Twyla Tharp - Forjou um estilo pessoal nas fontes da formação eclética

Ela surgiu nos anos 60, no auge do experimentalismo nova-iorquino
Helena Katz / O Estado de São Paulo

Ela começou no auge do experimentalismo nova-iorquino dos anos 60, apresentando espetáculos no Central Park, e acabou comemorando o 15º aniversário da sua companhia, em 1980, na Broadway. Twyla Tharp tornou-se a mais pop dentre todos os criadores de dança da sua geração, tendo tido enorme sucesso também no cinema (Hair, em 1978, Ragtime, em 1980, e Amadeus, em 1984, de Milos Forman; White Nights, de Taylor Hackford; e I'll Do Anything, em 1994, de James Brooks) e na TV (Sue's Leg, que inaugurou a série Dance in America da PBS; Making Television Dance, o vencedor de 1980 do Festival de Chicago; The Catherine Wheel, para a BBC; Baryshnikov by Tharp, que ganhou dois Emmys; Confessions of a Corner Maker, produzido pela CBS Cable, 1981).

Entre os pós-modernos, foi a primeira a tentar fazer do balé clássico uma fonte de vocabulário. Numa entrevista a W. McNeil Lowry, na revista New Yorker, Lincoln Kirstein, o homem responsável por Balanchine haver dado forma ao balé norte-americano, dizia que a dança moderna era narcísea, sem continuidade e que o balé clássico tinha habilidade para absorver "variações bastardas, mutações, conversões, perversões" e, mesmo assim, ainda perpertuar a si mesmo, enquanto a dança moderna não conseguia absorver o balé, mantendo-se fiel a si mesma, exatamente por carregar uma herança antiacadêmica. E Kirstein ilustrava seu comentário dando como exemplo exatamente o Bach Partita, que Twyla havia montado em 1983 para o American Ballet Theater.

Seu modo totalmente pessoal de instalar o movimento num corpo brotou da mistura das fontes da sua mais que eclética formação: boxe, jogging, balé com Igor Schwezoff, Margaret Craske, Richard Thomas e Barbara Fallis, jazz com Eugene Lewis, Martha Graham, Merce Cunningham, Alwin Nikolais, Paul Taylor, Eric Hawkins.

Com a velha companhia, realizou duas turnês ao Brasil. Na primeira, em 1984, trouxe Sue's Leg (Fats Waller, 1974, dedicado a Suzanne Weil), Telemann, Nine Sinatra Songs (1982), Eight Jelly Rolls (Jelly Roll Morton,1971), The Fugue (1970), Baker's Dozen (Willie "The Lion" Smith, 1979). Em 1987, mostrou As Time Goes By (Haydn), The Fugue, Nine Sinatra Songs, In the Upper Room (Philip Glass), Baker's Dozen (Willie "The Lion" Smith).

Aquela primeira companhia, porque reunia apenas estrelas, virou referência. Sara Rudner, Shelley Washington, Jennifer Way, Kevin O'Day, Tom Rawe, William Whitener, John Carrafa, Raymond Kurshals e Mary Ann Kellogg realizavam nos seus corpos as matrizes de movimento que Twyla forjava em si mesma.

Embora tenha sido o Joffrey Ballet a primeira grande companhia de balé a convidá-la a coreografar (Deuce Coupe, 1973, um rock com sapatilha de ponta, seguido, no mesmo ano, por As Time Goes By e Happily Ever After, em1976), foi com o American Ballet Theater que Twyla Tharp acabou mantendo um relacionamento mais estável.

Baryshnikov - Em 1988, aos 47 anos,Twyla dissolveu a sua companhia, carregou seis de seus bailarinos e tornou-se diretora artística associada do ABT, a convite de Baryshnikov, que comandava o ABT na época. Para ele, Twyla já havia criado Once Upon a Time, em 1973, e Push Comes to Shove, em 1976.

O repertório do ABT conta, entre outras, com as seguinte obras suas: Bach Partita, 1983; Quartet, 1989; Brief Fling e Everlast, 1989; Americans We, Jump Start e How Near Heaven, 1995; The Elements, 1996, trazida na turnê que o American Ballet Theater realizou no Brasil, nesse mesmo ano, e prepara-se para estrear Known by Heart no dia 3, no City Center, em Nova York.

Inquieta, explorou todas as possibilidades que lhe apeteciam. Coreografou After All, em 1977, e Three Fanfarres, em 1980, para o patinador medalha de ouro John Curry, e Dance Is a Man's Sport Too, para Peter Martins, então ainda apenas bailarino do New York City Ballet, dançar com Lynn Swann, o astro do Pittsburgh Steelers, para a série Omnibus da tevê ABC, em 1980. A versátil Twyla criou até para a Martha Graham Dance Company, em 1993, uma Demétria e Perséfone.

Maturidade - Depois de testar todas as mídias que lhe interessavam, trabalhar com as mais importantes companhias e criar para os melhores bailarinos do mundo, Twyla Tharp se diz pronta para a obra que a definirá. Vem buscando, nos últimos anos, decantar mais e mais os traços da cultura popular que marcaram a sua dança, o que nem sempre lhe traz a dose de sucesso com que se habituou.

"Sei que esperam de mim que continue sendo sempre a mesma, mas que também consiga ser uma outra", declara. Formada em Fine Arts, Twyla Tharp sempre foi rápida no gatilho verbal. E competente nos projetos a que se dedicou. (H.K.)

O Estado de São Paulo

Helena Katz

Caderno 2

Sábado, 10 de outubro de 1998