# Evento de arte e tecnologia alfineta com bordado e IA

> A instalação Bordaduras, de Regina Silveira, ocupa os vidros do Sesi Lab em Brasília e abre o 25º Encontro Internacional de Arte e Tecnologia, reunindo 41 artistas até domingo (20) para debater o uso da inteligência artificial na criação artística. O evento combina bordado e tecnologia como provocação crítica.

*Teatro Brasileiro · Análises e Críticas · 15 de setembro de 2026 · Sirlene Damasceno*

Instalação Bordaduras, de Regina Silveira, ocupa os vidros do Sesi Lab em Brasília e abre o 25º Encontro Internacional de Arte e Tecnologia, que reúne 41 artistas até domingo (20) para debater o uso da inteligência artificial na criação.

Nós olhamos para a cena de arte e tecnologia e encontramos uma agulha atravessando o vidro. A instalação Bordaduras, da artista plástica Regina Silveira, de 87 anos, professora emérita da Universidade de São Paulo (USP), ocupa 530 metros quadrados sobre os vidros do museu do Sesi Lab, na área central de Brasília, e abre oficialmente à visitação nesta terça (15). O trabalho integra a programação do 25º Encontro Internacional de Arte e Tecnologia, evento que debate a interseção entre as duas áreas e leva ao Sesi Lab e ao Museu Nacional de Brasília obras e experimentos de 41 artistas de diferentes regiões do País até domingo (20).

A obra é um vinil adesivo com imagem de agulhas e uma série de bordados em ponto de cruz inacabados. Do lado de dentro, um painel de LED exibe Dígito, trabalho que a artista criou nos anos 1980. Regina Silveira assina a palestra inaugural do encontro.

Para quem trabalha no museu, a instalação mexeu com a memória. A agente de portaria Kaliane Martins, de 40 anos, potiguar que se mudou ainda criança para Brasília com a mãe e trabalha no Sesi Lab há quatro anos, conta que aprendeu a bordar com a mãe e a avó. "Vi as agulhas [da obra] e me fez recordar", diz. Ela costurou as próprias roupas e as dos três filhos adolescentes. "Nunca foi fácil costurar cada dia de batalha", afirma à Agência Brasil.

Na porta do museu, o professor de circo tocantinense Gabriel Coelho, de 21 anos, ensaiava com malabares de pinos coloridos. Ao ver a obra, lembrou que aprendeu com a mãe a costurar e a fazer crochê. "Eu arrumo todas as minhas roupas e calçados. Sou palhaço também. Lembrei, quando vi essa imagem, que desestresso com agulha e linha, e fico mais longe do celular."

A artista contextualiza que os bordados estão historicamente ligados à alfabetização das mulheres, durante o Pré-Renascimento, quando elas bordavam letras em enxovais. "No meu percurso, os bordados em pontos de cruz completos ou malfeitos se conectam ao repertório de padrões gráficos que venho utilizando desde o novo milênio com o suporte de meios digitais para dialogar com arquiteturas diversas", afirma Regina Silveira. Ela entende que a obra é feminista por natureza e cita uma fatia de sua produção dos anos 1980 e 1990 que trata da distorção dos objetos do cotidiano.

Sobre a inteligência artificial, a artista recusa o tom apocalíptico. Diz que as tecnologias atuam com repertórios e memórias já existentes. "Nesse sentido, ela pode ajudar, mas não pode ajudar a criar ou a pensar." E acrescenta: "Mas que não implique em invenção. Invenção é própria do cérebro humano. Uma conexão inesperada entre dados que já estavam incorporados. Não é inspiração que cai do céu." Ela afirma nunca ter tido posição negativa em relação às tecnologias e defende conscientizar os mais jovens de que é preciso manejar a linguagem. "Os meios estão subordinados às linguagens."

A artista e professora Suzete Venturelli, uma das coordenadoras do evento, concorda que é preciso atenção com o uso das tecnologias generativas na arte e que nada substitui a criatividade humana. "Muitos alunos nossos estão resistindo no uso. Experimentaram quando surgiram tecnologias e a gente percebeu que o banco de dados que eles usam tem um viés racista e eurocêntrico." Para ela, a obra de arte precisa alfinetar a sociedade, inclusive as próprias tecnologias, e a educação para o uso da IA deve privilegiar a criatividade.

A cena brasileira não cabe no palco italiano, e este encontro mostra isso: o bordado, gesto doméstico e historicamente feminino, entra no museu pela mesma porta que o LED e o debate sobre IA. Fora do eixo também é centro.

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Fonte (canonical): https://www.teatrobrasileiro.com.br/analises-e-criticas/evento-arte-tecnologia-alfineta-bordado-reflete-sobre-ia/
