`Rasga Coração' marca o adeus de Vianinha

 
Há 25 anos o dramaturgo morria após terminar sua obra-prima

Beth Néspoli / O Estado de São Paulo

No dia 16 de julho de 1974, morria de câncer aos 38 anos de idade no Hospital São Silvestre, no Rio, o ator e dramaturgo Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha, deixando de herança 23 textos teatrais. Foi no leito do hospital que ele ditou para sua mãe, pois já não conseguia escrever, o segundo ato de Rasga Coração. A mítica em torno da peça é o ponto de partida da tese de doutorado Vianinha, Um Dramaturgo no Coração de Seu Tempo, de Rosangela Patriota, publicada pela Hucitec (229 págs.,R$25) e lançada neste mês de aniversário de 25 anos de sua morte.

A montagem de Rasga Coração com um elenco liderado por Raul Cortez e dirigida pelo amigo e companheiro dos tempos de Teatro de Arena José Renato, a quem entregou os originais pouco antes de morrer, só foi realizada depois de uma via crucis de cinco anos pelos meandros da censura federal e uma intensa campanha de toda a imprensa contra a interdição. Fez enorme sucesso e virou símbolo da redemocratização no País.

Por ocasião da morte do dramaturgo, o crítico Sábato Magaldi publicou no Jornal da Tarde: "escrevi, há algum tempo, que Vianinha havia composto várias peças de qualidade, não tendo ainda produzido a obra-prima que se esperava dele. Talvez fosse correta a observação antes de Papa Highirte e de Rasga Coração. Nesses últimos textos, ainda inéditos no palco, Vianinha aceitou o desafio para ir mais longe, e venceu."

No entanto, 25 anos depois de observações como a de Magaldi e vários outros críticos e artistas que reconheceram o valor da obra de Vianinha, não são poucos os que insistem em vincular o engajamento político do artista à construção de uma obra esquemática e, portanto, datada. E é essa ótica que a Rosangela, professora de história da Universidade de Uberlândia (MG), quer reverter em sua tese de doutorado.

Marco - "Autor dogmático?", pergunta. "Depende da perspectiva, pois se as referências forem apenas as peças escritoas no Centro Popular de Cultura, sem sombra de dúvida, encontrar-se-á um dramaturgo que transformou seu trabalho em instrumento de luta política, com o intuito de contribuir para a que a tão sonhada revolução se efetivasse", afirma. Ela aponta a instauração do regime militar em 1964 no País como um marco que se reflete na obra do autor, a partir de Moço em Estado de Sítio. "Nesse momento, encontra-se um Vianinha sensível e plural na ânsia de discutir a realidade brasileira, valendo-se de questões que ainda hoje fazem parte de nosso cotidiano".

Rosangela lançou seu livro na semana passada no Teatro da Aliança Francesa. A escolha do local não foi um acaso. Sede do Grupo Tapa, a companhia dirigida por Eduardo Tolentino de Araújo mantém em temporada duas peças de Vianinha: Corpo a Corpo, com o ator Zécarlos Machado, cuja imagem ilustra a capa do livro, e Moço em Estado de Sítio.

Orgulho - Zécarlos afirma que a princípio ficou "envergonhado", mas depois "muito orgulhoso" de emprestar sua imagem no papel do publicitário Vivacqua de Corpo a Corpo para a capa do livro. "Acho fantástica a abordagem de Rosangela, a forma como ela recorta as reportagens de época e joga uma nova luz no confronto com nosso tempo", diz. Mesmo elogiosas, essas análises estavam muito presas a uma situação histórica, tanto nas críticas negativas como nos elogios, o que teria contrubuído para uma falsa imagem de não transcendência dramaturgia de Vianinha.

"Ela mostra que outras questões foram esquecidas", diz Zécarlos que leu um trecho do livro no palco do Aliança, para lembrar o aniversário de morte do dramaturgo. Ao decidir montar as duas peças do autor, o Grupo Tapa vem contribuindo para ressaltar a permanência e a qualidade da obra do dramaturgo.

"Quando ouvem falar em Vianinha, as pessoas têm essa reação, dizem que ele é datado", conta Zécarlos. "Aí eu pergunto: o que você leu ou viu dele e há quanto tempo?" Segundo o ator a resposta é sempre vacilante. "Depois do espetáculo, muita gente vem conversar e comenta sua surpresa com a identificação sentida com Vivacqua, com o fato do espetáculo falar da condição humana."

Tolentino compara a rejeição detectada com relação a Vianinha com a de outro grande autor brasileiro. Destaca a recente "descoberta" de Nélson Rodrigues, mas lembra que ele foi execrado durante muito tempo e, na maioria das vezes, por pessoas que nem ao menos o tinham lido, contaminadas por uma opinião recorrente. Os que se diziam de esquerda apontavam o "reacionarismo" do autor como motivo da rejeição.

"Mas as críticas vinham também do outro lado, porque os personagens de Nélson eram visivelmente identificados como de direita, mas não da forma como a direita se idealizava; ele colocava frases na boca daquelas tias muito incômodas", comenta Tolentino. "Vianinha provocava e, ainda provoca, o mesmo incômodo entre seus pares, porque ele não idealizava a esquerda."

Tolentino vê as peças Moço em Estado de Sítio, Corpo a Corpo e Mão na Luva como uma trilogia, quase como momentos distintos de um mesmo personagem, sempre um homem ligado à esquerda, que abandonou seus ideais dividido entre a realização pessoal e a fidelidade a valores não individualistas. Os três personagens, entretanto, estão longe de ter sido construídos de forma esquemática. Pelo contrário, são multifacetados, cheios de conflitos e mesmo o panorama social e político que determina as situações por eles vividas é enfocado de forma dialética. "Ele fala de uma geração que lutou para discutir e melhorar o País e hoje está no poder, a começar pela figura máxima", afirma Tolentino. "Claro que Vianinha viveu num momento histórico específico, de muita paixão, mas sua generosidade fez dele não só um grande homem, mas propiciou que sua obra transcendesse a seu tempo."

O Estado de São Paulo

Beth Néspoli

Sábado, 24 de julho de 1999.

Página D-3.