Livro reúne ensaio e peças de Luigi Pirandello

Publicação joga nova luz sobre a relação entre o pensamento e a obra do dramaturgo italiano

Beth Néspoli / O Estado de São Paulo

Quem tem a sorte de nascer personagem viva pode rir até da morte. Não morre mais! Morrerá o homem, o escritor, instrumento da criação; a criatura não morre jamais! Se o dramaturgo italiano Luigi Pirandello (1867-1936), autor dessas falas de um dos personagens da peça Seis Personagens à Procura de um Autor, pudesse reviver, como suas criaturas, no corpo dos atores, certamente protestaria contra o destino dado à sua urna funerária.

Esta semana foi descoberta uma urna contendo as cinzas do dramaturgo, imediatamente exposta no Museu Arqueólogico de Agrigento, na Sicília, terra natal de Pirandello. Segundo Giuseppe Castellana, o diretor da instituição, a urna estava em poder do museu desde 1973, ano em que foi desenterrada do jardim da casa do escritor, supostamente vazia. Mas com a ajuda de outros experts "descobriram-se" cinzas e ossos carbonizados no fundo da urna, agora expostos no museu que dirige. Ele informou ainda que, em breve, a "urna com as cinzas" será transportada para a antiga casa do escritor, que vem sendo reformada para abrigar o Museu Pirandello, onde também ficarão expostos objetos pessoais do escritor.

Fama - Ocorre que ser petrificado pela fama era o que mais temia o dramaturgo, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1934 "por sua audaz e brilhante renovação da arte cênica e dramática", como observa Francisco Maciel da Silveira no artigo Pirandello, Sou Aquele por Quem me Tomam, publicado no livro Pirandello: do Teatro no Teatro, que acaba de ser lançado pela editora Perspectiva, uma publicação fundamental para o entendimento da obra, da personalidade e do pensamento pirandellianos.

Silveira escreve que Pirandello deixou ordens expressas para que sua morte passasse em silêncio, seu corpo fosse cremado e as cinzas espalhadas em Chaos, aldeia de Agrigento, onde nasceu em 28 de junho de 1936. Em seu artigo, ele faz referência à peça Quando se É Alguém escrita por Pirandello em 1933, uma sátira à fama, na qual um escritor célebre, ao completar 50 anos, enquanto profere um discurso comemorativo, vai se transformando em estátua. "A moral da peça é a que se repete por sua obra: ninguém pode ser livremente o que deseja ser."

Organizado pelo editor e ensaísta J. Guinsburg, o volume reúne, além do artigo de Silveira, o ensaio Uma Operação Tragicômica do Dramático: O Humorismo, de Guinsburg, Princípios Estéticos Desentranhados das Peças de Pirandello sobre Teatro, do crítico Sábato Magaldi, e outro importante e alentado ensaio intitulado O Humorismo, escrito por Pirandello em 1908, espécie de alicerce teórico de sua dramaturgia.

Completa o volume a trilogia do "teatro dentro do teatro", formada pelas peças Seis Personagens à Procura de um Autor, Esta Noite se Representa de Improviso e Cada Um a Seu Modo, traduzidas por Guinsburg em parceria com Roberta Barni, Sérgio Coelho e Pérola de Carvalho. Foi numa conversa com Magaldi que Guinsburg decidiu reunir os ensaios e as três peças num só volume. "Efetivamente, devo ao Sábato ter despertado minha atenção para o fato de que esse ensaio de Pirandello embute todo o pensamento crítico que sustenta suas peças sobre o caráter da representação", disse Guinsburg em entrevista ao Estado.

O resultado é uma publicação de leitura obrigatória para todos os envolvidos com a atividade teatral. "O livro não esgota a reflexão sobre a obra de Pirandello, mas certamente contribui para melhor compreendê-la." Em seu ensaio, depois de destacar trechos do texto teórico O Humorismo, de Pirandello, que parecem falas de seus personagens, Sábato conclui: "Ao enfrentar o problema da estética teatral, na dramaturgia, (Pirandello) já havia elaborado um sistema, de que as peças são uma resultante."

Guinsburg faz questão de ressaltar a sólida formação de Pirandello, que estudou filosofia na Alemanha. Segundo ele, a problemática da época, a década de 20, a passagem de um pensamento que trabalhava com características fixas para outro sistema que trabalhava sobre a mobilidade, não tinha meios de ser traduzida dramaticamente.

Inovação - "Fiz uma referência a Chekhov no meu ensaio porque ele e Pirandello foram os dois grandes revolucionários da dramaturgia", afirmou Guinsburg. "Eles criaram instrumentos para pôr no palco a noção do grotesco, categoria fundamental do teatro moderno, que surge da justaposição de dois elementos que não têm organicidade, o trágico e o cômico." Segundo o ensaísta, na base das soluções dramáticas encontradas por ambos se construiu tudo o que veio depois no teatro.

A tradução das peças foi feita diretamente do italiano e o ensaísta procurou ser fiel a linguagem do autor. "Como não se tratava de uma tradução para o palco, não procurei substituir termos mais sofiscados, ou seja, não troquei uma de mil por duas de 500."

Bom seria se essa excelente publicação estimulasse uma onda de montagens de peças de Pirandello no Brasil, como ocorreu recentemente com Chekhov. Afinal, essa é a forma pela qual o dramaturgo gostaria de ser eternizado, no palco, por meio de sua obra - jamais imobilizado num museu.

O Estado de São Paulo

Beth Néspoli

Sábado, 18 de setembro de 1999.

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