Quando se fala em musical no cinema, a primeira imagem que vem à cabeça de muita gente é a de Gene Kelly dançando na chuva ou os números coloridos de La La Land. Mas o Brasil também construiu uma tradição própria no gênero, mais irregular, menos celebrada, mas cheia de momentos em que a música popular encontrou a câmera com resultados que merecem ser vistos. Neste artigo, selecionei 11 musicais brasileiros que, cada um a seu modo, contam um pouco dessa história. Não se trata de um ranking de qualidade, mas de um mapa afetivo e crítico do que o cinema nacional fez quando resolveu cantar e dançar.
1. Alô, Alô, Carnaval! (1936)
O marco zero do gênero no Brasil. Dirigido por Adhemar Gonzaga, o filme captura o espírito dos bailes de carnaval carioca com números musicais que misturam samba, marchinhas e a estética dos estúdios da época. A cena em que Carmen Miranda canta "Alô, Alô" é um documento não só do cinema, mas da cultura popular brasileira.
2. É Proibido Sonhar (1943)
Raridade da Cinédia, este musical dirigido por Moacyr Fenelon traz a cantora Linda Batista em uma trama sobre amor e fama. O que impressiona é o uso da montagem paralela entre os números musicais e o drama, uma influência clara dos musicais de Busby Berkeley, adaptada ao gosto brasileiro.
3. A Escolinha do Professor Raimundo (1957)
Antes da versão televisiva, o humor musical já existia no cinema. Este filme de Victor Lima, com a dupla Zé Trindade e Colé, é uma chanchada que usa o samba como pano de fundo para sátiras políticas. A cena da "aula de música" é um exercício de timing cômico que poucos musicais brasileiros repetiram.
4. Todas as Mulheres do Mundo (1966)
Domingos de Oliveira faz um musical de câmara, intimista, que troca os grandes cenários por apartamentos cariocas. A música de Tom Jobim e Vinicius de Moraes não está em números coreografados, mas na respiração dos diálogos. É um caso raro de musical que não precisa de dança para ser musical.
5. Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976)
O grande sucesso de bilheteria do cinema brasileiro até então, dirigido por Bruno Barreto. A adaptação de Jorge Amado tem cenas musicais que funcionam como comentário irônico sobre a trama. A sequência em que Flor dança com os dois maridos é uma coreografia de desejo e culpa que poucos filmes ousaram filmar.
6. Bye Bye Brasil (1979)
Cacá Diegues filma a caravana de artistas mambembes que percorre o Brasil. O número de abertura, com a lona do circo se abrindo ao som de "O Canto da Cidade", é uma declaração de amor ao espetáculo popular. O filme é também um retrato da passagem do Brasil rural ao urbano.
7. Cazuza - O Tempo Não Para (2004)
Sandra Werneck e Walter Carvalho transformam a biografia do cantor em um musical que não se apoia em coreografias, mas na força das canções. A cena em que Cazuza (Daniel de Oliveira) canta "Exagerado" no show é filmada com planos fechados que capturam a entrega do ator e a energia do público.
8. Ó Paí, Ó (2007)
Monique Gardenberg adapta a peça de Márcio Meirelles para o cinema com um elenco que canta e dança o samba-reggae do Pelourinho. O número "Aquele Abraço" no final é um exemplo de como o musical pode ser político sem perder a leveza. A montagem alterna cenas de ensaio e apresentação, criando um ritmo próprio.
9. Somos Tão Jovens (2013)
A biografia de Renato Russo dirigida por Antonio Carlos da Fontoura. O filme aposta em reconstituições de shows do Aborto Elétrico e da Legião Urbana. A cena em que Renato (Thiago Mendonça) canta "Que País É Este" no porão é um retrato da energia crua do punk rock brasileiro.
10. Tim Maia (2014)
Mauro Lima faz um musical biográfico que usa a música como motor narrativo. A sequência em que Tim (Robson Nunes) grava "Azul da Cor do Mar" no estúdio é filmada em plano-sequência, mostrando o processo criativo como coreografia. O filme entende que o corpo do cantor é parte da música.
11. Marighella (2019)
Wagner Moura dirige um filme que não é um musical no sentido tradicional, mas que usa a música de forma estrutural. A cena em que Carlos Marighella (Seu Jorge) canta "O Que É, O Que É" de Gonzaguinha em um bar é um momento de respiro político que transforma a canção em ato de resistência.
Para quem quer começar a explorar o gênero, sugiro começar por Dona Flor e Seus Dois Maridos, pela popularidade e pela forma como integra música e narrativa, e depois mergulhar em Bye Bye Brasil para entender o que o musical brasileiro tem de mais autoral.
Perguntas Frequentes sobre Musicais Brasileiros no Cinema
Qual foi o primeiro musical brasileiro?
O primeiro musical brasileiro reconhecido é Alô, Alô, Carnaval! (1936), dirigido por Adhemar Gonzaga. O filme inaugurou uma tradição de musicais de carnaval que dominou o cinema nacional até os anos 1950.
O que é uma chanchada?
Chanchada é um gênero de comédia musical popular no Brasil entre as décadas de 1940 e 1960, produzido principalmente pelos estúdios Atlântida. Misturava humor escrachado, samba e críticas sociais leves, com forte apelo popular.
Por que o musical brasileiro é menos conhecido?
O gênero enfrentou a falta de investimento contínuo em produção e a competição com o cinema americano. Além disso, muitos musicais brasileiros foram feitos em períodos de crise econômica, o que limitou a circulação.
Quais diretores se destacaram no gênero?
Cacá Diegues, Bruno Barreto, Monique Gardenberg e Mauro Lima são alguns dos diretores que mais investiram no musical brasileiro, cada um com abordagens distintas, do épico popular ao biográfico intimista.
O musical brasileiro voltou a ter força?
Nos anos 2010, biografias musicais como Tim Maia e Somos Tão Jovens reavivaram o interesse pelo gênero, mas ainda de forma esporádica. A falta de uma estrutura industrial para musicais originais continua sendo um obstáculo.
Como a música popular brasileira influencia o cinema?
A MPB, o samba e o rock brasileiro fornecem não apenas trilha sonora, mas também temas e ritmos que moldam a narrativa. Em muitos filmes, a música é o fio condutor da história, como em Bye Bye Brasil.
