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TBC
- Teatro Brasileiro de Comédia revê os seus 50 anos
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Para
o crítico Décio de Almeida Prado, antes do TBC havia
a instabilidade e após, a segurança.
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Décio de Almeida Prado / Especial para o O Estado de São
Paulo
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- Colaborando
neste jornal, na qualidade de crítico de teatro que não
assinava a sua matéria, publiquei há cerca de 50 anos,
em 5 de outubro de 1948, uma nota intitulada Teatro Brasileiro de
Comédia, na qual saudava o surgimento da nova sala de espetáculo.
Entre outras coisas, escrevi o seguinte:
- "É provável
que mais tarde tenham que dividir a história do teatro amador
em São Paulo em dois períodos: antes e depois do Teatro
Brasileiro de Comédia. Antes, a instabilidade, as experiências,
os primeiros passos tímidos. Depois, a estabilidade, o esforço
continuado e ininterrupto, as realizações seguras de
si mesmas. A inauguração do próximo dia 11 encerra,
pois, uma fase de evolução do teatro paulista, abrindo
outra, extremamente promissora. Ao lado da fundação
recente da Escola de Arte Dramática, que, por coincidência,
funciona no mesmo prédio, marca uma renovação
quase total dos nossos hábitos teatrais."
- Eu, na verdade,
não estava fazendo mais do que apelar para os bons augúrios
que se costumam invocar em momentos como esse, nos quais se aposta
tudo contra o futuro. De qualquer forma, fico satisfeito com a minha
predição - não é todo dia que as nossas
vãs profecias se cumprem. Para dizer toda a verdade, se bem
a recordo, eu me encontrava então meio dividido, entre a descrença
perante o milagre - "too good to be true", dizem os ingleses - e a
alegria de ter encontrado, pela primeira vez desde que ingressara
no amadorismo teatral, em 1943, uma pessoa disposta a realizar algo
de imediato e concreto a nosso favor. Lamento só, com 50 anos
de atraso, que as minhas palavras otimistas não tenham sido
ainda mais ousadas. Não foi o teatro paulista, e sim o nacional
em sua totalidade, que o TBC - sigla logo estabelecida - cindiu em
dois períodos históricos bem distintos. E não
significou ele o ápice do amadorismo, como acreditávamos,
mas, pelo contrário, o início do teatro profissional
em São Paulo. Dos três grupos amadores locais herdou
o Teatro Brasileiro de Comédia intérpretes da estirpe
de Cacilda Becker e Paulo Autran. E do amadorismo carioca não
tardou a receber Sérgio Cardoso (do Teatro do Estudante), bem
como Ziembinski (de Os Comediantes), o primeiro de uma longa lista
de encenadores europeus a vir atuar no Brasil. Durante dez anos, de
1948 a 1958 (quando apareceu, em linha diversa, Eles não Usam
Black-Tie, de Gianfrancesco Guarnieri, encenada pelo Teatro de Arena),
o TBC, sob a direção empresarial de Franco Zampari,
reinou absoluto. Alguém, se não me engano Benedito Corsi,
inventou que de noite, antes de dormir, os jovens atores nacionais
rezavam baixinho - "Que Deus nos Zampari". E ele amparou, durante
todo esse tempo, mais de meia dúzia de encenadores importados,
entre italianos (a grande maioria), poloneses e belgas, além
de inúmeros cenógrafos e várias dezenas de atores
e atrizes famosos, desde Cacilda Becker até Fernanda Montenegro.
- O Teatro Brasileiro
de Comédia, sem o saber ou sabendo-o apenas pela metade, introduziu
no Brasil duas práticas teatrais modernas. Uma destas foi o
surgimento daquilo que na Inglaterra e nos Estados Unidos se chamou
de "little theaters". O edifício teatral do século 19
era imponente, de acordo com o papel que desempenhava na sociedade,
ao juntar arte e diversão popular. O prédio, rodeado
se possível por espaços livres, escalonava-se em mais
de um andar, ascendendo da platéia à galeria. A diferença
do preço da entrada, diminuindo este à medida que o
espectador se afastava do palco, facultava que mesmo bolsos relativamente
modestos pudessem freqüentá-lo.
