A Ética da Mímese
Mariangela Alves de Lima / Especial para O Estado de São Paulo

Ao fim e ao cabo, só os atores são honestos. Todos nós, por alguma razão, mentimos "não por dever ou por profissão, sobre um palco, mas na vida". A idéia de que a arte é mais verdadeira do que a vida porque proclama o fingimento reaparece com freqüência na dramaturgia de Luigi Pirandello (1867-1936). Como distinguir, na vida real, o fato da interpretação, o que somos hoje do que fomos ontem, a moral privada da moral pública? Pelo menos na racionalidade da forma artística, buscada e refletida com empenho, há a possibilidade da permanência e da clareza. Uma vez que a vida nos arrasta como um turbilhão resta à imaginação humana - afirma uma de suas personagens - aperfeiçoar o trabalho da natureza.

Não é apenas com essa idéia, mas também com o seu contrafluxo, que se tece a dramaturgia desse impressionante e influente escritor. A tese, como observa Sábato Magaldi no estudo introdutório de Vestir os Nus, contribui por vezes para obscurecer os valores dramáticos das peças. Antes de levar ao raciocínio, a dramaturgia de Pirandello alicerça-se nessa matéria fluida, inesgotável e fugidia da experiência. Ou seja, exatamente naquilo que o raciocínio não pode conter ou solucionar e é, por sua naturreza indomável, fonte de angústia ou de satisfação.

É assim por meio das personagens e de situações engenhosas, recursos dramáticos por excelência, que as peças instauram um vertiginoso movimento de desacomodação e só a partir disso conduzem ao terreno mais abastrato e pontual da reflexão. Ora cômico ora trágico, o desejo de manter uma aparência é constantemente desafiado por circunstâncias e peripécias impregnadas de emoções e desejos. Esse foi também o procedimento dos "boulevardiers". A diferença talvez resida no fato de que, enquanto no drama realista o desejo de manter a aparência se justifica pelo decoro social, no drama pirandelliano há também o componente trágico de aspirar à totalidade. "Eu, não uma coisa, mas todas as coisas conforme elas me quiseram... ao léu, ao acaso... sem poder consistir num ponto, nunca!" diz uma das suas personagens.

Tendo nascido em Agrigento, sob o alto contraste da paisagem meridional, Pirandello trouxe para o romance e para o teatro uma galeria de personagens obsecadas pela honra e pela virtude. Na sua primeira peça publicada em 1898, há o desvelamento de um adultério e a morte da "pecadora" incapaz de viver publicamente o que vive como experiência privada. Ainda que próxima do dramalhão, a primeira experiência se detém na dívida do amante procurando interpretar, no comportamento do marido, os sinais do conhecimento.

Se a veracidade é, para Pirandello, um problema fisolófico hegemônico, o teatro metaforiza essa questão como nenhum outro meio de expressão poderia fazê-lo. Foram, aliás, as peças em que a representação é explícita que lhe asseguraram uma repercussão internacional: Seis Personagens à Procura de um Autor, Esta Noite se Improvisa e Henrique IV. Nelas estão prefiguradas questões que se tornariam centrais para a arte contemporânea, sobretudo na segunda metade do século. Não é a imitação da realidade que se discute, mas os procedimentos e a validade ética da mímese. E no entanto a discussão permanece introjetada no drama, a procura da verdade é uma aventura digna dos tributos comezinhos de algumas lágrimas ou risadas. Por sorte Pirandello não cruzou aquela fronteira em que os artistas nos oferecem uma explicação e, porque duvidam de tudo, renunciam ao fingimento da obra.

 

O Estado de São Paulo

Mariangela Alves de Lima

Sábado, 18 de setembro de 1999.

Página D-7.