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Um
artista solidário e imutável em sua essência
Entre seus
companheiros foi o que tornou mais explícitas as correções
de percurso
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Mariangela Alves de Lima / Especial para O Estado de São
Paulo
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- Os franceses
usam a expressão "homem de teatro" para designar os artistas
que, além de uma atividade específica, enveredam pela
teoria e para o território da produção da arte
cênica. Tivemos muitos com esse perfil, a começar pela
impávida figura do nosso primeiro grande ator, João
Caetano dos Santos, que ainda na primeira metade do século
dezenove se ocupava em cavar alicerces para um teatro nacional. Mas
não foi só do nacional que se ocupou Oduvaldo Vianna
Filho. No período em que viveu (1936-1974) a perspectiva do
"homem de teatro" alargou-se consideravelmente. Além de ocupar
a cena, os homens da sua geração desenharam uma proposta
político-estética, pensaram a cultura e a transformação
concreta da existência como uma unidade indissociável
e acreditaram que o que estava no palco tinha força para atuar
sobre o que estava fora dele.
- Para essa geração
a arte significou um instrumento no percurso até a felicidade
coletiva e pode-se dizer que a esperança dessa redenção
social não está inteiramente ausente das obras mais
críticas e mais amargas do período. Vianninha, apelido
carinhoso que o distinguia do pai dramaturgo, expressou-se com grandiloqüência
em um os seus textos militantes: "o homem será Deus, do seu
verdadeiro tamanho, com a cabeça nos céus, com os séculos
nos olhos. E os deuses estarão nas ruas".
- Por não
ter sido um homem isolado, mas um artista solidário e representativo
da sua época, o percurso intelectual de Vianinha fez dele assunto
privilegiado para quem quer reconstituir a história recente
do país, sobretudo o período de enfrentamento direto
entre a ditadura militar e a esquerda. De mais a mais a análise
de sua dramaturgia teatral e televisiva proporciona ao ensaísmo
- nesse sentido é um autor único -a oportunidade de
distinguir estratégias para atuar em diferentes situações
conjunturais e para diferentes públicos. Entre seus companheiros
é o dramaturgo que tornou mais explícitas as correções
de percurso, no domínio da linguagem, necessárias para
atingir um objeto que, na essência, se manteve imutável
ao longo de sua vida artística.
- Entre as vinte
e três peças que escreveu (algumas em colaboração)
há textos de circunstância, destinados a um público
idealmente constituído por estudantes e operários e
cujo tema é de oportunidade histórica. Nas outras peças
o protagonismo é reservado à hesitante classe média
que, ontem como hoje, pode ser cooptada por qualquer uma das frentes
mais radicalizadas do conflito social. Nas peças militantes
há uma riquíssima variação tática
que vai da ironia à tragédia, do documento à
farsa. Quando elege como tema a sua própria classe, a dos homens
esclarecidos para quem a aliança com outra classe é
uma opção de conseqüências éticas,
Vianinha desenha subjetividades densas no pensamento e nas emoções,
figuras que se comunicam de modo complexo com o universo concreto
da história.
- Lembramo-nos
mais das personagens do que das situações em que o autor
as coloca - estas por vezes apressadas e funcionais - mas nas personagens
há um conteúdo perene convidando a uma constante reapropriação
cênica. No entanto o fato de que sua obra tenha permanecido
um desafiante objeto crítico quase um quarto de século
após a sua morte sinaliza algo mais do que a transcendência
histórica. Conheço cinco livros publicados sobre Oduvaldo
Vianna filho, e vários ensaios esparsos e em todos eles está
presente a admiração pela consonância entre arte
e política. Através dele há quem queira como
ele, "conhecer inteiramente o real e modificá-lo".
O
Estado de São Paulo
Mariangela
Alves de Lima
Caderno
2
Sábado,
24 de junho de 1999.
Página
D-3
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