# Moacir Santos 100 anos: fusão de ancestralidade e erudição no jazz

> Moacir Santos, compositor e maestro que completaria 100 anos em 26 de julho, fundiu ritmos afro-brasileiros com jazz erudito em obras como "Coisas". A trajetória do Sertão nordestino aos Estados Unidos produziu um legado musical sofisticado, ainda sub-reconhecido no Brasil, que mescla ancestralidade e técnica orquestral.

*Teatro Brasileiro · Análises e Críticas · 27 de julho de 2026 · Cláudio Veríssimo*

Compositor e maestro, Moacir Santos completaria 100 anos em 26 de julho. Sua obra funde ritmos afro-brasileiros com jazz, mas ainda carece de reconhecimento no Brasil. Conheça sua trajetória do Sertão aos EUA.

## Moacir Santos 100 anos: fusão de ancestralidade e erudição no jazz

Moacir Santos completaria 100 anos neste 26 de julho. Compositor, arranjador, multi-instrumentista e maestro, ele construiu uma obra que funde ritmos afro-brasileiros com jazz, mas ainda carece de maior reconhecimento no Brasil. Sua trajetória do Sertão Pernambucano a Los Angeles revela um músico que transformou a oralidade em sistema.

A canção mais conhecida de Moacir Santos é Nanã, que homenageia a orixá mais antiga das religiões afro-brasileiras. A melodia partiu da reza de pessoas numa procissão. A faixa, trilha de abertura do filme Ganga Zumba, ganhou letra de Mário Telles e foi gravada por Nara Leão, Sergio Mendes, Tim Maia e nomes do jazz como Kenny Burrell e Gil Evans.

## Como a infância no Sertão moldou o músico

Nascido na região de Serra Talhada, em Pernambuco, Moacir Santos aprendeu a tocar instrumentos de banda marcial ainda criança. Em depoimento à Rádio MEC, em 2016, ele relembra: "Quando eu entendi a vida, que era um ser vivo, a música também já estava comigo. A gente brincava de banda de música da cidade". Aos 10 anos, já tinha sua própria banda de meninos na rua.

Allan Abbadia, multi-instrumentista, arranjador, compositor e pesquisador, explica que as bandas de música têm importância na formação do país. "No Brasil Império, a gente tinha quase que a totalidade de músicos no país, pessoas negras. Então, as bandas eram o rádio da cidade". Moacir veio dessa tradição.

## A formação erudita e a ponte com o popular

Na adolescência, Moacir fugiu de casa e rodou o Nordeste em orquestras de circo e bandas militares. Em João Pessoa, foi regente da banda da Rádio Tabajara e, depois, seguiu para o Rio de Janeiro, onde atuou na Rádio Nacional como saxofonista a partir de 1948. Três anos depois, já era arranjador da orquestra da emissora.

Foi aluno do maestro César Guerra-Peixe e professor de Baden Powell, João Donato, Paulinho da Viola, Airto Moreira, Roberto Menescal, entre outros. Andrea Ernest Dias, flautista e autora do livro "Moacir Santos, ou os caminhos de um músico brasileiro", conta que o artista construiu uma identidade sonora a partir de pesquisas em teoria musical. "Para quem queria se aprofundar, sair do campo da intuição musical, o Moacir se tornou essa pessoa que fazia essa ponte entre a erudição e o popular".

## A obra-prima Coisas e a inovação do mojo

Ainda na década de 1960, Moacir arranjou álbuns de Elizeth Cardoso e Baden Powell, e compôs trilhas de filmes. Parte delas foi lançada no álbum Coisas, de 1965, considerado sua obra-prima. O trabalho reúne 10 composições, todas com título "coisa" seguido de numeração. Andrea Ernest Dias comenta: "O disco Coisas é uma síntese dessa trajetória. Ele tem referências das bandas filarmônicas e das jazz bands, com a pesquisa na Orquestra Afro-brasileira".

Em 1967, Moacir deixou a Rádio Nacional e se mudou para os Estados Unidos, onde seguiu dando aulas e compondo trilhas de cinema nas equipes dos maestros Henry Mancini e Lalo Schifrin. Na década de 1970, lançou álbuns pela gravadora Blue Note, entre eles Maestro, indicado ao Grammy. Andrea Ernest Dias explica o "mojo", sistema criado por ele: "Uma espécie de síntese, muito swingado. Ele sistematizava as próprias células rítmicas e transformou esse ritmo numa marca pessoal".

## O legado que ainda ecoa

Em 1985, Moacir Santos foi homenageado no 1º Free Jazz Festival e tocou na abertura ao lado de Radamés Gnatalli. A obra foi revisitada por Zé Nogueira e Mario Adnet no projeto Ouro Negro, com participações de Milton Nascimento, Gilberto Gil e do próprio Moacir. O álbum Ouro Negro foi porta de entrada para ouvintes como Allan Abbadia.

Allan Abbadia destaca: "Ele é fruto de uma genialidade incrível e uma intelectualidade conquistada através dos estudos da nossa oralidade. Uma das características mais marcantes é o diálogo entre diferentes expressões artísticas da diáspora".

Neste ano, já aconteceram eventos em comemoração ao centenário. Em agosto, Allan Abbadia vai dar aulas sobre a obra de Moacir Santos no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc em São Paulo. Vinícius de Moraes, parceiro das composições Menino travesso e Se você disser que sim, homenageou Moacir nos versos do Samba da benção.

## Perguntas Frequentes

### Qual a música mais conhecida de Moacir Santos?

Nanã, que homenageia a orixá mais antiga das religiões afro-brasileiras.

### Onde Moacir Santos nasceu?

No Sertão Pernambucano, na região de Serra Talhada.

### Quando Moacir Santos morreu?

Em 2006, em Los Angeles, aos 80 anos, em decorrência de um derrame.

### Qual é a obra-prima de Moacir Santos?

O álbum Coisas, de 1965, com 10 composições intituladas "coisa" seguidas de numeração.

### Moacir Santos foi indicado ao Grammy?

Sim, pelo álbum Maestro, lançado pela Blue Note.

### Quem foram os alunos de Moacir Santos?

Baden Powell, João Donato, Paulinho da Viola, Airto Moreira, Roberto Menescal, entre outros.

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