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- Com uma carreira
que já completa 33 anos, a mais pop coreógrafa de sua
geração, que não vem ao Brasil acompanhar a turnê
de sua nova companhia, Tharp!, começa a dar aulas no Hunter
College para estudantes que não buscam a carreira de bailarinos
profissionais, mas desejam aprender a relação entre
movimento e vida.
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Helena Katz / Especial
para O Estado de São Paulo
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- NOVA YORK -
Twyla Tharp prepara duas estréias, Known by Heart, com música
de compositores norte-americanos, para o American Ballet Theater,
e Diabelli, com as Variações Diabelli, de Beethoven,
para a sua companhia.
- Muito ocupada,
ela não virá ao Brasil na turnê que seu novo grupo,Tharp!,
realiza entre 8 e 19 de novembro por Campinas, Salvador, São
Paulo e Rio.
- Tharp! vem ao
Brasil com patrocínio do Banco Real e da IBM, trazida pela
Antares Promoções com apoio da Lei de Incentivo à
Cultura e da Lei Mendonça, nº 10.923/90, com promoção
do Estadão Cultura.
- Com o seu tradicional
rabo-de-cavalo totalmente grisalho e usando os seus habituais óculos
gigantes, que ela escolheu para sua marca visual, conversou com o
Estado no restaurante Trattoria Del'Arte, em Nova York, na semana
passada.
- O Estado
de São Paulo/ Helena Katz
- Não a inquieta apresentar, num país como o Brasil,
onde Iemanjá é uma lenda popular, uma coreografia como
Yemanyá, a sua mais recente criação para a sua
companhia?
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Twyla Tharp -
Em absoluto. E por que deveria? Trata-se de uma fantasia pessoal,
que me foi despertada pela música. Uma música, aliás,
que conheci graças a Ry Cooder.
- Estado -
Há alguma razão especial para a escolha do símbolo
da Iemanjá cubana, dos rituais de santeria?
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Twyla
- Não fiz pesquisa alguma, não sei nada sobre isso,
nunca estive em Cuba, não tenho sequer informação
se há diferença entre a Iemanjá cubana e a brasileira.
- Estado
- Essa nova obra, criada dessa maneira, pode ser considerada fruto
do seu interesse genérico por cultura popular, com a diferença
que, desta vez, a referência cultural foi localizada fora dos
Estados Unidos?
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Twyla
- Acho que faz parte do meu jeito de ser, resultando do meu modo pessoal
de tratar a dança. Não há nada demais nela só
porque se chama Yemanyá, e ela, assim como todas as outras,
deve ser analisada apenas pela movimentação que apresenta.
- Estado -
Que tal foi voltar a trabalhar com Philip Glass, tanto tempo depois
de In the Upper Room, aquela parceria de 1987 que se tornou uma marca?
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Twyla -
Philip entende o que a dança precisa. Não vê ensaios,
às vezes nem vê a sua obra encenada. Basta falar com
ele que a música chega, depois, pronta. No caso desse balé
sinfônico, Heroes, não foi diferente e não estou
certa se ele já assistiu a alguma apresentação
da obra. (Philip Glass escreveu um texto para o programa, no qual
conta que estava trabalhando sobre o disco `Heroes', que Brian Eno
e David Bowie lançaram no fim dos anos 70, porque estava interessado
na dilatação da pop music e do rock-n'-roll que os dois
propunham com aquele trabalho, quando Twyla sugeriu que a obra fosse
transformada numa partitura para balé para a sua companhia
e que David Bowie adorou a idéia).
- Estado
- A época dessa música, os anos 70, continua presente
na nova companhia também por meio de The Fugue?.
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Twyla -
The Fugue, criada em 1970 para três bailarinos, é a mais
velha das minhas obras que essa nova companhia dança, a única
dessa primeira fase. Considero que foi com ela que a habilidade de
fazer coreografia chegou para mim. (Dançada sem música,
sobre um palco eletronicamente amplificado, reúne 20 variações
sobre uma contagem de 20 tempos, algumas delicadas, outras mais percurtidas,
de modo que o próprio som do movimento surja como a representação
audível da estrutura desse trabalho. Representante de uma época
de ricas experimentações na dança nova-iorquina,
tornou-se um emblema da fase pós-moderna da carreira de Twyla
Tharp).
- Estado
- Numa carreira pontuada por tantos sucessos, como explicar um fracasso
como a montagem do musical Singin'in the Rain na Broadway?
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Twyla -
Classifico Singin'in the Rain como algo enterrado no passado.
- Estado
- Há alguma chance de ocorrer um outro projeto, semelhante
ao de Cutting Up, a turnê realizada com Baryshnikov em 1992,
quando você, aos 51 anos, e ele, aos 45, rodaram 25 cidades
em dois meses, arrebatando as platéias?
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Twyla
- Isso ocorreu há muito, muito tempo atrás. Isso já
passou.
- Estado
- Twyla Tharp não voltará a dançar?
-
Twyla
- Mas eu continuo dançando, pois trabalho sozinha no estúdio
todos os dias, além de fazer religiosamente duas horas de alongamento,
musculação e aeróbica toda manhã. E danço
também através daquilo que crio para os meus bailarinos,
para os quais, aliás, ando fazendo coisas bem difíceis.
