Vianinha - Legado do dramaturgo é forte ponto de referência

Textos são encenados e reavaliados em estudos críticos, mostrando a atemporalidade dos fatos

Mariangela Alves de Lima / Especial para O Estado de São Paulo


Nos seus escritos teóricos sobre teatro, televisão, cultura e política, Oduvaldo Viana Filho insistia na necessidade de uma produção artística "de circunstância", endereçada à contemporaneidade. Apesar dessas recomendações, seu legado dramatúrgico tem resistido ao tempo, ultrapassando o signo de urgência sob o qual viveu e escreveu.

Vianinha, apelido que o distinguia de seu pai, o dramaturgo Oduvaldo Viana, morreu em 1974, com 38 anos. Desde então suas obras têm sido encenadas e reavaliadas em estudos críticos que reconhecem no seu trabalho um sólido ponto de referência dentro do quadro geral do teatro brasileiro. Em grande parte, o renovado interesse pelos seus textos deve-se a um hábil entrelaçamento entre o drama e o teatro de tese. Mas há também a considerar o fato de que suas peças, tomadas em conjunto, sintetizam as idéias e as realizações de uma geração de artistas comprometidos com a transformação concreta da sociedade. Ao lado de Gianfrancesco Guarnieri, Augusto Boal, Armando Costa, Ferreira Gullar e Francisco de Assis, formou o primeiro grupo de autores que pensavam o texto como um instrumento de intervenção.


Dramaturgia - Idealizado em meados dos anos 50, esse novo sistema textual complementava uma prática que, por sua vez, revertia para o aperfeiçoamento da escrita. No Teatro de Arena de São Paulo, nos Centros Populares de Cultura da UNE, no Grupo Opinião e em células-filhotes espalhadas por sindicatos, Vianinha e seus companheiros internalizaram na composição dramatúrgica as questões de produção e de circulação do espetáculo teatral. Tratava-se, enfim, de encontrar um meio de representar dignamente os trabalhadores, personagem a quem o teatro brasileiro ainda não concedera o protagonismo. Problema de igual relevo era ter acesso ao público representado no palco, o que implicava em mudar a linguagem e o formato das encenações.

De 1959 a 1968, ano em que a ditadura militar golpeia de morte o proselitismo político, Vianinha escreve sobre a questão agrária, o sindicalismo, o ensino e a exploração do trabalho pelo capital. É o seu período mais nítido de obras de "circunstância", muitas delas aliando ao esclarecimento um lirismo que sempre conservou e um brilho humorístico que utilizaria mais tarde na televisão.

Simultaneamente a essa militância, escreveu um conjunto de peças às quais o diretor Aderbal Freire denominou "criações dissidentes", porque tematizavam os conflitos da classe média. Referindo-se ao próprio estrato social, examinava uma reduzida tipologia de criaturas espremidas como ostras entre o ideal político e uma realidade que solapava qualquer projeto solidário. Moço em Estado de Sítio, Mão na Luva (título atribuído), A Longa Noite de Cristal, Em Família, Corpo a Corpo focalizam, no plano das relações interpessoais, as conseqüências de opressão política sobre a subjetividade.


Ideais - O viés ideológico é o mesmo aplicado à dramaturgia militante, uma vez que o pano de fundo é a aspiração de uma sociedade equalitária. No entanto, nessas peças, os personagens são esclarecidos, relativamente protegidos das privações materiais que afetam a maioria da população. Poderiam, portanto, escolher. Embora com uma considerável dose de piedade, Vianinha registra e condena os momentos em que o interesse pessoal prevalece sobre a solidariedade de grupo. Reconhece que, ao redor dessas figuras, há uma instabilidade crescente ameaçando seus reduzidos privilégios e, por essa razão, a imobilidade é também autopreservação. Até os melhores traem seus ideais.

Enfim, à medida que as condições do País inviabilizam a oposição a céu aberto, os conflitos de suas peças se transferem para o âmbito da família e do trabalho, novos campos de batalha entre a ideologia e a práxis. "Há muitas bombas engastadas nos fuzíveis da minha casa, dentro do meu relógio. Há pequenos gemidos que não param", dirá a personagem Cristal.

Pode ser que as condições históricas se tenham alterado a ponto de tornar impossível, entre os intelectuais, a idéia de um compromisso político e social. Mesmo assim as peças de Vianinha dramatizam uma divisão que ninguém poderá ignorar. Não ser solidário, não ter com quem solidarizar-se, não saber o que é a solidariedade são assustadoras experiências de solidão. Disso nos falam essas peças e com isso nos ameaça seu autor em um dos seus últimos escritos: "Queremos que você saia do teatro mais do que nunca dividido, carregando o dois que há em cada um de nós."
 

O Estado de São Paulo

Mariangela Alves de Lima

Caderno 2

Quarta-Feira, 18 de fevereiro de 1998.