Texto faz corte profundo na intimidade da alma sulista

Levado para os palcos e para as telas, é uma reflexão pungente sobre a ilusão e a loucura

L. Bernardes / O Estado de São Paulo

SÃO FRANCISCO - Tennessee Williams disse em uma entrevista, em 1957: "Escrevo sobre o Sul porque ali é mais agudo o conflito entre o romantismo e a hostilidade ao romantismo." Sua peça Um Bonde Chamado Desejo trata precisamente desse conflito e mergulha com profundidade em temas como a ilusão, o sexo, o amor, a loucura.

A peça foi encenada pela primeira vez no Barrymore Theater, em Nova York, com direção de ninguém menos que Elia Kazan e um elenco de primeira linha: Jessica Tandy, a conturbada Blanche DuBois; Kim Hunter, no papel de Stella; Marlon Brando como o grosseiro e sensual Stanley; e Karl Malden como Mitch.

Em 1951, Kazan fez o filme que iria imortalizar a história de Blanche, com o mesmo elenco da peça, exceto Jessica Tandy, substituída por Vivien Leigh. O filme arrebatou vários Oscars e Brando foi o único não premiado, mas sua interpretação de Stanley é considerada insuperável. Dois outros filmes baseados na peça foram produzidos em 84 e 95 para a TV. No último, Jessica Lange faz Blanche, ao lado de Diane Lane, Alec Baldwin e John Goodman. A qualidade do texto, um corte profundo na intimidade da alma sulista americana e uma reflexão pungente sobre a loucura, acabou eternizando a obra, graças também ao brilho de seus intérpretes.

A peça conta a trágica história de Blanche DuBois, decadente aristocrata do sul americano, ninfômana e alcoólatra. Filha mais velha de uma outrora rica família do Sul, Blanche ficou em sua cidadezinha natal enquanto sua irmã, Stella, se mudou para New Orleans e se casou com um trabalhador braçal, Stanley Kowalsky. A peça começa quando Blanche vai visitar a irmã - e morar com o casal.

Estabelece-se imediatamente um antagonismo entre a sofisticada e fantasiosa Blanche e o rude Kowalsky. Ele descobre sobre a ninfomania dela e conta tudo ao romântico e moralista Mitchell, que estava apaixonado por Blanche e planejando casar-se com ela. O namoro é desfeito e esse é o princípio do fim para Blanche. Quando Stella passa a noite no hospital, dando à luz o filho do casal, Kowalsky estupra Blanche que, no fim da peça, acaba internada em um asilo de loucos. (L.B.)

O Estado de São Paulo

L. Bernardes

Caderno 2

Sábado, 10 de outubro de 1998.