Festival de cinema de Brasília vive impasse; classe artística repudia
O Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, o mais longevo do país, atravessa um momento de incerteza. Nesta segunda-feira, diretores do evento foram informados, por representantes do governo do Distrito Federal, de que a 59ª edição não seria realizada entre os dias 11 e 19 de setembro. A notícia provocou reação imediata da classe artística, que repudia a possibilidade de cancelamento. Ainda na noite do mesmo dia, a governadora do DF, Celina Leão, publicou em suas redes sociais a determinação para que a Secretaria de Economia providencie os recursos necessários. De acordo com ela, o evento está confirmado.
59ª edição teve recorde de inscrições: 1.928 filmes
A edição de 2026 recebeu número recorde de inscrições, com 1.928 obras pleiteando uma vaga na mostra competitiva. Mais de 80 filmes estão confirmados, com envolvimento de centenas de profissionais do audiovisual de todo o Brasil. O volume expressivo de inscrições evidencia a relevância do festival como vitrine para o cinema nacional, especialmente para obras inéditas, que precisam ser selecionadas para concorrer ao Troféu Candango.
Reação da classe artística: repúdio e união
Em publicação nas redes sociais, o diretor artístico do festival, Eduardo Valente, lamentou o possível cancelamento e pediu a união de todos os envolvidos com cinema para manter o evento.
"O que teremos para amanhã e depois? Difícil dizer, mas, seguramente, nem essa edição nem o futuro deste evento será determinado só por quem estava aqui lutando para organizá-lo. Teremos que ver o quanto as associações em geral, o setor do cinema, o público do DF e até, por que não, outros festivais de cinema do país estarão dispostos a se juntar nessa briga", escreveu Valente.
A fala de Valente dialoga com a tradição de resistência do festival, que só não foi realizado durante a ditadura militar. A preocupação não é apenas com a edição de 2026, mas com a continuidade de um evento que, desde 1965, consolidou-se como espaço de debate sobre o audiovisual brasileiro.
Crise no GDF e o escândalo dos títulos podres
Tiago de Aragão, diretor no Centro Oeste da Associação das Produtoras Independentes do Audiovisual Brasileiro (API), associou o possível cancelamento à crise instalada no GDF após o escândalo dos bilhões de reais em títulos podres do Banco Master comprados pelo Banco de Brasília (BRB).
"São dezenas de profissionais empregados que já estavam trabalhando sem receber; são produtoras e cineastas de todo o país que reservaram o lançamento dos seus filmes para Brasília. A imagem que fica é de um GDF que pode não honrar seus compromissos para sanar um rombo causado em uma história espúria que envolveu o BRB com o Banco Master e Vorcaro".
A declaração de Aragão expõe a cadeia produtiva que depende do festival: profissionais contratados, produtoras que planejaram lançamentos e um circuito que se mobiliza em torno da mostra. A incerteza sobre a realização do evento coloca em risco não apenas a edição, mas a confiança no financiamento público do audiovisual.
O risco de reverberação em outros festivais
Para Tatiana Costa, presidente da Associação de Profissionais do Audiovisual Negro (Apan), o que acontece no DF pode reverberar por outros festivais do país.
"Só durante a ditadura que o Festival de Brasília não foi realizado. E o que isso significa simbolicamente? Para além das decisões financeiras, é uma decisão política do GDF. Isso nos preocupa imensamente, porque não ameaça apenas o festival de Brasília, e sim todos os festivais de cinema do Brasil".
A fala de Tatiana Costa conecta o momento atual à história do festival, que nasceu em 1965 e, ao longo das décadas, só foi interrompido em dois anos durante o regime militar. Durante a pandemia, o evento foi realizado de forma virtual, o que reforça a tese de que a não realização é uma escolha política, não uma fatalidade.
O testemunho de quem vive o festival por dentro
Carina Bini é cineasta de Brasília. Na edição do ano passado, subiu ao palco do Cine Brasília com todo o elenco de seu filme Mil Luas para apresentá-lo ao público da cidade. Hoje, ela lamenta a possibilidade de um auditório vazio e uma tela apagada em setembro.
"O Festival de Brasília movimenta todo um mercado de trabalho, uma cadeia produtiva do audiovisual, traz pessoas para a cidade, ele é um evento que gera emprego, gera recurso para o Distrito Federal e é importante historicamente para o cinema brasileiro", destaca.