- Com o crescimento
do cinema essa situação se modificou. Para dar um exemplo
paulista: a maioria dos cine-teatros construídos nos primeiros
decênios deste século, com o propósito declarado
de servir as duas partes, alternando-as, acabou por ignorar o palco,
em favor da tela, pelo bom motivo que se revelara impossível
para atores nacionais competir em pé de igualdade, econômica
e artística, com os grandes astros de Hollywood. A saída
para tal impasse, na Europa e na América do Norte, se constituiu
na edificação de salas menores, mais baratas enquanto
construção e manutenção, sustentadas às
vezes por elementos locais. O teatro restringia-se para sobreviver,
valendo-se da única vantagem que detinha sobre o cinema: o
contato humano, face a face, sem a interveniência da máquina,
que fixa a imagem, impedindo que público e atores reajam entre
si.
- Na Itália,
os "piccolos teatros", emergidos após a 2ª Grande Guerra,
como o de Milão, fundado em 1947, com a colaboração
de Gianni Ratto, e o de Genova, de 1950 - cinto-os porque ambos estiveram
em São Paulo -, adicionavam ao tamanho, menor em relação
aos antigos edifícios teatrais, outra característica
nova: destinavam-se a conjuntos estáveis, organizados em torno
da figura do encenador, em oposição às companhias
itinerantes, comandadas artisticamente pelos chamados primeiros atores,
até então vigentes.
- O Teatro Brasileiro
de Comédia nasce pequeno - pouco mais de 350 lugares - e torna-se
logo estável, com a chegada de Adolfo Celi, formado pela Academia
de Arte Dramática de Roma. Encontrara-se a fórmula que
prevaleceria por muitos anos, em empresas como o Teatro de Arena,
o Teatro Maria Della Costa e o Oficina: sede própria, elenco
estável, presença dominante do encenador. Todas elas
eram integradas por atores jovens, que amadureceriam lado a lado,
em contato contínuo com o público, até a companhia
adquirir, nos melhores casos, um estilo e uma personalidade inconfundíveis.
- Há pessoas
que, ao contrário do público, não perdoaram ou
não perdoam o italianismo do TBC. De fato, além de Franco
Zampari e Adolfo Celi, passaram por ele os encenadores Ruggero Jacobbi,
Luciano Salce, Flamino Bollini, Alberto D'Aversa e Gianni Ratto (sem
esquecer o polonês Ziembinski e o belga Maurice Vaneau), os
cenógrafos Aldo Calvo, Tulio Costa e Bassano Vaccarini. Tudo
isso é verdade. Mas, para raciocinar em outro plano, seríamos
capazes de imaginar a fisionomia de São Paulo sem a contribuição
dada pelos italianos, sucessivamente na agricultura, na indústria
e nas artes? Desqualificaríamos também brasileiros de
primeira ou segunda geração, como Portinari, Volpi,
Pancetti, Camargo Guarnieri? Em que categoria colocaríamos
Brecheret e Gianfrancesco Guarnieri, nascidos na Itália, de
pais italianos? Onde, exatamente, começa o Brasil? Há
brasileiros mais brasileiros do que outros? Ou todos que moram e trabalham
aqui merecem esse título, certamente não racial?
- Pessoalmente,
prefiro relacionar o Teatro Brasileiro de Comédia com o crescimento
de São Paulo. A cidade, explodindo em número de habitantes,
quebrava a sua velha carapaça quatrocentona, internacionalizando-se.
Seria o TBC, nesse caso, o correspondente, na arte dramática,
à criação da Faculdade de Filosofia, com o seu
cortejo de professores franceses, alemães e italianos, e à
inauguração da primeira Bienal, paulista quanto à
sede mas internacional em seus objetivos. Deve-se esta iniciativa,
aliás, a Cicillo Matarazzo, amigo de Franco Zampari e dono
da metalúrgica em que ele ocupava lugar importante. Talvez
o desfecho da 2ª Guerra Mundial, na qual a Itália, por
culpa do fascismo, tivera papel pequeno e feio, haja contribuído
para que os dois voltassem as suas vistas para o Brasil. Zampari,
com o seu olhar de empresário bem-sucedido, teria compreendido,
antes dos outros, dois fatos fundamentais. Havia uma geração
inteira de atores amadores artisticamente para passar ao profissionalismo,
elevando-lhe o nível, e, além disso, a cidade de São
Paulo, pelo tamanho, já comportava uma companhia permanente,
que funcionasse sem interrupções. Pelo menos foi isso
que o TBC realizou, deslocando, pela primeira vez, o centro teatral
do Rio de Janeiro para São Paulo.