- Estado -
Por que iniciar um vínculo acadêmico com o Hunter College,
o lugar onde, em 1965, estreou a sua primeira coreografia, Tank Dive,
exatamente agora, quando a nova companhia começa a consolidar-se?
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Twyla
- É o momento de fazer isso, porque já dei muitas aulas,
palestras e conferências em que podia perceber a dificuldade
em consolidar um pensamento sobre composição em dança
sem noções básicas sobre estrutura em dança.
Vou cuidar disso agora.
- Estado -
Uma oportunidade para consolidar o "método Tharp" de dança?
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Twyla -
Como os alunos dessa escola não estão lá buscando
a carreira de bailarinos profissionais, trata-se de uma espaço
para mostrar como a dança se relaciona com a vida, como toda
ocupação, seja lá qual for, está envolvida
com o movimento. É cada vez mais necessário construir
um pensamento sobre dança com quem não pertence ao mundo
da dança. Todo artista, todo político, todo cientista
deveria entender que a dança não se resume a ser uma
técnica de movimento, mas que é também filosofia,
religião, política, economia.
- Estado
- A situação para a dança agora é melhor
do que em 1988, quando as dificuldades financeiras promoveram a dissolução
da sua companhia?
-
Twyla
- De jeito nenhum, agora é pior ainda, pois não tenho
como manter o grupo a não ser fazendo turnês. E todo
mundo sabe qual o custo disso, tanto para os bailarinos quanto para
os coreógrafos. Balanchine, enquanto esteve trabalhando para
consolidar a sua obra com um repertório do mais alto nível,
não deixou o New York City Ballet ficar circulando por aí.
- Estado
- Balanchine ainda é considerado a sua grande referência?
-
Twyla
- Balanchine sabia muito bem tudo o que queria.
- Estado
- Com uma carreira que já completa 33 anos, ao começar
a pensar numa retrospectiva, não a assusta o fato de uma coreografia
ser muito comprometida para o corpo do bailarino para a qual foi criada?
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Twyla
- Tenho sentimentos muito misturados a esse respeito. Toda obra dançada,
quando passa para a segunda geração de intérpretes,
já é outra. Por isso, não abro mão de
registros muito rigorosos, extremamente precisos, de primeira qualidade.
Quero, ao mesmo tempo, a pureza da criação original,
mesmo sabendo que ela será contaminada pela ação
do tempo, irrecuperavelmente, e não recuso também a
contaminação que forçosamente virá.
- Estado
- Há algo que atrai particularmente a sua atenção
hoje, em dança?
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Twyla -
Não saio de casa à noite, acordo às 5h30 da manhã.
Tenho sempre de trabalhar muito, por isso não assisto a nada,
não acompanho nada.
- Estado -
Não sobra tempo nem para leitura?
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Twyla
- Gosto de ler livros sobre história, adoro civilizações
antigas, lugares onde nunca estive. Mas não mantenho uma alta
freqüência, depende dos meus interesses imediatos. Estou
começando a ler sobre Schubert, pois talvez faça algo
sobre ele, em breve. Balzac, por exemplo, li toda a sua obra antes
de fazer Mr. Wordly Wide para o Royal Ballet. Aliás, Shelley
Washington está em Londres exatamente agora remontando esta
obra, razão pela qual não acompanhará a companhia
na turnê brasileira. (Shelley Washington, a única remanescente
do mais famoso dos elencos já montados por Twyla, aquele do
início dos anos 80, atualmente dá aulas para a nova
companhia).
- Estado -
A senhora tem declarado que agora se sente pronta para criar a obra
da sua maturidade. Será ela Diabelli, que estréia no
dia 23, em Palermo, com a sua companhia?
-
Twyla
- Não sou eu quem tem a responsabilidade de declarar isso.
Daqui a cinco anos vocês dirão se sim ou não.
Diabelli não é narrativo, é pura evocação,
não tem conteúdo, mas em todas as suas cenas tem um
sentido.
- Estado
- Na carreira de Beethoven, as 33 variações sobre uma
valsa de Anton Diabelli, que foram editadas em 1823, poucos anos antes
da morte dele, marcam a maturidade do compositor. Na sua, têm
esse mesmo valor simbólico?
-
Twyla
- Escolhi
a obra de propósito, é claro, e trabalhei duro até
achar que conseguiria realizá-la no palco. É a primeira
vez que uso Beethoven e eu me permiti começar pelo melhor dele
só depois de ter passado a vida toda ouvindo-o.
- Estado
- Quando fala da companhia, o fato de identificar o elenco como my
kids (minhas crianças) indica alguma forma afetiva especial
de relacionamento?
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Twyla -
Tive um filho só, não sou a mãe deles. Quando
se pertence a uma companhia de dança, a própria natureza
do trabalho favorece o surgimento de algo simbiótico, o que
não é bom para ninguém e deve ser evitado.
- Estado
- E o futuro?
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Twyla
- Continuar a pensar o que é o novo. (Ela pára um pouco,
faz silêncio e, então, pergunta sobre uma bailarina uruguaia
que dançou na sua primeira companhia, nos anos 60, Graziela
Figueroa, que se tornou uma influência fundamental na dança
contemporânea carioca). Você tem notícias da minha
amiga Graziela? Sabe o que ela anda fazendo? Quando a encontrar, por
favor, não esqueça de dizer que mando o meu carinho
para ela. FIM.
O Estado de São Paulo
Helena
Katz
Caderno
2
Sábado,
10 de outubro de 1998
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