A fala de Carina Bini traduz a dimensão concreta do festival: não é apenas uma celebração, mas um motor econômico e cultural. O Cine Brasília, palco histórico da mostra, seria novamente o centro de encontro entre cineastas, críticos e público, algo que a ameaça de cancelamento coloca em suspenso.
Histórico: patrimônio imaterial desde 2007
O Festival de Brasília nasceu em 1965 e, ao longo das décadas, consolidou-se como um espaço de debate sobre o audiovisual brasileiro. Desde 2007, é considerado patrimônio imaterial do Distrito Federal. Um diferencial em relação a outros festivais é que as obras selecionadas precisam ser inéditas, e os vencedores recebem o Troféu Candango, em homenagem aos pioneiros que construíram a capital.
A exigência de ineditismo confere ao festival um papel único na revelação de novos talentos e na circulação de obras que ainda não tiveram chance de chegar ao público. O Troféu Candango, por sua vez, carrega a memória da construção de Brasília, ligando o cinema à história da cidade.
O impasse e a resposta do GDF
A Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal, procurada pela Agência Brasil, não se manifestou sobre o assunto. A determinação de Celina Leão, publicada nas redes sociais, trouxe um alívio temporário, mas a classe artística permanece em estado de alerta. A possibilidade de cancelamento, ainda que revertida, expôs a fragilidade do financiamento do festival e a dependência de decisões políticas de curto prazo.
O impasse também levanta questões sobre a gestão da crise no GDF. A associação feita por Tiago de Aragão entre o possível cancelamento e o escândalo dos títulos podres do Banco Master comprados pelo BRB sugere que o festival pode estar sendo usado como moeda de troca em um contexto de ajuste fiscal. Se essa leitura estiver correta, o risco não é apenas para a edição de 2026, mas para a previsibilidade do apoio público ao cinema.
O que está em jogo para o cinema brasileiro
O Festival de Brasília não é um evento isolado. Ele integra um circuito de festivais que sustenta a circulação do cinema nacional. A fala de Tatiana Costa, da Apan, aponta para o efeito dominó: se o festival mais longevo do país pode ser ameaçado, outros festivais menores podem se sentir igualmente vulneráveis.
A edição de 2026, com recorde de inscrições, demonstra que o festival segue atraindo a produção nacional. Os mais de 80 filmes confirmados e as centenas de profissionais envolvidos representam uma fatia significativa do audiovisual brasileiro. O impasse coloca em risco não apenas a realização da mostra, mas a confiança de produtores e cineastas que planejaram lançamentos e carreiras em torno dela.
A chave de leitura: um festival que resiste
A história do Festival de Brasília é marcada pela resistência. Desde 1965, ele atravessou a ditadura, a pandemia e agora enfrenta uma crise institucional. A reação da classe artística, unida em torno da defesa do evento, é a mesma que garantiu sua continuidade em momentos anteriores. O desfecho do impasse dependerá da efetiva liberação de recursos pela Secretaria de Economia, mas a mobilização em torno do festival já demonstra que a comunidade cinematográfica não aceita passivamente o esvaziamento de um patrimônio imaterial do DF.
O futuro do evento, como escreveu Eduardo Valente, não será determinado apenas por quem luta para organizá-lo. Dependerá da disposição de associações, do setor de cinema, do público do DF e de outros festivais de se juntarem nessa briga. A pergunta que fica é se a determinação de Celina Leão será suficiente para garantir não apenas a edição de 2026, mas a sustentabilidade de um festival que, há seis décadas, é parte central da história do cinema brasileiro.
Perguntas Frequentes
O Festival de Brasília foi cancelado?
Não. Os diretores foram informados de que a 59ª edição não ocorreria de 11 a 19 de setembro, mas a governadora Celina Leão determinou a liberação de recursos pela Secretaria de Economia, confirmando o evento.
Quantos filmes foram inscritos na edição de 2026?
A edição de 2026 recebeu 1.928 inscrições, número recorde, com mais de 80 filmes confirmados.
O Festival de Brasília já foi cancelado antes?
Só durante a ditadura militar, em dois anos. Durante a pandemia, foi realizado de forma virtual.
O que é o Troféu Candango?
É o prêmio dado aos vencedores do festival, em homenagem aos pioneiros que construíram a capital.
Quem é Eduardo Valente?
Eduardo Valente é o diretor artístico do Festival de Brasília e pediu união da classe para manter o evento.
Qual a relação entre o impasse e o Banco Master?
Tiago de Aragão, da API, associou o possível cancelamento à crise no GDF após o escândalo dos títulos podres do Banco Master comprados pelo BRB.
