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Da periferia para o mundo: concerto marca 20 anos de projeto no Recife

ResumoO projeto Orquestra Criança Cidadã completa 20 anos no Recife com concerto no Teatro de Santa Isabel. A iniciativa transformou vidas no bairro do Coque, formando músicos como o violista Isaías Tavares, filho de Ivone do Santos. O evento celebra o impacto social e cultural da orquestra na periferia.

Ivone do Santos sobe ao Teatro de Santa Isabel com o ingresso para o concerto que celebra 20 anos do projeto Orquestra Criança Cidadã. O filho dela, o violista Isaías Tavares, é um dos egressos que mostra como a iniciativa transformou vidas no bairro do Coque, no Recife.

Sirlene DamascenoPublicado em Atualizado 4 min de leitura
Da periferia para o mundo: concerto marca 20 anos de projeto no Recife
Foto:Da periferia para o mundo: concerto marca 20 anos de projeto no Recife · Teatro Brasileiro

Da periferia para o mundo: concerto marca 20 anos de projeto no Recife

O concerto no Teatro de Santa Isabel, no Recife, marca os 20 anos do projeto Orquestra Criança Cidadã, criado em 25 de julho de 2006. A iniciativa formou mais de 1.500 jovens, como o violista Isaías Tavares, hoje na Orquestra Sinfônica de Goiânia, e o contrabaixista Antonino Tertuliano, único latino-americano na Filarmônica de Duisburg, na Alemanha.

A trajetória de Isaías Tavares: do Coque à Áustria

Isaías Tavares entrou no projeto em 2006, ainda adolescente, morando no bairro do Coque, que tinha o menor índice de desenvolvimento humano do Recife. A casa da família, feita de tábuas de madeira, foi derrubada por uma tempestade em 2009. O projeto social conseguiu doações para erguer uma residência de alvenaria em outra rua do bairro e pagou o aluguel de uma casa até o novo lar ficar pronto.

Antes de ter a viola, Isaías simulava o instrumento com uma caixa de papelão e o movimento do arco com um pedaço de galho de goiabeira. Aos 18 anos, passou em um processo seletivo para estudar no conservatório superior de Salzburgo, na Áustria. Depois, tocou na Orquestra Sinfônica de Wels e viajou pela Europa. Voltou ao Recife e passou em concurso para a Orquestra Sinfônica de Goiânia, onde trabalha há 15 anos como violista principal.

A mãe que sustentou o sonho

Ivone do Santos, 57 anos, era empregada doméstica e mãe solo. Aos 11 anos, já fazia faxina e cuidava de crianças, abandonando a escola. Ela sustentou o filho com pouco dinheiro, mas nunca o deixou desistir. "Foi minha mãe que me estimulou e nunca me deixou desistir", afirmou Isaías. Ivone estava acompanhada no concerto pelo esposo, Damião Ferreira, 61 anos, padrasto de Isaías.

Antonino Tertuliano: do Coque à Alemanha

O contrabaixista Antonino Tertuliano, egresso da primeira turma, é hoje o único latino-americano entre os 100 integrantes da Orquestra Filarmônica de Duisburg, na Alemanha. Ele se lembra de como chegou à orquestra com 14 anos e da primeira vez que tocou no Santa Isabel: "Foi aqui que tudo começou". Com 16 anos, já sabia que a música seria sua profissão. Fazia 20 minutos de caminhada até a orquestra e ficava o tempo que podia na sala de estudos.

Antonino conseguiu aprovar um projeto via Lei Rouanet para captar recursos e apresentar música clássica em escolas no Nordeste. O trio de músicos, formado por ele e mais dois europeus, se chama Palíntonos. "É uma expressão que significa flexibilidade e tensão, mas nunca rompimento", explicou.

Herlane da Silva: doutorado nos EUA

A violoncelista Herlane da Silva, 31 anos, também da primeira turma, está no doutorado em Houston (EUA), onde pesquisa a importância dos projetos sociais latino-americanos na formação de músicos. Ela tocou para a mãe, a dona de casa Patrícia, e para o pai, o pedreiro Herculano José. "Quando eu cheguei na sala, meu coração começou a palpitar", disse.

O projeto que forma cidadãos

O diretor e criador do projeto, o juiz de direito João Targino, do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE), explica que o primeiro objetivo não é apenas formar músicos, mas cidadãos. "Nós começamos esse trabalho há 20 anos e eu pude ver o quanto a música é transformadora na vida de uma pessoa", afirmou.

A iniciativa tem sede em um quartel do Exército próximo ao Coque e oferecia três refeições diárias aos alunos. Na época, o maestro potiguar Cussy de Almeida estava na regência.

Expansão para a área rural

O projeto também atua em um núcleo na área rural de Igarassu, a cerca de 30 quilômetros do Recife. Lá, 40 crianças e adolescentes, filhos de pais que trabalham na roça, estão trocando a lida no campo por instrumentos musicais. "Eles veem no projeto uma oportunidade de crescer, de conhecer e expandir os horizontes", afirmou a professora Basemate Neves, que coordena as atividades no local.

Quatro alunos de Igarassu foram aprovados no curso de música da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Entre eles, José Felipe da Silva, 20 anos, contrabaixista, conheceu o projeto há 10 anos na escola pública. Antes, a rotina dele era acompanhar os pais na plantação de milho, inhame, macaxeira e feijão.

Perguntas Frequentes

Quando foi criado o projeto Orquestra Criança Cidadã?

O projeto foi criado em 25 de julho de 2006.

Quantos jovens já passaram pelo projeto?

Mais de 1.500 jovens já passaram pelo projeto.

Onde fica a sede do projeto?

A sede fica em um quartel do Exército próximo ao bairro do Coque, no Recife.

Quem criou o projeto?

O projeto foi criado pelo juiz de direito João Targino, do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE).

Qual o principal objetivo do projeto?

O principal objetivo é formar cidadãos, não apenas músicos.

O projeto atua fora do Recife?

Sim, o projeto tem um núcleo na área rural de Igarassu, a cerca de 30 quilômetros da capital pernambucana.

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