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`THREADS
OF TIME'
- Peter Brook
/ Especial para O Estado de São Paulo
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- Mesmo antes
de encontrar Wakhevitch e Dalí, eu aproveitava todas as oportunidades
para viajar. A Europa que conheci quando criança era um ancoradouro
escuro, uma longa silhueta negra de armazéns e, quando o barco
a vapor do canal foi levado a Calais, ele ainda revelou um continente
que remoía a escuridão do pós-guerra.
- Freqüentemente
encontrava desculpas para visitar Paris: o odor forte dos Gauloises
era estranhamente excitante e tudo, do metrô aos cafés,
tinha um brilho sexual especial. E se Paris era os filmes de Carné
e as fotografias de Brassaí, quando fui a Madri, descobri como
as ruas pertenciam à Idade Média, enquanto os jardins
botânicos eram nostalgicamente proustianos, enevoados como uma
antiga fotografia, com babás a empurrar carrinhos de bebês
ao longo das cercas enferrujadas enquanto soldados em uniformes desbotados
passeavam de mãos dadas.
- A Rússia
do século 19 parecia ter sido transportada para os grandes
latifúndios espanhóis, onde ricos graciosamente desesperados
e elegantemente trágicos aliviavam o seu tédio em noites
exaltadas com ciganos. Em Barcelona, encontrei meu mundo de suspense
e me mudei para um hotel vagabundo chamado Hotel do Oriente, só
p ara e escrever a amigos com esse nome no papel timbrado.
- Em Lisboa minhas
apresentações foram as pessoas de teatro, mas o fascínio
da cidade foi a descoberta de ruas inteiras de casas de prostituição
- algo sem equivalentes em Oxford, Brismingham e Stratford-upon-Avon.
- Fiquei encalhado
por um tempo no Tânger e foi aí que tive minha primeira
experiência do Oriente, de calor e de poeira, de enxames de
crianças em ruas estreitas, de homens sombrios que se aproximavam
de mim nos cafés para pedir se eu poderia ajudar-lhes a importar
anticoncepcionais ou arame farpado, enquanto a minha preocupação
imediata era comprar azeite de oliva, para minha mãe, de velhas
senhoras sentadas no chão, com grandes jarras ilegais escondidas
sob as volumosas saias negras. A princípio, Salvador Dalí
me pareceu um bom pretexto para visitar a Espanha, mas de fato foi
de volta a Paris que nos encontramos pela primeira vez. Em uma elegante
sala de estar em Neuilly, na companhia de um condessa amiga sua, ouvimos
juntos um pianista tocar e cantar a seu modo as partituras de Salomé.
- O que me deu
importância aos seus olhos foi que eu representava o Convent
Garden - ele era muito suscetível ao prestígio. Convidou-me
para ficar com ele em sua casa em Cadaquès e .Durante o almoço,
conversamos sobre o filme que ele queria dirigir. É uma convenção
ridícula no cinema, disse ele, que a câmera sempre esteja
presente nos momentos dramáticos da história. Isso não
está de acordo com a vida; ele queria dar um fim à convenção
de se colocar a câmera no centro da ação. Ao invés
disso, o espectador assistiria a um quadro banal e sem sentido - a
câmera talvez focalizada em um pedaço de parede - e ocasionalmente
um ombro ou um pedaço de nariz, sobressairia momentaneamente
na tela, sugerindo, com paixão, eventos emocionantes justamente
fora de nosso alcance.
O
Estado de São Paulo
Peter
Brook
Domingo,
2 de maio de 1999.
Página
D-8.
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