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Para
o inglês, transformação nasce da superação
do medo
Na opinião
do dramaturgo Sérgio de Carvalho, Brook é mestre do
jogo do visível e invisível
- Sérgio
de Carvalho / Especial para O Estado de São Paulo
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- Assisti a um
único espetáculo de Peter Brook, alguns anos atrás,
no Bouffes du Nord, pequeno teatro de paredes vermelhas gastas, lindo
porque mantido com as interferências do tempo, localizado numa
esquina da Paris mais popular, bairro de imigrantes indianos e islâmicos,
onde se chega após andar-se numa avenida sobre as linhas férreas
e ver os trens da Gare du Nord.
- Outros diretores
preferiram recolher-se em recantos arborizados, nos parques de subúrbios,
ou em cidades tranqüilas. Peter Brook, ao contrário, escolheu
um teatro antigo enfiado num canto sujo e populoso da cidade.
- Sobre o tablado
do Bouffes du Nord, vi pela primeira vez a concretização
da idéia de seu livro, a experiência da transformação
do "espaço vazio". Sem cenografia, adereços mínimos
e figurinos neutros, mundos inesperados e contraditórios surgem
compostos apenas por ações, gestos, sons e ritmos.
- O que não
se mostra é sugerido, o que não se vê é
imaginado. O espectador é colaborador ativo do que aparece
e desaparece no palco. Do ponto de vista do artesanato teatral, daquilo
que constitui o conhecimento mais sutil como ofício, Peter
Brook é um mestre deste jogo entre visibilidade e invisibilidade.
- Da obra de Shakespeare,
compreendeu seus movimentos internos. O que Brecht chamou de "matéria
absoluta" e Brook entende como "a impureza", única pureza possível
do teatro. Feita da sujeira e do tumulto das relações
entre os homens da cidade. O teatro das representações
simples e dos sentidos complexos. Da tensão entre realidade
e ficção. Um ator aponta o dedo para o alto e enxergamos
a seu redor amplos espaços e descontínuos tempos da
história.
- No Bouffes du
Nord assisti a Quem Está aí ?, um de seus trabalhos
mais pessoais. Reflexão cênica sobre a representação
de Hamlet, releitura que Peter Brook fazia da visão dos artistas
que o influenciaram. Uma súmula do seu aprendizado como diretor.
Montagem tão simples, direta e aberta que dava a muitos a impressão
de que não havia peça, tamanha a solicitação
imaginária ao espectador. Lembro de uma crítica cretina
do Mauro Rasi em O Globo, dizendo que se tratava de um ensaio mal
feito.
- Para quem só
concebe os padrões narrativos da indústria cultural,
para quem não se dispõe como sujeito livre produtivo
diante de uma obra, a teatralidade anti-ilusionista de um teatro como
aquele deve ser uma experiência incômoda.
- Formado na dialética
à maneira do Oriente, menos conceitual do que imaginativo,
o teatro de Peter Brook foi aprendendo a reverter a negatividade do
vazio em potência ativadora da cena. Tem algo do Lao-Tsé
que encantou Brecht, algo dos degraus da "existência pelo nada"
de Zeami, e também do realismo das ações transversas
de Stanislavski.
- Em suas viagens
à Àfrica nos anos 70, em que os atores de seu grupo
estendiam um tapete em praça pública e improvisavam
a partir de pequenas situações que desencadeavam outras,
ele ouviu de um mestre de cerimônias rituais que toda a força
de um dançarino provém de sua capacidade de simplesmente
olhar à frente e manter os olhos abertos.
- Toda ação
transformadora, nos diz o teatro de Peter Brook, é um superação
do medo do vazio.
O
Estado de São Paulo
Sérgio
de Carvalho
Domingo,
2 de maio de 1999.
Página
D-8.
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