- Se eu, que estive
presente nesse início do teatro paulista, quer na qualidade
de amador, quer na de crítico, tivesse de destacar apenas uma
pessoa, como representante e símbolo dessa época, o
nome escolhido seria certamente o de Franco Zampari. Talvez a escolha
cause surpresa, porque estamos acostumados a dar preferência,
em teatro, aos que habitam o palco, não os que ficam fora dele.
Mas a verdadeira história do teatro, que é arte e comércio,
não se faz corretamente sem se reportar aos bastidores. Os
heróis de Os Comediantes são Nélson Rodrigues
e Ziembinski, mas, também, entre outros, Brutus Pedreira. Não
entenderemos a carreira de Dulcina sem Odilon Azevedo e a de Maria
Della Costa sem Sandro Polloni.
- No Teatro Brasileiro
de Comédia a primeira cabeça pensante e atuante sempre
foi a de Zampari, a única que permaneceu durante os dez primeiros
anos. Eu dirigia um dos grupos amadores - o Grupo Universitário
de Teatro - que deu início ao TBC. Mas sei que jamais passaria
ao profissionalismo, como Alfredo Mesquita, do Grupo de Teatro Experimental,
igualmente nunca passou, porque não tínhamos, para tanto,
nem capital nem capacidade administrativa. Franco Zampari surgiu de
repente como do nada, um demiurgo que não só amava o
teatro tanto quanto nós, como tinha a experiência empresarial
e até artesanal que nos faltava. Em dois meses, aproximadamente,
transformou o andar de um prédio comum em teatro. Aos que não
acreditavam em tal feito, sobretudo em tempo tão escasso, ele
respondia: esse é o meu método de trabalho, marco a
data de entrega e faço que ela se torne realidade. E assim
foi. Na noite da estréia, aguardamos ainda uns dez minutos,
ouvindo os últimos pregos sendo batidos. Mas estava tudo cômodo
e elegante. Zampari preencheu rapidamente o quadro artístico
- encenador, cenógrafo, elenco (Cacilda, a primeira contratada)
- e criou o complemento técnico, formado por maquinistas, pintores,
costureiros, encarregados de acessórios, etc. O prédio
foi posto, todo ele, a serviço do teatro, com exceção
de um andar, reservado, graciosamente, para a Escola de Arte Dramática.
- Já que
estou com a mão na massa, vou adiante e retorno duas divergências
que tenho com Alberto Guzik, a propósito de seu TBC: Crônica
de um Sonho, livro quanto ao mais de excelente qualidade, pelo pensamento
e pela vivacidade da escrita. São coisas pequenas, mas que
me ficaram na consciência por todos esses anos - a publicação
é de 1986 -, por representarem para mim injustiças feitas
a Franco Zampari, por via direta ou indireta.
- A primeira seria
insignificante, se não denunciasse certo preconceito. Guzik
comenta a montagem de Divórcio para Três, comédia
do velho Victorien Sardou, tragediógrafo de Sarah Bernhardt.
Escreve ele: "Mais uma vez é difícil apreender os fatores
determinantes da seleção de textos que integram o repertório
do teatro." Para quem acompanhou os acontecimentos a explicação
é simples. Ziembinski, que começara no teatro polonês
como galã, falava com freqüência na necessidade
para o TBC de ter em seu elenco um "galã maduro". As pessoas
sorriam, porque adivinhavam a quem ele se estava referindo. Esse é
o sentido de Divórcio para Três, espetáculo dirigido
e interpretado por Ziembinski, tendo como antagonista amorosa Cacilda
Becker. E a verdade é que a peça, com dois comediantes
finos, funcionou muito bem, apesar do renegado Sardou, para quem Bernard
Shaw, como Guzik cita, cunhou a palavra "sardoodledom". A conclusão
é que o comercialismo do repertório não vem sempre
do empresário, como parecem sugerir nas entrelinhas as palavras
de Guzik. Atores, cenógrafos, autores, encenadores todos revelam
algum interesse não só pelo sucesso pessoal como até
mesmo pela bilheteria, que lhes garante ou lhes nega o sustento do
dia seguinte. Os puristas, personalidades de exceção,
aos quais dá nojo o lado tão intensamente material do
palco, com as suas sessões repetidas à exaustão,
terminam muitas vezes por abandonar o teatro, para sempre ou para
longos períodos de afastamento, como mostram as trajetórias
de Eleonora Duse, Jacques Copeau e Gordon Craig. Em compensação,
Shakespeare e Molière deram-se bem no palco.
