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Vale do Café celebra 70 anos de Mestra Fatinha e encontro dos Jongos

Os 70 anos de Mestra Fatinha se entrelaçam com o Dia Estadual do Jongo, no 5º Encontro dos Jongos do Vale do Café, reunindo 450 lideranças de comunidades tradicionais.

Sirlene DamascenoPublicado em Atualizado 4 min de leitura
Vale do Café celebra 70 anos de Mestra Fatinha e encontro dos Jongos
Foto:Vale do Café celebra 70 anos de Mestra Fatinha e encontro dos Jongos · Teatro Brasileiro

Vale do Café celebra 70 anos de Mestra Fatinha e encontro dos Jongos

Neste sábado (25), o Vale do Café comemora uma data significativa: os 70 anos de Maria de Fátima da Silveira Santos, a Mestra Fatinha. A festividade se entrelaça com a celebração do Dia Estadual do Jongo, por meio da realização do 5º Encontro dos Jongos do Vale do Café, no Parque das Ruínas de Pinheiral, localizado no sul fluminense.

O evento reunirá 450 lideranças de 18 quilombos e comunidades tradicionais de jongo dos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo. Para Mestra Fatinha, essa reunião tem um significado profundo, reafirmando a cultura dos ancestrais em um local de grande simbologia.

O Parque das Ruínas de Pinheiral, cedido pela Prefeitura de Pinheiral, abriga atividades promovidas pelo Centro de Referência de Estudo Afro do Sul Fluminense (Creasf), que foi criado pelas lideranças jongueiras do Pinheiral. Historicamente, a área também é significativa, uma vez que abriga o que foi São José dos Pinheiros, uma das maiores fazendas de café durante o Brasil colônia, onde mais de 3 mil negros escravizados viveram. "A gente herdou essa tradição deles, e a gente mantém. São vários núcleos de jongueiros de várias famílias", explica Mestra Fatinha.

Durante os 70 anos de vida, a matriarca passou 50 deles à frente da luta e resistência pela preservação da cultura negra na região do Vale do Café. "O jongo é a verdadeira bandeira de luta do povo preto, porque os negros escravizados usavam o jongo para se organizar, namorar, cantar a saudade da África, para cultuar os orixás", afirma.

Mestra Fatinha recorda que o movimento negro entre Rio e São Paulo era muito forte no final dos anos 80 e início dos anos 90, quando começou sua militância no Clube Palmares, o único clube social de negros do estado do Rio, localizado em Volta Redonda, cidade vizinha de Pinheiral. "Meus pais e avós sempre foram muito conscientes do que é ser negro nesse país. Na minha família sempre se trabalhou a cultura. Meu bisavô tinha corte de Moçambique, meu pai era jongueiro, sambista, músico, minhas tias cantavam, minha avó também. Minha mãe está com 93 anos e canta até hoje", acrescenta.

A luta de Mestra Fatinha também foi reconhecida pelo meio acadêmico, com a Universidade Federal Fluminense concedendo-lhe, no ano passado, o título de notório saber. "Já estou dentro da UFF há mais de 10 anos fazendo Encontros de Saberes. É uma referência", ressalta.

A importância de permitir que os negros contem suas próprias histórias é outro aspecto destacado por Mestra Fatinha. "Isso é muito importante, principalmente para as crianças e adolescentes, por sermos essa referência e eles valorizarem a luta dos que vieram antes de nós."

"Aqui no Vale do Café se trabalha muito a memória dos barões, e a gente vem fazendo a contramão contando a história do povo preto, porque o nosso povo é que construiu todo esse império", finaliza.

Graças ao trabalho cultural realizado pelo Jongo do Pinheiral, a Fundação Palmares certificou a região como comunidade quilombola no ano passado. Agora, a intenção é prosseguir com o processo no Incra para delimitação da área. "É uma área histórica que vai dar mais visibilidade à nossa cultura e para a gente poder desenvolver com mais autenticidade tudo que a gente já faz", explica Mestra Fatinha.

Em 2005, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) reconheceu o Jongo como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. Também conhecido como congo ou caxambu, segundo Mestra Fatinha, é uma manifestação característica da Região Sudeste do Brasil. O costume é mantido por descendentes de pessoas escravizadas de origem Bantu, especialmente do Congo, Angola e Moçambique, que foram trazidas para trabalhar nas lavouras de café e cana-de-açúcar nos estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo e Espírito Santo.

Após a abolição, o jongo desceu a serra e chegou aos morros cariocas por meio de famílias que ajudaram a fundar as futuras escolas de samba.

O 5º Encontro de Jongos do Vale do Café é uma realização conjunta do Jongo de Pinheiral, da Rede de Jongo do Vale do Café, do Instituto Floresta, da Rede de Patrimônio Imaterial do Estado do Rio de Janeiro e do Centro de Referência Afro do Sul Fluminense (CREASF), com o apoio da prefeitura de Pinheiral, dos ministérios da Igualdade Racial e da Justiça, do Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (Pronasci) e do Museu Vassouras.

A programação do evento se estende até amanhã (26), quando se comemora o Dia de Sant'Ana e o Dia Estadual do Jongo. Haverá uma procissão em homenagem à santa, mãe de Maria e avó de Jesus Cristo, sincretizada como Nanã nas religiões de matriz afro-brasileira, seguida de ladainhas em sua homenagem. A saída da procissão, que é uma tradição local com mais de 100 anos, está marcada para às 18h, na Casa do Jongo de Pinheiral.

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