
"Mas no Brasil é pior, ser jovem é uma qualidade em
si, eu me pergunto como essa gente vai envelhecer." E lembra: "Outro
dia vi uma atriz muito cuidadosa com o seu corpo dizer que só
ia ser atriz até os 40 anos; uau!, mas é depois que
começa a ficar bom."
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- Couraças
- Atônita com a supervalorização do personal trainner
na formação dos atores brasileiros, ela cita Klauss
Vianna, o mago do corpo, que morreu há dez anos e passou a
vida ensinado atrizes e bailarinas a tomar consciência dos próprios
movimentos. "Ator tem de ter o corpo maleável para passar sensações,
emoções, a musculatura deve estar trabalhada para filtrar
isso, mas, meu Deus, os atores estão virando couraças."
- Ela se lembra
de como se comoveu ao assistir a um dos últimos filmes de Katharine
Hepburn. "Tinha mal de Parkinson, estava tremendo, mas atuava com
tamanha dignidade que era um recado de quem, para o bem e para o mal,
se propôs a exercer o ofício até o fim." Isso,
para Marieta, é ser atriz.
- No Brasil, onde
há a ditadura da glamourização, ela sentiu um
alívio ao interpretar a peluda Carlota Joaquina. "A diretora,
Carla Camurati, falava, `chega de bigode, Marieta, você já
está parecendo o Pepe Legal', mas eu exagerava ainda mais",
ressalta. "Esses papéis me confortam, a feiúra no palco
nunca me assustou, ser glamourosa é que requer um esforço
excepcional."
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- Imposições
- Ela se espanta com as imposições da televisão.
"Antes de dizer, `nossa, como o personagem está bem', as pessoas
devem dizer `nossa, como seu cabelo está bem', e então
você sabe que foi aceita." Ela sabe que televisão vive
de imagem e precisa desse consumo. "São pessoas que surgem
e desaparecem, enfeitam novelas e evaporam, mas se não tiver
uma Fernanda, um Fagundes, uma Suzana Vieira, uma Regina Duarte, ninguém
segura uma novela, não."
- Marieta lembra-se
do tempo em que viveu um estranho personagem, o Rato, na fase cubana
de Glória Magadan na novela O Sheik de Agadir. "Tinha
de tudo, espião da Gestapo, soldados da Legião Estrangeira,
odaliscas na restinga de Marambaia, mas nada igual ao terremoto que
ocorreu na minha cara quando Janete Clair precisou eliminar todo o
elenco em Anastácia, a Mulher sem Destino."
Era Leila Diniz, melhor amiga de Marieta com quem ela chegou a dividir
apartamento e de quem mais tarde, depois da sua morte, "adotou" a
filha Janaína.
- "Depois do terremoto
é que a Anastácia ficou sem destino mesmo", ela brinca.
Era uma fase em que as novelas eram completamente fora da realidade
brasileira. "Eu cheguei a ser apedrejada na rua como Rato, mas hoje
o público está muito treinado, os artistas têm
muito mais opções de sobrevivência, daí
o meu espanto."
- Marieta é
de uma geração em que o público não sabia
onde os atores moravam, como eram suas casas, qual a marca de seus
carros e o nome das amantes - passadas e futuras. "Hoje, tudo dá
status e acho que por isso invadiram minha vida com tanta naturalidade",
desabafa. E acrescenta: "Nunca soube onde morava a Helena Ignez -
que era uma grande atriz, mulher do Gláuber, a quem eu substituí
em Se Correr o Bicho Pega, Se Ficar o Bicho Come, nem
a marca do carro do Vianinha (Oduvaldo Viana Filho), que, provavelmente,
andava de ônibus." "Sinto-me um dinossauro."
- Hoje, a construção
de um ator faz- se de outra maneira. "Antes de completar aqueles anos
essenciais de formação, já quer ter uma cobertura
na Barra e exibir a marca do carro; é um marketing montado
em cima de um sucesso material, apenas."
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- Futuro
- Mãe de uma jovem atriz, Silvinha, que está trabalhando
com Gabriel Vilela, ela viu crescer uma geração de filhos
de atores. "Nandinha, Tarcisinho, Gabriela Duarte, há um olho
em cima deles que não teriam se não fossem filhos de
quem são, isso deve atrapalhar ao mesmo tempo em que dá
projeção; então o negócio é ter
calma, investir no talento e não embarcar nessa canoa." Outro
dia, Marieta soube de um jovem ator que não aceitou um papel
na novela porque ia perder o cachê como apresentador de baile
de debutante, mais rentável. "Fiquei pensando: `Ele é
um ator? Não, isso é uma história paralela que
inventaram por aí.'"