- A segunda divergência
é séria. Desejo menos anular o ponto de vista de Alberto
Guzik, do que afirmar o meu, para que as suas palavras não
passem em julgado. Em seu livro ele diz que A Ronda dos Malandros
foi retirada de cena "por motivos ideológicos", tendo como
conseqüência a saída de Ruggero Jacobbi do TBC.
Não foi exatamente o que presenciei na ocasião. Eis
o que escrevi em minha coluna crítica, após a estréia
e antes do incidente: "Durante toda a representação,
jamais nos deixou aquela sensação incômoda de
que a peça não se comunicava, não atravessava
a ribalta, de que faltava alguma coisa capaz de fundir aqueles elementos
todos, às vezes interessantes, num todo homogêneo. O
público permanecia à margem dos acontecimentos, sem
lhes apreender a razão de ser, a significação.
Que queria dizer ao certo aquela sarabanda propositadamente grotesca?"
- Ruggero Jacobbi
fizera uma aposta cujo alcance até hoje não consigo
entender. A Ronda dos Malandros tomava como ponto de partida A Ópera
dos Mendigos, de John Gay, e A Ópera dos Três Vinténs,
de Bertolt Brecht. Mas pretendia ser uma terceira versão, um
tanto independente das duas anteriores, ambas célebres. Não
assumiu, no entanto, a paternidade - se é que foi ele o autor
do texto -, atribuindo-a a Carla Civelli, sua mulher, e Maurício
Barroso, ator do TBC, pessoas inteligentes e conhecedoras do teatro,
mas que não eram então e não se tornaram depois
dramaturgos ou comediógrafos. Comentei em minha crítica:
"Quem é o autor de A Ronda dos Malandros? John Gay? Bertolt
Brecht? Carla Civelli e Maurício Barroso? É impossível
responder e, nesta confusão de autores, está escrito
o destino da peça."
- Admitamos, por
hipótese, que desse certo aquilo que sempre me pareceu uma
aventura. Ainda assim o espetáculo, pelo lado cênico,
não se sustentaria. Comentou-se no TBC que, embora a data da
estréia estivesse marcada, como de hábito, Ruggero Jacobbi
contava com mais uma semana de ensaios uma vez que a peça em
cartaz não ia mal. Franco Zampari, percebendo talvez o corpo
mole do encenador, cumpriu o prazo dado. E o espetáculo veio
à cena bastante cru, sem a edição final, que
porventura lhe daria forma literária e teatral. Ora, no TBC
permitia-se muita coisa, menos falta de zelo no trabalho e de perfeição
no acabamento. Se houve, portanto, "motivos ideológicos", não
foram os únicos nem os preponderantes. Digamos, com algum eufemismo,
que o ritmo de trabalho do encenador não batia com o do diretor
da companhia.
- Quando Franco
Zampari entregou o Teatro Brasileiro de Comédia à Comissão
Estadual de Teatro, ao fim de seus dez anos pioneiros, só havia
acertado, para a estréia seguinte, um texto nacional, O Pagador
de Promessas, de Dias Gomes, sob a direção de um encenador
também nacional, Flavio Rangel, fato este inédito no
TBC. Fernando Peixoto, amigo e de certa forma discípulo intelectual
de Ruggero Jacobbi, contou recentemente, em artigo publicado na pequena
e inteligente revista Vintém qual foi a reação
do encenador italiano perante a notícia: "Zampari está
certo. Chegou o momento de entregar o processo cultural, que é
também o processo social, aos brasileiros. Foi para isso que
eu sempre ensinei e lutei. A bola está com vocês. É
hora de voltar à Itália."
- Findara a era
italiana do teatro paulista, ficando-nos só o mais brasileiro
desses encenadores todos: Gianni Ratto.
O
Estado de São Paulo
Décio
de Almeida Prado
Caderno2
Sábado,
10 de outubro de 1998
Página
D-7.
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