`Virginia Woolf' marcou cena do país nos anos 60

Ao produzir a peça no Brasil, em 1965, o diretor Maurice Vaneau alinhou-se à vanguarda da dramaturgia norte-americana com um dos mais ousados e violentos dos seus novos autores

Mariangela Alves de Lima / Especial para O Estado de São Paulo

Em 1965 não havia no teatro brasileiro atriz mais amada, admirada e respeitada do que Cacilda Becker. No entanto, no fim da representação de Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, alguns espectadores, em meio aos que a aplaudiam, se aproximavam da boca de cena e a insultavam à meia voz. Essa agressão intermitente durante a carreira do espetáculo é narrada por Décio de Almeida Prado e dá a medida de um extraordinário desempenho capaz de iludir a tal ponto o público que o fazia esquecer-se momentaneamente da atriz. Testemunha, ao mesmo tempo, a malignidade da personagem Martha disseminando um mal-estar que perdura depois da sua manifestação no palco.

A peça de Edward Albee estreara na Broadway em 1962 e, ao produzi-la no Brasil, o diretor Maurice Vaneau alinhava-se com a vanguarda da dramaturgia norte-americana por meio do mais ousado e violento dos seus novos autores. Como tema, a violência comportamental e política aumentou em número e grau nas duas décadas posteriores, mas poucas peças igualam até hoje a dolorosa intensidade dos jogos destrutivos propostos por Albee.

No primeiro ato, intitulado Diversão e Jogos, desenha-se um desafio entre cônjuges. As escaramuças crescem em intensidade nos dois atos posteriores tendo em vista a destruição total do outro. Na ampliação do teatro da guerra são vitimadas também as testemunhas, ou seja, um casal jovem convidado para uma visita tardia à casa dos combatentes de meia-idade.

Martha e George são, ou deveriam ser, o ápice da civilização norte-americana. Ela é filha do reitor de uma universidade da Nova Inglaterra e seu marido dá aulas no Departamento de História. Os convidados são aspirantes a essa proeminência social e intelectual: um recém-chegado professor de Biologia e a sua mulher que nem sequer tem nome porque seu papel na vida se resume a um ridículo apelido carinhoso. Receberão, nessa noite, uma inesquecível lição sobre seu novo hábitat.

Como cerimônia de iniciação aos jovens, os anfitriões oferecem uma noitada de bebedeira, agressões físicas e verbais e uma torrente de insultos prodigamente partilhada com os convidados. Sob a fina camada de civilidade, rompida no primeiro cumprimento introdutório, há a fúria de arrancar todas as camadas de engano, as mesmas que tornam suportável a convivência social, para atingir a medula e aniquilar o parceiro.

Há, sem dúvida, o componente da rigidez puritana implícito nesse desnudamento porque Martha, sobretudo, ataca aparências e recusa qualquer ilusão sobre si mesma ou sobre seu marido. Mas esse aspecto tão típico da cultura norte-americana não parece ter sido o mais evidente na encenação brasileira. Os comentários sobre a peça e sobre o espetáculo ressaltam a sua eficácia como jogo psicológico em que, à maneira do procedimento psicanalítico, os golpes sobre a aparência acabam por revelar uma falta essencial, mais pungente e menos transitória do que a ideologia puritana.

O que aterroriza e comove nessa peça é que desvendamos, à medida que se amplia o conflito, uma promessa de amor que não foi cumprida. Porque não pode ser cumprido integralmente, o amor deverá ser aviltado integralmente. Ambos eliminam, com um final trágico, a mentira piedosa que haviam engendrado para adoçar essa solidão a dois. A complacência amorosa parece intolerável e Martha a expressa referindo-se a um marido que "tolera, o que é intolerável, é gentil, o que é cruel, compreende, o que é incompreensível". Bondade e amor são vícios nos quais são precisos, para sobreviver, agressividade e rancor.

Dirigido por Vaneau, o espetáculo tornou-se um marco da cena brasileira dos anos 60. Em um estudo belíssimo sobre o estilo de interpretação de Cacilda Becker, os críticos Jacó Guinsburg e Maria Thereza Vargas observam que os protagonistas - Cacilda Becker e Walmor Chagas - sintetizaram nesse trabalho a experiência do realismo e a das interpretações alegóricas do novo teatro europeu. Não só eles, com certeza, porque um dos méritos reconhecidos pelos comentaristas do espetáculo é o excelente desempenho dos coadujuvantes Liliam Lemmertz e Fulvio Stefanini, em nenhum momento ensombrecidos pela estatura dos companheiros de cena. Ao que parece foi uma encenação verista a ponto de iludir e ao mesmo tempo mais do que isso nas palavras de Guinsburg e Maria Thereza Vargas: "Assim, em plenos anos 60 de nosso século, se fundia mais uma vez a história, tão fundo que ia até a História a entremostrar-se nas rachaduras, e isso precisamente ao apoiar todo o seu peso no curso do cotidiano, na prisão verista dos fatos, na superfície das intenções comuns."

O Estado de São Paulo

Mariangela Alves de Lima

Segunda-Feira, 10 de janeiro de 2000.

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