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Peter
Brook abre as portas de seu universo teatral
O encenador
britânico registra, no livro `A Porta Aberta', suas idéias
e conceitos na dramaturgia
- Mariangela
Alves de Lima / Especial para O Estado de São Paulo
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- Desde que o
seu primeiro livro O Teatro e seu Espaço, publicado em 1968,
obteve repercussão mundial, o encenador inglês Peter
Brook vem redistribuindo periodicamente o conhecimento que extrai
da prática teatral. Na posição de idealizador
e orientador do Centro Internacional de Pesquisa Teatral - um organismo
com sede em Paris mas que tem atuação esporádica
nos cinco continentes - o trabalho de Brook inclui o compromisso de
difundir idéias e métodos úteis a outros núcleos
de produção teatral.
- A Porta Aberta,
título editado agora pela Civilização Brasileira,
é o registro dessa atuação pedagógica.
Sem pretensões ensaísticas, os três textos publicados
no volume são palestras ministradas em 1991, adaptadas para
o formato editorial. Sobrevivem na formalização textual
a clareza didática e o método indutivo dos colóquios
em que o autor descreve experiências pontuais, suas e alheias,
para extrair dos exemplos proposições gerais. (Em junho,
a Bertrand lançará sua autobiografia,`Threads of Time',
da qual você pode ler, abaixo, com exclusividade, um trecho).
- O estilo é
simples, os exemplos eloqüentes e as conclusões nos devolvem
invariavelmente à fenomenologia do teatro. Quando, há
três décadas, Brook colocava sob suspeita o edifício
teatral, o palco italiano e as relações de produção
impregnadas nesse formato, fazia a crítica histórica
de um modo de produção que considerava esgotado. Desde
então, tornaram-se comuns, em todo o mundo, experimentos com
o espaço cênico e com formas diferentes de hierarquizar
a produção da obra.
- Embora permaneça
fiel à sua recusa do palco autoritário e da platéia
passiva, os escritos mais recentes tratam de um elenco de problemas
derivados das buscas por outras formas de comunicação.
O adversário mais temível do teatro não é
mais o pesado reposteiro herdado do século 18, mas a pequena
ruptura na rede da comunicação, por onde escapam as
motivações de uma obra.
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- Vazio metafórico
- No primeiro texto, denominado As Artimanhas do Tédio,
o espaço vazio onde não há vigência das
convenções da cena burguesa e da mercadoria, pode ser
qualquer lugar, desde um edifício teatral até uma praça
no centro de uma remota aldeia africana. Pode ter cenário e
iluminação, uma vez que o seu caráter inaugural
depende do grau de concentração do que nele se representa.
Nesse vazio metafórico, a qualidade da comunicação,
onde se inclui também a especificidade do público, é
mais importante do que todos os elementos materiais de construção
do espetáculo. Dessa forma, a encenação de uma
história sagrada destinada a uma platéia de fiéis
não terá o mesmo significado quando transportada para
outro circuito de exibição.
- Não será
suficiente, para quem quiser revitalizar a cena, o retorno à
utopia da origem sagrada do teatro. Cada nova criação
propõe, antes de mais nada, o tríplice desafio da comunicação
do artista consigo mesmo, com os seus companheiros de trabalho e com
uma platéia desconhecida que só é possível
auscultar permanecedo atento aos delicados sinais de atenção
ou aborrecimento. Brook discorre sobre várias práticas
contemporâneas em que um desses termos essenciais da comunicação
se apresenta imperfeitamente formulado, sinalizando riscos muito úteis
para os aprendizes da arte do teatro.
- Práticas
correntes nos métodos de ensino, como a sensibilização
corporal e o estímulo à abordagens intuitivas de peças
tearais são, do seu ponto de vista, indispensáveis para
que possa luzir a "centelha de vida" essencial à comunicação
artística. Talvez porque se tenham tornado demasiado comuns
no contexto culturalista do teatro europeu Brook adverte sobre a insuficiência
desses procedimentos se não forem seguidos pelo preparo técnico
e pela disciplina profissional: "É preciso fazer a preparação
para jogá-la fora, construir para poder demolir".
- Procedimentos
inventados para liberar a intuição e aguçar a
sensibilidade do intérprete resultam em uma abundante matéria
energética à qual é preciso imprimir uma forma
adequada ao tempo, ao espaço e à necessidade vital do
público. O resultado não será, assim, a oferenda
sacrificial do artista, mas uma saudável mistura entre a pureza
de um desígnio interior e a impureza do cotidiano, uma vez
que seria "inviável a existência de um teatro idealista,
que teima em permanecer à margem da rude textura deste mundo".
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- Mote japonês
- Não é irrelevante o fato de que o segundo texto,
O Peixe Dourado, tenha sido endereçado originalmente a uma
platéia japonesa. A forte a tradição no teatro
japonês é um mote para tratar de um problema comum à
toda arte contemporânea. Para o bem ou para o mal, o etnocentrismo
é afiado nas propostas de todos os cantos do planeta. Escaldado
pelo contato com grupos que refugiaram-se no tradicionalismo, o diretor
inglês reitera que a qualidade essencial do teatro é
a sua vigência no instante.
- Para uma arte
cuja apreensão se dá no presente, a transição
das formas é mais do que um corolário filosófico;
é condição de sobrevivência. Embora respeitáveis,
os legados artísticos precisam ser submetidos à crítica
contemporânea para que se verifique se subsiste neles a capacidade
de expressar a "superfície mutável da vida". A discussão
é, sem dúvida, oportuna diante das freqüentes tentações
de recaída no nacionalismo ou no culturalismo. E quem não
as terá, hoje em dia, ao defrontar-se com a espantosa feiúra
de um ícone de computador?
- Quase íntimo,
o terceiro texto do livro relata o processo de criação
de um dos espetáculos produzidos pelo Centro Internacional
de Pesquisa Teatral. Descrita pelo diretor, a invenção
do espetáculo assemelha-se a um mito cósmico. A quem
dirige o espetáculo compete, neste caso, ter um "pressentimento
da forma".
- Há um
grupo inventando algo que parece nascer de pequenos e continuados
impulsos e que só existirá com a participação
igual de todos os envolvidos. Cristalino ao descrever um amálgama
de acasos criativos, o texto denomina-se Não Há Segredos.
Exceto o segredo oculto no germinar da semente.
O
Estado de São Paulo
Mariangela
Alves de Lima
Domingo,
2 de maio de 1999.
Página
D-8.
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