- Cada vez ela
olha o futuro da arte brasileira com mais temor. "Que escola o ator
brasileiro tem? E qual a escola dos atores lá fora?", pergunta.
Marieta estremece quando ouve um ator falar dos seus objetivos - o
personal trainner em primeiro lugar, o apartamento em segundo e o
carro em terceiro. "A realidade do ator não é essa."
- Marieta Severo,
sem querer, compara. "Bons atores devem perseguir a verdade, correr
atrás dela e não de um personal trainner." Para ela,
esse é o nosso panorama pasteurizado, consumista, competitivo.
"Não interessa quem voou para que lado, interessa o vôo
que cada um pode ter e explorar isso ao máximo."
- "O caminho está
dentro de cada um, mas é aí que os terrenos se misturam."
Deve ser isso que põe o ator brasileiro na novela da tevê
e no anúncio do intervalo, veiculando a peça ou o disco
com as músicas da novela que paga pouco, mas torna possível
esse rodízio espetacular e cada vez mais rápido. "Só
fiz propaganda duas vezes", ela lembra.
- Marieta bebeu
comédia na chanchada brasileira. "Oscarito, Eliane, Zezé
Macedo, quem se lembra deles hoje em dia?", pergunta. "Essa linha
fazia parte do meu imaginário, brasileiro tem muito humor:
Procópio Ferreira, Dulcina de Moraes, Manuel Pêra, Fregolente,
Grande Otelo tinham grande humor, Fernanda Montenegro é uma
palhaça quando quer, Marília Pêra, Regina Casé,
Claudia Jimenez - o ator brasileiro lida com humor e, de repente,
não é nada disso que importa."
- Ela insiste
na mesma tecla com os amigos. Marieta tem sentido de missão.
"Sempre tive jeito com criança, queria ser normalista; no colégio
sempre chamavam a Marietinha para contar histórias." Que histórias
ela contava? "Sangrentas, eu sabia que agradava, lembro-me da cara
aterrorizada das crianças, fascinadas."
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- Sangue das
histórias - A carreira trocou de rumo quando o Instituto
de Educação mudou para a Lagoa, em frente do Tablado.
"Aí atravessei a rua e mudei a história." No fundo ela
sabe que quando contava histórias de terror para as crianças
já era atriz. "Adorava essa relação com a platéia,
a sensação de estar dominando as crianças, a
quantidade de sangue das histórias era proporcional a esse
poder." Esse domínio fica claro em A Dona da História.
- "Na época
de No Natal a Gente Vem te Buscar, peguei um álbum
da minha mãe que desmontei e remontei; fui recuperando minha
imagem, meu arsenal para entrar no palco." O arsenal foi construído
também com ajuda da psicanálise. "Durante uns 15 anos,
na nossa época a gente buscava as respostas dentro da gente,
estava muito interessada em mudar o mundo, a começar por nós
mesmos."
- Primeiro fez
análise com Carlos Byington, pai da cantora Olívia,
depois com Arnaldo Fraga Dias, que se matou no consultório,
na véspera da sua consulta. "Cheguei, toquei a campainha e
nada, então o dono da confecção ao lado me avisou;
saí de lá correndo, ninguém ia convidar-me para
o enterro", recorda ela. "Busquei refúgio na casa de Nara Leão,
psicóloga, minha comadre." Voltou para Byington até
que ele se mudou para São Paulo. "Então estourei: `Vocês
não são sérios, vocês morrem, se mudam,
para mim, chega.'" Nunca mais fez análise.
- Mas vai multiplicando
seus personagens fora do divã. Ela descende de uma linhagem
nobre da arte brasileira, aquela que nunca desiste, que passou a produzir
as próprias peças para ter certeza de que montaria o
que queria. Nunca descansa nem desliga - tomou quatro xícaras
de café durante a entrevista.
- Múltipla
assim, ela só podia germinar múltiplos à sua
volta. Madrinha de Francisco, filho de Nara; de Francisco, filho de
Andréa Beltrão; avó de Francisco e mulher de
Francisco Buarque por três décadas, Marieta suspira,
brincando: "Acho que exageraram: não é muito Chico para
uma vida só, não?"
O
Estado de São Paulo
Norma
Couri
Sábado,
28 de março de 1998.
Página
D-4.
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