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Jornal: O Estado de São Paulo - Caderno
2 - Mariangela Alves de Lima - Sexta-feira, 12 de maio
de 2000 - página D22.
O humor alemão em tradução
perfeita
Passo a passo o Folias d'Arte vem
cumprindo as etapas de consolidação de um bom grupo de teatro.
Definiu, em primeiro lugar, um programa artístico norteado
pela crítica social e organizou um repertório que não se desvia
desse propósito. Consolidou uma aliança entre artistas que,
pelo fato de permanecerem juntos ao longo de diferentes produções,
se harmonizam tecnicamente e se aperfeiçoam fazendo a crítica
da experiência. E chega agora a um porto que, nas palavras
dos seus participantes, "é o sonho de todos os coletivos teatrais".
Tem um galpão para ser sede de seu trabalho em um ponto central
da cidade, arquitetado para acolher a morfologia variável
dos espetáculos contemporâneos. Happy
End, espetáculo inaugural desse novo espaço, exemplifica
a proposta e põe à prova os meios de produção do grupo. É
um musical brechtiano dos pés à cabeça, embora seja uma obra
feita em colaboração pelo trio Elizabeth Hauptmann,
Bertolt Brecht e Kurt Weill. Escrito em 1929,
em um período em que a teoria brechtiana estava já bem encaminhada,
o espetáculo musical seria, como diz Brecht, para mostrar
"não a realidade, mas a verdade, o verdadeiro mecanismo da
sociedade". Demonstra-se o mecanismo, neste caso, construindo
um pacto caricatural entre o crime organizado, o proselitismo
religioso e as corporações de defesa. Todos unidos para o
progresso do capital especulativo. Como se vê, os termos dessa
associação não são novos, mas nem por isso deixam de corresponder
aos avatares do capitalismo contemporâneo. O gangsterismo
norte-americano, a seita salvacionista e a polícia são máscaras
alargadas o suficiente para comportar os agentes de uma economia
baseada no princípio do máximo de lucro e o mínimo de ética.
A formalização histriônica da peça tem a dupla função de explicar
como as coisas acontecem e, ao mesmo tempo, desopilar o fígado
dos espectadores tornando risíveis esses perigosos aliados.
É possível que a peça seja muito engraçada no original, mas,
por alguma razão, o humor alemão não se aclimata bem entre
nós. A encenação de Marco Antonio Rodrigues resolve
a diferença com o grão de sal do sarcasmo. As ações e, sobretudo,
as ações físicas são agressivamente predatórias, com a energia
e o caradurismo dos bandidos tupiniquins. Há uma graça corrosiva
nas atitudes, nas tonalidades vocais, no arranjo espacial
dos agrupamentos em cena. Com um elenco coeso e tecnicamente
impecável (o desempenho é tão bom que seria injusto comentar
personagens isoladamente), o trabalho do Folias d'Arte tem
a organicidade do ensemble. O mesmo princípio de composição
dos personagens - equilíbrio entre ironia e crítica - preside
os figurinos criados por Lola Tolentino, a cenografia
de Ulisses Cohn e a direção musical de Dagoberto
Feliz. Tudo é bonito, mas trata-se de uma beleza feroz.
O espetáculo não enfraquece ou ridiculariza essas forças que
considera temíveis.
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