Festival Bonito CineSur: integração audiovisual e narrativas indígenas marcam a 4ª edição
Começa nesta sexta-feira (24) a quarta edição do festival de cinema Bonito CineSur, na cidade de Bonito (MS). O evento, definido pela organização como um espaço de encontro e integração do cinema e do audiovisual sul-americano, reúne 32 produções de 13 países da América do Sul, entre longas e curtas-metragens. Até sábado (1º/8), o público poderá conferir uma diversidade de filmes que, mesmo sem uma escolha deliberada da curadoria, abordam narrativas ou contextos indígenas.
O festival Bonito CineSur promove integração audiovisual sul-americana ao oferecer uma programação que atravessa fronteiras e coloca em diálogo obras de Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Guiana, Guiana Francesa, Paraguai, Peru, Suriname, Uruguai e Venezuela. Além das exibições, o evento promove palestras, cine debates, atividades formativas e encontros com realizadores, tudo gratuito.
Curadoria sem amarras temáticas
Zé Geraldo Couto, um dos curadores da mostra Sul-Americana, explica que os filmes selecionados são variados e que não existe definição prévia de temas, gêneros ou estilos. "Buscamos sempre uma combinação entre alguns valores: qualidade estética e narrativa; tema relevante; capacidade de se comunicar com um público amplo", afirmou. Segundo ele, a escolha final depende da oferta de filmes da temporada, e só então é possível detectar tendências e estabelecer conexões entre as obras. Nada é definido antes de assistir aos filmes inscritos.
Essa abordagem aberta permitiu que, naturalmente, as narrativas indígenas ganhassem destaque na edição deste ano. Couto observa que a presença maior dessa temática se encontra na Mostra Ambiental, na Sul-Mato-Grossense e em sessões especiais, mas pondera que, considerando a importância dos povos originários no continente, a presença ainda é pequena.
Obras que dialogam com o tempo
Entre os filmes com temática indígena, destaca-se Aldeia de Nalike, documentário realizado por Claude Lévi-Strauss e Dina Lévi-Strauss em 1936, que registra o povo Kadiwéu, na região de Porto Murtinho (MS). É um filme silencioso, rodado em 16 milímetros, e pela primeira vez terá execução de trilha sonora original, criada para recompor o trabalho e potencializar o resgate. Marcos Pierry, curador da Mostra Sul-Mato-Grossense, lembra que a obra completa 90 anos e chama atenção para a mudança na abordagem do tema, de um olhar folclórico e exótico para um enfoque mais sensível.
Outra produção é Vípuxovuko-Aldeia, de Dannon Lacerda, que aborda a comunidade Terena em Campo Grande (MS) a partir de uma perspectiva queer e ancestral. Pierry destaca que hoje o indígena sai da frente da câmera e vai para trás dela, contando suas próprias histórias, não só documentando ou denunciando, mas também propondo ficção. "Isso é de uma riqueza grande, uma chance grande para nós todos aprendermos."
Presença internacional e liderança indígena
O evento contará com a presença do líder indígena Almir Suruí, que deve acompanhar uma sessão especial do filme Minha Terra Estrangeira, dos cineastas João Moreira Salles e Louise Botkay. O longa documental acompanha Suruí e sua filha Txai em meio à disputa política e à luta pela preservação da Amazônia, discutindo território, resistência indígena e a urgência de pensar o futuro. A sessão especial ocorre na noite da próxima terça-feira (28).
O tema indígena também aparece em obras internacionais, como o curta colombiano Sukua, que conta a história de um menino da etnia Cogui que ganha uma pistola d'água, e o boliviano Uma Uñjirinaka Cuidadorxs del Água, que mostra comunidades lutando contra a contaminação da água. Para Couto, em um festival que tem o meio ambiente e a pluralidade cultural como preocupações centrais, é natural que as culturas indígenas sejam protagonistas, já que a luta pela defesa da natureza coincide com a luta pela preservação dos povos originários.
Homenagens: Vincent Carelli e Paulina García
O festival homenageia o cineasta Vincent Carelli com o Troféu Pantanal pelo conjunto de sua obra. Carelli é responsável por filmes como Corumbiara e Martírio e criou o projeto Vídeo nas Aldeias, de capacitação audiovisual, em 1986. O projeto contribuiu para a produção de mais de 70 filmes por indígenas. Para Carelli, o cinema feito por indígenas apresenta "as coisas no seu contexto, significados e sentidos". Ele afirma que esse processo revela um novo olhar, que permite ao público distinguir uma outra perspectiva e dialogar com as culturas indígenas.
Também será homenageada a atriz chilena Paulina García, conhecida por atuações em A Noiva do Deserto, Narcos e Gloria, este último lhe rendeu o Urso de Prata de melhor atriz no Festival de Berlim. García atua em Querido Trópico, escolhido como filme de abertura, exibido hoje às 19h30.
Programação gratuita e diversa
Todas as atividades do Bonito CineSur são gratuitas. O festival ocorre no Centro de Convenções de Bonito, na região da Serra da Bodoquena. Mais informações podem ser obtidas no site oficial do evento.
Perguntas Frequentes
Onde e quando acontece o Festival Bonito CineSur?
O festival ocorre de 24 de julho a 1º de agosto no Centro de Convenções de Bonito (MS).
Quantos filmes serão exibidos?
Serão apresentadas 32 produções cinematográficas de 13 países da América do Sul.
Quem são os homenageados da edição?
O cineasta Vincent Carelli recebe o Troféu Pantanal, e a atriz chilena Paulina García também é homenageada.
O festival é gratuito?
Sim, todas as atividades promovidas pelo CineSur são gratuitas.
Quais países participam?
Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Guiana, Guiana Francesa, Paraguai, Peru, Suriname, Uruguai e Venezuela.